As tropas de monitoramento da União Européia que chegaram hoje à Geórgia tiveram permissão russa para entrar em parte do território da Ossétia do Sul. O cessar-fogo parece estar sendo obedecido e, até o dia 10, os russos deverão deixar o território. Um grupo mínimo de soldados fica para ‘manter a segurança’.
Há muito falatório a respeito da Geórgia estes dias, tanto na imprensa norte-americana quanto na européia. As populações da Ossétia do Sul e da Abecásia, as duas províncias separatistas, não pertencem à mesma etnia dos georgianos. Mas também não são russos. Ao longo da última década, no entanto, vieram recebendo passaportes russos por conta de uma política planejada de Moscou. São cidadãos russos, portanto. E Vladimir Putin se reserva o direito de defender cidadãos russos não importa onde eles estejam.
Aí começa a dificuldade: ninguém está realmente preocupado com a Geórgia. Mas assim como ossétios e abecásios, os moradores da Criméia vem recebendo passaportes russos faz pouco mais de uma década. E a Criméia faz parte da Ucrânia, país que, de pequeno, não tem nada. Mais: tem fronteiras com Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia. Está no meio da Europa. Se o argumento de Putin é aceito para a situação da Geórgia, à frente terá que ser aceito para a Ucrânia.
A situação vai ficando mais complexa: as conversas de livre comércio entre União Européia e Ucrânia estão acontecendo. O país tem um objetivo. Quer se juntar à UE. Também quer fazer parte da OTAN. Mesmos objetivos da Geórgia. Os vizinhos imediatos – Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia – já fazem parte da UE e da OTAN. E a população ucraniana, como a da Geórgia – excetuados os separatistas – querem ambos. Mas a OTAN tem na base um tratado, uma garantia de que se um de seus membros for atacado, os outros partem em sua defesa.
E a Rússia, neste momento, está deixando tão claro quanto possível que tem planos de atacar a Ucrânia. Fez o movimento contra a Geórgia, o mundo ficou quieto.
Em negociações do tipo, o blefe faz parte. Mas quem blefa e não cumpre perde a credibilidade. Quando George W. Bush declarou que a Coréia do Norte não poderia desenvolver armas nucleares senão teria que se ver com sei lá o quê, blefou. Os norte-coreanos conseguiram suas armas. Nada ocorreu. Bush também se reserva, como Putin, o direito de atacar o país que considerar necessário para a segurança dos EUA. E já o fez. A diferença, talvez, é que Putin vem se mostrando fiel à palavra. Cumpre o que ameaça. E os EUA não têm muito como censurá-lo.
Putin também se sente ameaçado. Ucrânia e Geórgia viveram revoluções eleitorais – as revoluções Laranja e a Rosa – que o governo russo não gosta nem de imaginar ocorrendo em sua casa. A OTAN, criada contra a União Soviética, ainda é vista em Moscou como um grupo anti-Rússia. E o crescimento dela nos arredores acirra a paranóia. Não bastasse, os EUA insistem em instalar mísseis na Polônia voltados para a Rússia. Não é contra a Rússia, eles dizem. Não é o que poloneses ou tchecos pensam. E, olhando friamente, o Kremlin não tem qualquer obrigação de acreditar na palavra norte-americana. Os paranóicos, afinal, têm seus inimigos.
Também por uma análise fria, é possível concluir que é irresponsável trazer Geórgia ou Ucrânia para a OTAN. Se Putin invadir a Criméia, será preciso intervir militarmente. Uma guerra entre OTAN e Rússia é uma idéia que se aproxima um bocado de qualquer definição de pesadelo. Em diplomacia, é bom não se colocar numa posição em que não existam mais escolhas.
Mas, ainda assim, há sempre a questão moral: agora, entrega-se um pedaço da Geórgia aos russos. E tudo bem. Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin? Com muita velocidade, este conflito que parece vindo dos tempos da Guerra Fria pode se transformar na crise internacional mais importante que existe no planeta.
