Eleições EUA: ‘Quem é Barack Obama?’
E a questão da raça no pleito

EUA · 13/10/2008 - 05h32 - 75 Comentários

Edição 20 | segunda-feira, 13 – A Pensilvânia já era. A última pesquisa do jornal local Morning Call põe Obama com 51% contra 39% de McCain. Enquanto mais um swing state parece cair, a campanha de John McCain mostra desorganização. Enviaram Sarah Palin para lançar o disco inicial em um jogo de hockey no principal estádio da Filadélfia, capital do estado. Estádios esportivos são o tipo de lugar no qual político não entra, dizia Antônio Carlos Magalhães. Com as pesquisas indicando uma vitória tão grande do adversário, talvez não seja surpresa que ela tenha sido recebida por uma vaia ensurdecedora. (Que a tevê disfarçou aumentando o áudio da música.)

As pesquisas nacionais como elas estão: Gallup, Obama 51%, McCain 42%. Rasmussen, Obama 52%, McCain 45%. Research 2000, Obama 52%, McCain 40%. Zogby, Obama 48%, McCain 44%.

McCain prometeu, ontem, que irá ‘whip his you-know-what in the debate’. Numa tradução não literal mas de todo correta: vai meter a chibata na bunda de Obama. O candidato republicano não tem escolha. Precisa mesmo, na quarta-feira, quando ocorrerá o último debate, de uma vitória acachapante. Surpreendente. Não é uma tarefa fácil. Ele não tem muitos dias para virar o jogo.

Sarah Palin, sugere a propaganda republicana, é uma norte-americana típica, ‘como todos nós’. Barack Obama é perigoso por ser um desconhecido. ‘Quem é Barack Obama?’, pergunta em tom ameaçador a propaganda de McCain. Palin era um nome desconhecido fora do Alaska até dois meses atrás. Barack Obama está em campanha presidencial faz dois anos, participou de inúmeros debates neste período, deu incontáveis entrevistas e escreveu duas auto-biografias.

Os eleitores sabem mais sobre sua vida pessoal, hoje, do que jamais souberam sobre candidatos passados. Sabem a história de sua mãe e de seu pai, de seus avós maternos, sabem em que escolas estudou, que igreja freqüenta, quem o apoiou em cada campanha, como voto em quê. A quantidade de informação biográfica sobre Obama – basta fazer uma busca no Google – é muito maior do que a sobre o próprio McCain.

Por trás da idéia de que ‘Obama é um desconhecido’ e ‘Palin é imediatamente reconhecida’ o subtexto é racista. Ninguém jamais realmente conhece um homem negro. Não é para dizer que a maioria dos norte-americanos aceitem essa idéia. De forma alguma. Funciona assim: em estados como a Pensilvânia, Michigan, Ohio, Virgínia, há uma extensa classe média baixa branca. Nestes estados, há tensão racial. Estes eleitores estão entre os que mais sofrem com a crise econômica. Seu primeiro impulso é votar contra o partido que está no governo. É neste contexto sutil que a propaganda republicana pergunta: ‘quem realmente é Barack Obama?’

A campanha presidencial norte-americana é talvez a mais sofisticada que existe no mundo. Há muitos níveis de análise e mensagens são passadas para os espectadores (eleitores?) de muitas formas diferentes. Obama é considerado um dos maiores oradores da história recente norte-americana. No entanto, ninguém lembra – ou cita – seu discurso de aceitação da candidatura durante a Convenção Democrata. O discurso sobre o racismo dois meses antes é lembrado. Seu discurso de lançamento da campanha, em 2007, é citado. O na Alemanha? Inesquecível. Aquele que fez na Convenção de 2004 o transformou em candidato nesta eleição. Então por que um discurso apagado no pontapé inicial? Não foi sem querer.

No momento em que deixou de disputar apenas os eleitores democratas e passou a buscar o eleitorado (mais difícil) de todo o país, a estratégia mudou. Passou a ser Obama, o pacato. Obama que passa férias de bermuda com as filhas no Havaí. Obama que passeia de bicicleta. Obama que não faz mais discursos apoteóticos. Obama não apresenta mais grandes teses a respeito dos EUA. Tem idéias normais e só fala de problemas comuns. Fala à classe média e só da classe média. E aparece muito com a família. O tempo todo com a família. Há um motivo: todo o esforço de campanha é voltado para fazer da família Obama uma família como todas as outras. Papai, mamãe, filhinhas. Desconte-se o Cosby Show, dos anos 1970, e os norte-americanos não estão habituados a ver uma família negra funcional. Este não é o estereótipo da típica família dos subúrbios com gramado à frente, jardim com churrasqueira atrás, cerca branca, casas todas iguais uma após a outra, crianças de bicicleta pelas ruas.

A estratégia de ambos foi para um jogo em que terminariam empatados. A crise econômica repentina caiu dos céus para o democrata.

Ainda assim, a verdadeira briga política neste momento não está sendo travada nos discursos ou propostas. Ela não é racional. É um jogo de percepção. E os republicanos seguirão perguntando: quem é realmente Barack Obama como se a pergunta fizesse algum sentido. E Obama seguirá agindo como se fosse o mais pacato e tranqüilo dos homens.

Não é, repita-se, que todos os norte-americanos sejam racistas, muitos poucos o são. E o racismo não é aquele racismo de incendiar cruzes e vestir-se de KKK. Toda a campanha está voltada para o fiel da balança: o eleitor de classe média baixa, sem seguro de saúde, ameaçado por mais uma crise, com medo de perder seu emprego e que percebe o negro como um concorrente direto. Um estranho. Por enquanto, nesta disputa subliminar, os democratas estão vencendo.

Em 2008, são 40 anos do assassinato de Martin Luther King. Outros 40 do assassinato de Bob Kennedy, principal articulador do fim das leis segregacionistas. E 45 do assassinato de Jack Kennedy, o presidente que tomou a decisão de enfrentá-las. Se Obama for eleito, a vitória será daqueles três. É porque o racismo declarado ou não já não tem mais força política nos EUA.

Se esta campanha presidencial tem a ver com raça? Ela é só raça.

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