Eleições EUA: Obama vai de Flórida
e governo republicano de Estado grande

EUA · 9/09/2008 - 06h04 - 79 Comentários

Causou alguma discussão, ontem, a nota sobre o avanço de McCain nas pesquisas nacionais. ‘Não quer dizer nada, o que importa é a eleição estado a estado’, dizem uns. ‘Negam os fatos’, dizem outros. Ambos estão certos. A eleição que decide é aquela que acontece em alguns estados chaves, resultado do formato norte-americano de eleição indireta. (Este post fala um pouco sobre isso.) Mas os índices nacionais informam algo: caiu bem, perante o eleitorado, a escolha de Sarah Palin.

Nos estados decisivos, swing states, McCain melhorou um bocado em Ohio e a disputa em Michigan continua árdua. Na Pensilvânia, a tendência pró-Obama se consolida. E, o que talvez seja surpreendente, a Flórida está pendendo para os democratas. Lá, eles são conservadores fiscais e liberais do ponto de vista do comportamento. O tipo de conservadorismo de Palin não ressoa bem ali.

A imprensa está em debate. Dos entrevistados pelo grupo de pesquisas Rasmussen, 51% disseram que a imprensa tentou ferir a candidatura de Sarah Palin. Mais importante: 49% dos entrevistados que não se consideram nem republicanos, nem democratas, tiveram essa impressão. Muitas das perguntas levantadas pela imprensa são legítimas. Palin se esconde de jornalistas; embora tenha buscado emendas ao orçamento federal que beneficiassem seu estado, diz que é contra tais emendas; diz que é contra uma obra faraônica que apoiou; se mostrou a favor do banimento de certos livros em bibliotecas; defende o ensino do criacionismo. Questionar quem busca o poder é obrigação da imprensa. Mas o público não é obrigado a gostar disso.

A MSNBC, um dos canais noticiosos da TV a cabo, afastou seus dois principais âncoras políticos, Keith Olbermann e Chris Matthews. Eles sequer disfarçavam sua preferência pelos democratas. Assim como todos na FoxNews sequer disfarçam a preferência pelos republicanos. Mas a direção de jornalismo da NBC chegou à conclusão de que a estratégia de fazer uma ‘FoxNews democrata’ feria seus padrões jornalísticos. Os dois servirão de comentaristas, o jornalismo isento volta à bancada.

No fim de semana, o governo dos EUA assumiu a administração de Fannie Mae e Freddie Mac, os dois maiores financiadores da compra de imóveis. Sarah Palin foi rápida no gatilho: ‘eram caros demais e o dinheiro vinha do contribuinte’. A blogosfera conservadora nos EUA bate na mesma tecla: o governo ajudando pessoas demais a comprar imóveis criaram a atual crise das hipotecas. Só há um detalhe. Fannie e Freddie são entidades privadas. O governo garante ambos contra uma corrida, verdade. Mas não houve corrida, portanto não há dinheiro do governo federal. A crise nasceu num mercado privado que perdeu o controle. O governo partiu para o resgate antes que houvesse uma corrida contra os bancos. Se agiu certo? Esta é outra discussão.

De um blogueiro de esquerda: ‘Há uma incrível dissonância cognitiva nesse nosso discurso político nacional contra o Estado grande. Chegamos a um consenso nacional sobre a necessidade de nacionalizar uma indústria [Fannie e Freddie], que é a definição de socialismo e Estado grande, mas os políticos em ambos os partidos continuam a falar das virtudes do Estado mínimo. No dia seguinte à Convenção Republicana, que incluiu incontáveis ataques ao Estado grande, o governo republicano vai lá e nacionaliza uma indústria.’

A vida real teima em atrapalhar as idéias bonitas.

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