Ao menos há uma boa notícia: os chineses não gostam nada dessa idéia de incentivar grupos a conseguir a independência ou autonomia de seus territórios. Nessa, os russos estão sozinhos.






16 Comentários até agora ↓
1 Thiago Locutor // 1/October/2008 às 15:28
Excelente! Muito bem escrito!
2 RW in Miami // 1/October/2008 às 15:29
…agora, entrega-se um pedaço da Geórgia aos russos. E tudo bem. Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin?
Isso lembra Chamberlain em 1938….
3 Mr Z // 1/October/2008 às 15:33
É frequente a análise da atual conjuntura política russo a partir de um conjunto de argumentos válidos mas muitos deles desfasados no tempo. Mas muito predominante nas leituras que nestes tempos se fazem no Ocidente da Rússia de Putin, como se esta fosse a União Soviética. Que não é.
Há muito que a Rússia ‘ultrapassou’ várias das premissas apresentadas - como por exemplo a relação com a UE.
O caso da política energética é dos mais manifestos.
À falta de uma (essencial) política comum, o Kremlin tem sido extremamente inteligente em manietar a UE. E está a realizar esta política há quase uma década: em vez de negociar com Bruxelas, o que seria mais delicado, Putin dividiu para reinar, com vantagens para Moscou e perdas, nítidas, a médio prazo, para os cerca de 500 milhões de consumidores europeus. Ou seja, negocia individualmente.
Primeiro, negociou com a Alemanha de Schröeder o pipeline que está a ser construído no mar Báltico (evitando intermediários, como os Estados Bálticos, a Ucrânia ou a Bielorrússia).
Depois da Alemanha, foi o negócio energético com a Bulgária, porta de entrada europeu do Mar Negro, que receberá petróleo e gás russo. Após a Bulgária, foi o entendimento energético com o novo Governo de Berlusconi, que estava, entretanto a ser preparado por Prodi.
No que diz respeito à UE, os tentáculos energéticos russos estão a fortificar-se, e têm capacidade para asfixiar a Europa central de frio, no Inverno, se quiserem.
Em relação à Ucrânia, talvez o poder de influência de Moscou sobre Kiev surja. Moscou pode acenar aos ucranianos boas recompensas energéticas caso os lideres da revolução laranja, hoje no poder, sejam afastados.
A Rússia de Putin nada tem a ver com a forma, muito menos métodos de conquista dos soviéticos. Os russos não querem um confronto directo com a OTAN. Nem a OTAN com os russos.
Os tempos são outros - mas e a UE e os EUA parecem que lidam com a URSS. Como se enganarão com essa leitura!
4 Amauri // 1/October/2008 às 16:01
É a política de toma lá, dá cá.
UE e EUA vão chegando militamente cada vez mais perto da Rússia, cercando seu território por todos os lados - vide os escudos anti-mísseis; tropas estacionadas no Afeganistão, no Uzbequistão; candidatura de Ucrânia e Geórgia à OTAN, etc.
E ainda tem o enfraquecimento de velhos aliados do Kremlin - vide Sérvia e o apoio unilateral da independência de Kosovo (há quanto tempo mesmo eles estavam naquele território?); vide todas as revoluções “coloridas” em ex-estados soviéticos (Tajiquistão, Quirguistão, Ucrânia, Geórgia…), sempre com um dedo da CIA.
E a Rússia contra-ataca como pode. Como o Medvedev disse recentemente, eles também têm o direito de defender seus interesses geo-políticos.
Nova guerra fria? Tem todo pinta. Mas dessa vez os motivos são econômicos e, pra variar, têm petróleo/gás como atores principais.
