Eleições EUA: McCain e o adiamento do debate

EUA · 25/09/2008 - 14h21 - 17 Comentários

Edição 15 | quinta-feira 25 – Foi um dia inusitado, aqui nos Estados Unidos, com o repentino pedido de John McCain pelo adiamento do debate presidencial de amanhã. A decisão não é dele. Ou de Obama. Ou mesmo de um canal de televisão. Nos EUA, debates eleitorais são organizados por comissões criadas para promover a discussão em ano eleitoral. Os debates, seus horários, locais, temas e quem os transmitirá são decisões tomadas antes mesmo de os nomes dos dois candidatos serem conhecidos. McCain fez uma jogada. Alguma demagogia faz parte da campanha política e ambos os candidatos lançam mão dela. Essa não é a questão. A questão é se cola.

McCain sugeriu publicamente o cancelamento do debate argumentando que os dois candidatos deveriam estar em Washington, no Senado, discutindo o plano de resgate econômico do governo. Fez isso minutos após Barack Obama ter ligado com a sugestão de ambos publicarem um comunicado conjunto de apoio (ainda que parcial) ao plano. Quis evitar que Obama parecesse mais responsável. Tão logo foi à imprensa com a sugestão de cancelamento, o grupo de pesquisas Marist Poll pôs em marcha uma consulta pública.

Segundo seus resultados, 53% dos norte-americanos querem o debate e 42% acham que McCain está certo.

McCain também anunciou que está congelando sua campanha. Estará em Washington, descolado da corrida à presidência, preocupado apenas com a aprovação do pacote econômico nas duas Casas do Congresso. O congelamento total que ele prometeu é, na verdade, parcial. Seus assessores continuam sendo entrevistados normalmente e Sarah Palin aproveitou para dar uma passadinha no Marco Zero, em Nova York, onde um dia estiveram as Torres Gêmeas do World Trade Center. McCain, que repentinamente só fala de economia, está em plena campanha.

Outras pesquisas divulgadas hoje pela manhã indicam Obama ganhando uns pontos pelo dia de ontem.

George W. Bush foi à tevê, ontem, pedir apoio dos cidadãos à injeção de 700 bilhões de dólares no mercado financeiro. Aproveitou para anunciar o encontro de hoje, na Casa Branca, dos dois candidatos à presidência. Falando ao Congresso, ontem, seu ministro da Fazenda, Henry Paulson, mostrou-se disposto a ceder. Concordou com a proposta da imposição de limites nos salários dos presidentes de bancos e corretoras – algo impensável há alguns meses. Não está certo que Câmara e Senado aprovarão o pacote.

Nem tudo que Obama pediu McCain entregou no comunicado conjunto. Obama queria a imposição de um sistema que permitisse ao governo fiscalizar de perto como o mercado financeiro empregaria os 700 bi. Pediu um modelo pelo qual Wall Street se veria obrigada a devolver o dinheiro. Se os bancos serão salvos, disse Obama, também é preciso um pacote que resgate que está com dificuldades de pagar suas hipotecas.

Não é apenas curioso que McCain tenha recusado sua assinatura a estas condições. É curioso, também, que ao falar à nação, George W. tenha repetido mais ou menos as mesmas preocupações de Obama.

De duas, uma: John McCain tem um plano brilhante de estratégia política em mente e tudo o que está fazendo terá repercussões extraordinárias na campanha política. Ou, então, está completamente perdido.

Outra descoberta da Marist Poll: 48% espera uma vitória de Obama e 37%, de McCain.

A notícia não é boa para Obama. É mau jogo entrar como favorito num debate. O favorito às vezes é percebido como arrogante. Se o favorito vence num debate morno, não impressiona ninguém – cumpriu sua obrigação. Se, no entanto, aquele que todos esperam ver derrotado perder num debate morno, também não houve surpresa e nada fica contra ele. Num debate morno – a maioria deles são mornos –, quando o favorito perde, a repercussão é imensa. O favorito só sai ganhando quando há um debate intenso no qual ele se mostra muito superior a um adversário fraquíssimo. É um cenário dificílimo.

A semana, esta sim, prometia ser agitada em Wall Street e morna na campanha. Está terminando num turbilhão.

Ainda sobre o assunto:

  1. Eleições EUA: McCain vai ao debate Edição 16 | sexta-feira 26 – John McCain gosta de cultivar a imagem de surpreendente. Ninguém, com franqueza, teve...
  2. Eleições EUA: McCain à frente ♦ John McCain tem uma vantagem de 4 pontos sobre Barack Obama na pesquisa do Gallup realizada sábado e domingo....
  3. Eleições EUA: Libertários de Ron Paul, mulheres
    de McCain e piadas de Obama
    ♦ São os seguintes os estados em que há um número razoável de eleitores libertários: Colorado, Dakota do Norte, Nevada,...
  4. Eleições EUA: McCain na busca por controle Edição 19 | sábado 11 – Os últimos três dias foram agitados na trilha para a presidência norte-americana. A...
  5. Eleições EUA: Quem define o que se discute
    na campanha? John McCain, não Obama
    ♦ Há um fenômeno interessante ocorrendo na campanha eleitoral norte-americana. Os democratas têm todas suas armas voltadas contra Sarah Palin....