Eleições EUA: McCain na busca por controle

EUA · 11/10/2008 - 14h56 - 104 Comentários

Edição 19 | sábado 11 – Os últimos três dias foram agitados na trilha para a presidência norte-americana. A pesquisa nacional do canal de notícias de direita FoxNews, divulgada ontem, põe Barack Obama com sete pontos mais do que John McCain. A pesquisa da Newsweek põe a disputa em 52% a 41%, uma diferença de 11 pontos. Há apenas um mês, estavam empatados. Os números confirmam a impressão que as pesquisas instantâneas após os debates sugeriam – de que Obama e Biden eram os favoritos de mais gente.

Obama está disparando também nos swing states, aqueles estados em que tanto republicanos quanto democratas têm chances de vencer. Nas eleições dos EUA, não custa lembrar, o voto direto não vale. Cada estado, dependendo do tamanho de sua população, tem direito a um determinado número de votos no Colégio Eleitoral. O objetivo não é vencer a eleição em todo o país, mas conquistar o maior número de votos no colégio. Se as eleições fossem hoje, sugere o estatístico Nat Silver, que acertou mais do que todas as pesquisas durante as primárias, Obama venceria McCain por 348 votos no Colégio contra 190.

Há um obstáculo para Barack Obama: racismo. Eleitores em alguns estados mais pobres prometem votar em candidatos negros, mas algo entre 2% e 7% deles viram o voto na última hora. É o chamado Efeito Bradley. Trata-se de uma teoria em aberto, ela só foi testada na prática em eleições locais e nunca num pleito presidencial. Se as primárias são indício, Obama não tem o que temer. Seus números finais invariavelmente batiam com média das pesquisas. Mas o risco está lá.

Ontem, o ex-governador republicano de Michigan William Milliken retirou seu apoio a John McCain. O seu, que era um swing state, está cada vez mais certo na conta dos democratas. ‘Este não é o McCain que conheço’, disse Milliken. Situações do tipo estão ocorrendo em todo o país. Há um princípio de pânico na campanha McCain, que ontem tentou novamente virar sua tática.

McCain e Sarah Palin vinham batendo duro em Obama. Querem tirar a economia do foco e questionar o caráter do candidato democrata. Nos últimos dias, começaram a explorar pesadamente a relação de Obama com Bill Ayers, o democrata de Chicago que aparentemente o ajudou muito no início de sua carreira política. Ayers foi terrorista de esquerda nos anos 1960, plantou bombas, esteve preso.

Desde que Bob Kennedy foi assassinado, a proteção especial do Serviço Secreto norte-americano dedicada a presidentes e ex-presidentes foi estendida aos possíveis futuros presidentes. A preocupação com Obama tem sido especial – ele é negro e, até o governo Kennedy/Johnson, a discriminação era legal neste país. Quando os republicanos batem nas ligações entre Obama e Ayers, a idéia se soma aos spams por email com boatos bizarros como de que Obama é árabe, ou muçulmano, ou ele próprio terrorista. Nos últimos dias, conforme Obama cresce nas pesquisas, os ânimos tem se acirrado. Nem McCain nem Palin vinham intervindo. Mas, aqui e ali, após seus eleitores mais exaltados insinuarem ameaças, o Serviço Secreto teve que puxar um ou outro para interrogatórios.

Não é o tipo de situação com a qual um candidato presidencial, nos EUA, quer lidar: o Serviço Secreto investigando gente em seus próprios comícios por ameaças ao oponente. Não bastasse, há republicanos já pulando do barco. McCain começou a intervir. ‘Ele é árabe, tenho medo dele’, disse uma mulher para McCain. O senador tirou o microfone da mão dela e corrigiu: ‘Não há nada o que temer de um governo Obama, ele é um homem respeitável.’ Foi vaiado. Mas interpelou outro. E outro.

A crise econômica é um assunto que John McCain não mais conseguirá dominar. As impressões estão definidas, consolidadas. Cometeu erros demais. Ele precisa desviar do assunto mas sem acirrar demais os ânimos. Ânimos acirrados no lado republicano, neste momento, afastam eleitores independentes, não o contrário. McCain está na pior das situações: precisa bater em Obama, precisa questionar Obama, precisa que a maior quantidade possível de eleitores tenha dúvidas a respeito do caráter de Obama. Ele não tem outra escolha. No assunto que está dominando as discussões – a economia – ele é visto como perdido, desorientado, fraco. O fator que define a eleição, portanto, terá que ser outro. Mas quanto mais bate, quanto mais questiona, mais John McCain afasta eleitores.

Muitos estrategistas democratas estão surpresos, na verdade, que McCain tenha decidido explorar Ayers neste ponto da campanha. No início, quando poderia ter sido mais eficiente, sua campanha pela tola acusação de que Obama seria uma celebridade. Os eleitores acharam a alusão engraçadinha mas, no fundo, no fundo, serviu de elogio.

Faltam 24 dias e tudo pode mudar. Um ataque terrorista árabe em território norte-americano e tudo muda repentinamente. Ou não. Se as eleições fosse hoje, Obama teria uma vitória estrondosa. Mas a eleição não é hoje.

A pedido de alguns de vocês, botei um pouco o pé no freio das atualizações diárias da campanha norte-americana. Vou acelerar um pouco mais esta semana (faltam 24 dias para o pleito) e, na semana seguinte – que começa no dia 20 – voltarei ao ritmo diário.

Ainda sobre o assunto:

  1. Eleições EUA: Libertários de Ron Paul, mulheres
    de McCain e piadas de Obama
    ♦ São os seguintes os estados em que há um número razoável de eleitores libertários: Colorado, Dakota do Norte, Nevada,...
  2. Eleições EUA: McCain à frente ♦ John McCain tem uma vantagem de 4 pontos sobre Barack Obama na pesquisa do Gallup realizada sábado e domingo....
  3. Eleições EUA: McCain vai ao debate Edição 16 | sexta-feira 26 – John McCain gosta de cultivar a imagem de surpreendente. Ninguém, com franqueza, teve...
  4. Eleições EUA: McCain e o adiamento do debate Edição 15 | quinta-feira 25 – Foi um dia inusitado, aqui nos Estados Unidos, com o repentino pedido de...
  5. Eleições EUA: McCain derrapa perante a economia
    E ainda sofre com fogo amigo
    ♦ O noticiário aqui nos EUA amanhece, como não poderia deixar de ser, dominado pela economia. Tanto Barack Obama quanto...