5 João Vicente // 1/October/2008 às 16:44
que nova Guerra fria o que? Esse conflito assume ares de semelhança com a segunda guerra mundial, a Rússia de Putin me lembra bastante a Alemanha de Hitler, que antes da guerra também procurou a anexação de territórios, o que levou à guerra de certa forma, quando ele invadiu a Polonia, num primeiro momento Putin pede os países do Caucaso, obedecemos, e depois vai ser o que, Polonia, e Alemanha???
6 Ticão // 1/October/2008 às 18:22
Encurralar o tigre é uma arte para poucos. A UE com tantos é fácil dividir. E o Bush não conseguiu gritar “Truco 6″ muito bem. Ninguém acreditou. Agora é tarde. Falta só uma “solução diferenciada”. Entra na UE e não na OTAN. E fica tudo na mesma.
7 Radical Livre // 1/October/2008 às 18:40
Mr Z,
muito boa a análise.
Aliás, para que serve mesmo a OTAN hoje em dia? quais são seus objetivos? estão claramente expostos?
Porque a impressão que fica aqui do sul do equador é que ela só existe para ajudar os EUA a manterem a Rússia no sufoco.
E eu me pergunto
- para que ficar cutucando o urso com vara curta?
- A quem serve isto?
- quem vai ganhar o quê em provocar um dos países mais bem armados do mundo?
- quais os objetivos estratégicos e de longo prazo dos EUA em relação à Rússia? são os mesmos da Europa?
8 kiko marinho // 1/October/2008 às 19:00
sei não, mas acho que, com tanta interdependência energética e econômica entre europa e rússia, seria mais inteligente rever estes acordos ultrapassados da guerra fria e tentar integrar a rússia em um projeto europeu. todos os lados têm a ganhar, tirando os eua, que ganharia somente um grupo economicamente, energeticamente e militarmente independente de sua zona de influência. todos os conflitos nas fronteiras da rússia têm o dedo americano, e o objetivo não é o de evitar a anexação destes pequenos territórios (eles não ligam para nada disso0 e sim manter a russia isolada da europa, e os europeus acabam fazendo o jogo. comparar a russia à alemanha nazista é de uma infantilidade inacreditável.
9 T.T. Crickett // 1/October/2008 às 20:46
O objetivo claro de Putin é restaurar as fronteiras do império soviético. A invasão da Ucrânia é só questão de tempo. E ele não ficará só nisso. Sua fome é insaciável e virá bater inclusive no nosso quintal. Imagino-o debochando de Chávez e chamando-o pelas costas de macaco, como os russos gostam de fazer. Mas é via Venezuela, Cuba, Bolívia e Equador que seremos afetados também.
Para os mais ingênuos: a Rússia é um estado policial. Seus órgãos de segurança são tão brutais quanto os dos nazistas. Quanto à presunção de pureza e supremacia racial, os russos são ainda piores. E nisso contam com a ajuda da Igreja Ortodoxa.
10 Bruno Mota // 1/October/2008 às 22:19
Disse bem, Mr Z.
Algum dia (e não necessariamente em relação á Georgia) a Russia vai ter que passar por um momento-Suez para descobrir que não é mais uma grande potência. Os russos vão fazer algo que irrite os EUA *e* os Chineses, e serão obrigados a afinar.
PS: A Ucrania é uma novela mexicana, com o Yushchenko, Yakonovich e Timoshenko brigando e fazendo intrigas em todas as permutações possíveis. Em um possivel comfronto com a Russia, eles já entram divididos.
11 João Daltro // 1/October/2008 às 22:26
Se os EUA se acham no direito de atacar o Iraque, que fica a milhares de quilômetros de suas fronteiras, por causa de armas que nunca existiram, é meio difícil criticar a Rússia se ela quiser invadir um país logo ali do outro lado de sua cerca, onde os mesmos EUA estão estacionando armar por demais visíveis e existentes. Pelo menos para quem seja estadunidense ou para quem sonha cada minuto da vida com ser estadunidense (muita gente boa aqui deste pedaço).
