Chávez quer atear fogo no circo boliviano

Bolívia · Venezuela · 14/09/2008 - 12h53 - 136 Comentários

Hugo Chávez é do tipo que joga lenha na fogueira. Lula, não. Por isso, é de se levar a sério sua afirmação de que o Brasil não tolerará rompimentos institucionais na Bolívia. O Brasil chega tarde à discussão – como já argumentou com a competência de praxe Sérgio Léo, em sua coluna no Valor Econômico.

A situação da Bolívia é grave: o país sempre foi dividido entre a elite rica (e em geral branca) e os índios pobres (em geral excluídos). A eleição de Evo Morales acirrou essa divisão por atiçar os temores da elite. Evo é, por personalidade, tudo o que Lula não é. Enquanto Lula busca a paz e a harmonia com quem tem poder, Evo – ainda mais insuflado por seu par venezuelano – procura o combate. Nessas horas, não custa tentar entender que o problema real da Bolívia é sua histórica divisão interna e não uma mítica interferência norte-americana.

(Há, diga-se, um consenso entre os especialistas de todo o continente que a quebra institucional boliviana não interessa a ninguém. É incompetência do governo Bush o fato de que não oferece ao governo Morales algum tipo de apoio econômico, empurrando-o para os braços de Chávez, Ahmadinejad e Putin/Medvedev. O assunto é tema de um excelente estudo do Council of Foreign Relations, que tem até Henry Kissinger em seu conselho.)

Começa amanhã a reunião de cúpula da Unasur, em Santiago do Chile, que terá por objetivo apaziguar os grupos. Em negociações do tipo, o esforço se divide em oferecer incentivos para ambos os lados buscarem a paz enquanto se faz ameaças veladas para a possibilidade de briga. O problema é que o mundo e a política não são feitos de pragmatismo. Ambições pessoais, temperamentos estourados e a mais pura incompreensão dos riscos tomam parte das negociações.

A maior dificuldade à mesa é que o Brasil teria de deixar claro que um governo golpista, na Bolívia, não seria reconhecido. Mas o Brasil, dependente do gás boliviano, não tem como fazer esta ameaça.

A América do Sul não é homogênea e os problemas de cada país são seus próprios, particulares, intransferíveis. Às vezes quem ouve Hugo Chávez partindo em defesa de seu par boliviano Evo Morales acredita que algum tipo de integração latino-americana existe.

Chávez convocou seu embaixador em Washington e expulsou o norte-americano em Caracas alegando solidariedade para com Morales e acusando os EUA de participação em uma tentativa de golpe misteriosa. O termômetro das boas relações diplomáticas entre EUA e Venezuela não é este, é outro. É a venda de petróleo para o país de George W. Bush. Esta continua intocada. Quando algo mudar nesse quesito, poderá se levar a sério a intenção de Hugo Chávez de romper com os EUA causando profundo impacto na economia interna norte-americana. Um desafio de verdade. Até lá, Chávez bem o sabe, é só política. E toda política é local.

Chávez está sendo investigado por ter enviado dinheiro para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, na Argentina, e enfrenta eleições estaduais na Venezuela, em novembro. É sempre assim, com Hugo Chávez: quando há eleição por perto, ele arruma alguma maneira de chamar os EUA de intoleráveis. Os suspeitos de sempre caem na história.

Com a Bolívia, não, a coisa é mais séria. Talvez seja reconfortante, para alguns, imaginar que seja tudo parte de um plano norte-americano para desestabilizar governos de esquerda na região. Mas a instabilidade boliviana é só dela própria.

Ainda sobre o assunto:

  1. São Chávez ou Chávez, o demo? Phil Gunson é um jornalista britânico que vive há quase 30 anos na América Latina – os últimos oito, na...
  2. A Rússia quer Venezuela e Cuba? O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos...
  3. E a Venezuela cala Hugo Chávez Hugo Chávez já pode incluir em seu currículo de governante a primeira derrota eleitoral. Os resultados parciais – mas já...
  4. O fim das negociações FARC/Chávez Há uma guerra de vaidades em curso entre Álvaro Uribe e Hugo Chávez. No sábado, Uribe suspendeu bruscamente a intermediação...
  5. Com Chávez e a Venezuela é assim
    Uns dizem: ‘perdeu’; outros, que ganhou
    Hugo Chávez de presto declarou que as eleições regionais de ontem, na Venezuela, foram uma grande vitória. E, com o...