Marta e o eleitor que não conhece Kassab

Brasil · 13/10/2008 - 15h50 - 203 Comentários

Um anônimo, nos comentários do post sobre o racismo nas eleições norte-americanas, traz a questão da propaganda de Marta Suplicy nas eleições paulistanas. Sem jamais ligar a com b, parece sugerir que há um paralelo entre Marta perguntando ‘Você sabe quem é Gilberto Kassab?’ e McCain perguntando ‘Você sabe quem é Barack Obama?’

Se é este o paralelo que o anônimo quer demonstrar, bem, ele tem toda razão não fosse uma diferença fundamental. Na campanha republicana, jamais é sugerido o que os eleitores deveriam saber a respeito de Obama para realmente conhecê-lo. Sem qualquer respeito pelas sutilezas, a campanha do PT deixa claro: você, eleitor, sabe se Kassab é casado ou se tem filhos?

Não voto em São Paulo – mas esta foi a última cidade na qual morei no Brasil, uma cidade que aprendi a respeitar e mesmo gostar. No primeiro turno, ficaria dividido. No segundo, meu primeiro impulso seria o de votar em Marta Suplicy. Não gosto de seu estilo, acho que Marta tem nojinho de classe média e só lhe interessam pobres ou os grã-finos seus pares, mas Marta tem fundamentalmente as prioridades administrativas no lugar certo. A maior integração entre a periferia de São Paulo e o centro é fundamental para a cidade. Kassab parece estar alheio a este problema.

Mas Marta Suplicy teria perdido meu voto com essa propaganda.

Marta não tem o direito de fazer uma insinuação assim tão grosseira. Não ela, que tem histórico de lutar pela igualdade de direitos entre homossexuais e heterossexuais. Assim como McCain sabe que, insinuando a questão racial, vai atingir um tipo de eleitor do qual Obama precisa, Marta sabe que sugerindo a homossexualidade do prefeito pode criar problemas em sua base conservadora. É cálculo político, cálculo de quem mostra não ter pudores em campanha eleitoral.

O argumento (cínico) para justificar um ataque desses é que o eleitor tem o direito de saber tudo sobre seu candidato. Mas isso não é verdade. Não é da conta do eleitor quantas vezes Marta pulou a cerca quando era casada com Eduardo, ou vice-versa. Não importa ao eleitor que jogos eróticos lhes agradavam ou desagradavam. Houve o tempo em que considerava-se que perder a virgindade dizia algo a respeito do caráter de uma mulher solteira. Pois opção sexual não diz rigorosamente nada a respeito do caráter, bom ou mau, de Gilberto Kassab. E outing, a prática de tirar do armário quem está confortável lá dentro, pode ser um método considerado aceitável entre militantes mais extremistas da causa gay mas é também, e fundamentalmente, meter-se na vida alheia sem ser chamado.

É evidente que o eleitor deve saber alguma coisa a respeito de seus eleitos. Se já foi preso, por exemplo. De onde vem sua renda. Detalhes sobre sua vida sexual e afetiva não estão na lista a não ser que exista uma acusação de hipocrisia envolvida. Mas, ao que se sabe, Kassab não persegue a parada gay tampouco finge ser algo que não é. Apenas considera que sua vida íntima não é da conta de ninguém. Não é, mesmo.

Marta Suplicy é sexóloga. Ela conhece o assunto. Sabe como uma opção sexual fora dos padrões vem cheia de dores, principalmente para aqueles criados em famílias conservadoras. A dificuldade de se abrir com pai em mãe, a incompreensão, os receios de considerar-se sujo. Para algumas pessoas, é uma situação congelante, que impede a vida de seguir seu fluxo. É o tipo da dor que qualquer pessoa deve respeitar. Não é à toa que a imprensa sempre respeitou a privacidade de Kassab. Marta sempre esteve no time dos que procuravam mudar a sociedade para aliviar este tipo de dor. Repentinamente, mudou de lado.

Parece dizer: às favas os princípios, o que vale é vencer.

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