Realmente, como já foi dito acima, parece que a OTAN existe hoje só para mandar tropas aos lugares onde os EUA criaram graves problemas. O comandante das tropas da OTAN no Afeganistão está quase chorando, pedindo mais soldados, quando deveria simplesmente voltar para casa e deixar que os ianques resolvam o problema que criaram. Portanto, o Putin faz muito bem em deixar bem claro que se alguns países do velho bloco comunista querem criar problemas, eles vão ter problemas muito maiores. E o máximo de reforço que os EUA poderão mandar será a Sarah Palin, a Bomba!
12 Proftel // 1/October/2008 às 22:49
João Daltro, faltou dizer da China e o Tibet, aí manda o vice do Obama.
kkkkkkkkk rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
:-)))))))))))))
13 MaGioZal // 1/October/2008 às 23:36
As populações da Ossétia do Sul e da Abecásia, as duas províncias separatistas, não pertencem à mesma etnia dos georgianos.
Ops, tem um erro aí. A maior parte dos habitantes daa Abkházia até 1993 eram georgianos. Os abkházios em si eram menos de 20%, em meio a armênios, gregos pônticos e outras etnias. Só venceram a parada com a Geórgia nos anos 90 por causa do apoio dos tanques e aviões da Rússia. Quanto à Ossétia do Sul, bem, até 8 de agosto deste ano por volta de quase metade da população dela era de georgianos, assim como quase a metade de seu território também era administrado pela Geórgia.
Também por uma análise fria, é possível concluir que é irresponsável trazer Geórgia ou Ucrânia para a OTAN.
Nos anos 50, dizia-se que re-armar e trazer a Alemanha Ocidental para a OTAN era algo irresponsável. E a Alemanha, unida, está na OTAN até hoje, com suas cidades pedindo encarecidamente para as tropas norte-americanas não irem embora de lá.
Em diplomacia, é bom não se colocar numa posição em que não existam mais escolhas.
Mas chega certas horas em que as escolhas se estreitam e nõa há mais o que se fazer, pois afinal de contas, qual é a alternativa do Primeiro Mundo em relação à Geórgia e a Ucrânia? Neutralidade naquela área da Europa-Ásia não dá mais nos termos atuais. Ou os dois países se encaixam nas estruturas ocidentais, ou serão engolidos pela Rússia. Simples assim.
Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin?
O sonho dourado dele é se aproximar do poder político e territorial de um Leonid Brezhnev. Ao menos, colocar todos os territórios soviéticos que não estão na União Européia ou na OTAN sob o comando direto de Moscou… como foi de meados do século 19 até 1991.
Ao menos há uma boa notícia: os chineses não gostam nada dessa idéia de incentivar grupos a conseguir a independência ou autonomia de seus territórios. Nessa, os russos estão sozinhos.
Será? E se a China rasgar os acordos e mandar as tropas acabarem com as autonomias de Hong Kong e Macau? E se a China quiser invadir Taiwan? E se a Rússia a apioasse nisso?
Anyway, isso tudo prova que a tal Teoria da Paz Democrática está certa: a relação da Rússia com seus vizinhos se tornbou pior na medida em que esta foi se tornando mais autoritária e os outros, mais democráticos…
14 Diogo // 2/October/2008 às 2:18
Ah, os russos…
Depois do gênio diabólico do Hitler, está para nascer um doido que tenha coragem de se meter com eles.
Pelo menos agora, com todo arsenal nuclear.
15 Não custa lembrar: Putin não é Hitler // 2/October/2008 às 6:26
[…] o leitor Mr. Z fez uma interessantíssima análise a respeito da Rússia nos comentários. Vale a pena […]
16 Chesterton Dracul // 2/October/2008 às 8:57
os russos se valem da posição de controle dos recursos energéticos para colocar a Europa de joelhos. Esperar algo que não seja autoritarismo dos russos é desconhecer o passado recente.
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