Kassab + Marta não é mau resultado
Mas os partidos seguem frágeis

Brasil · 6/10/2008 - 12h30 - 70 Comentários

(Os leitores doutras cidades do país que perdoem os excessos cariocas deste Weblog.)

No Brasil, São Paulo é minha segunda cidade. E ela tem um bocado a celebrar com a disputa entre Marta Suplicy e Gilberto Kassab. Ambos foram prefeitos que podem dizer ter feito concretamente algo por São Paulo.

Marta tem um grande mérito: conquistou o voto da periferia sem ter feito fisiologismo. Muitos, na classe média alta, não têm idéia de como iniciativas como o bilhete único fazem diferença no bolso de quem mora longe e precisa vir ao emprego na cidade.

Ao mesmo tempo, o Cidade Limpa melhorou surpreendentemente uma cidade em geral áspera. Melhorou mesmo: a qualidade de vida, o humor, melhora quando não há tanta feiúra exposta. Alguns argumentam que a lei é de José Serra. Talvez. Não foi de fácil implementação e este mérito é de Kassab.

De maneiras muito distintas, ambos melhoraram a vida em São Paulo. E, disputas internas no PSDB à parte, o Brasil melhora quando políticos de pouca estatura como Geraldo Alckmin deixam o cenário nacional.

O voto paulistano, em outros tempos contaminado pelo populismo de figuras as mais tristes, optou tanto à direita quanto à esquerda conscientemente.

Que faz de uma democracia saudável? Para os eleitores, suas preocupações ideológicas se sobressaem. Há que ser um prefeito de direita. Ou um de esquerda. Ou que acredite nisto. Naquilo. É mais do que natural. Para a democracia, não é isso o importante. O importante é coerência. É a consolidação de grupos políticos que representem determinados setores da sociedade. Um país que tem partidos fortes ligados intimamente a sua base eleitoral se expõe menos aos arroubos fisiológicos dos aventureiros.

Neste sentido, a derrota nas urnas do PSDB em todo o país é ruim. A vitória do PMDB, idem. O PMDB atual é a encarnação do fisiologismo, do partido sem rosto definido que em cada praça é dominado por um político diferente que manda ou desmanda. Sequer tenta representar um ideal, não tem projeto que não a costura de projetos pessoais. Muitos partidos políticos, no Brasil, são assim. O PMDB é apenas o caso mais explícito.

O eleitor sincero de direita, liberal do ponto de vista econômico e conservador quanto às normas sociais, tem profunda dificuldade de se ver representado por um partido político. Nem PT, nem PSDB, o representam de fato. O político sincero de direita se vê obrigado a entrar em legendas frágeis e, portanto, termina contaminado pelas práticas fisiológicas de seu partido.

Não foi uma má eleição. Em Fortaleza, em Salvador, no Rio e em São Paulo, em vários pontos houve um claro movimento de eleitores driblando armadilhas. É um eleitor mais maduro. Mas a fragilidade dos partidos políticos brasileiros continua sendo o maior obstáculo de nossa democracia. E dificilmente é uma fragilidade que será corrigida pelo Congresso. Afinal, ela beneficia a matilha.

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