A estratégia de John McCain para vencer

EUA · 5/09/2008 - 11h26 - 61 Comentários

John McCain fez seu discurso, nada que emocionasse ninguém como o de sua vice, mas os dados estão lançados e a estratégia de cada uma das candidaturas, traçada. Andei fuçando os blogs brasileiros que comentam a eleição norte-americana. Há quem torça para um, há quem torça para o outro. Torcer é bonito, faz de tudo mais emocionante e, cá no Weblog, não se disfarça a preferência por Barack Obama.

O problema da torcida é que ela, com freqüência, faz perder a objetividade. Um pouco de experiência com análise eleitoral não custa.

No momento, ambos os candidatos têm um mesmo mapa eleitoral na frente. Os EUA reúnem 50 estados que enviam delegados para o Colégio Eleitoral. Alguns desses estados jamais votarão para um candidato democrata e outros não votarão num republicano. Mas há estados que podem pender para um lado e para o outro.

Qual é a arte aqui? Cada estado indeciso é formado por vários grupos demográficos com interesses específicos. Jovens até 30, negros, mulheres de meia idade, pessoas preocupadas com o conceito de um Estado mínimo. São grupos que às vezes se intercalam, outras não. Quem não estiver envolvido emocionalmente com a eleição sequer sai de casa para votar. A arte, aqui, é fazer pesquisas exaustivamente até traçar que grupos nos estados indecisos podem ser conquistados e fazer com que, para eles, a eleição seja emocionante, decisiva, importante.

Os EUA são um país dividido. Metade republicana, metade democrata. Noutros tempos não foi assim, agora é. Quem conseguir um ou dois grupos a mais leva o prêmio no final.

Que ninguém tenha dúvida de que John McCain começou a semana em séria desvantagem. A evidência disso é que ele mudou completamente a imagem que pretendia passar.

Sarah Palin é uma jogada brilhante? É o tipo da afirmação que só será possível fazer com as pesquisas na mão. É uma jogada ousada. Basta ver a reação do público na Convenção. Foi amor à primeira vista. A direita cristã, profundamente conservadora em termos sociais, fez a diferença nas eleições de George W. Bush. Garantiu sua eleição. Palin fala a eles e sua mensagem cala fundo. É uma turma que olhava com desconfiança para McCain, agora ele os conquistou.

Sarah Palin tem outra qualidade: é um rosto novo. Diferente. Não é à toa que John McCain falou a palavra ‘mudança’ 10 vezes em seu discurso de ontem. Não dá para lutar contra os fatos: os norte-americanos querem um governo diferente. É uma tarefa difícil vender mudança de dentro do partido do governo. Mas ‘mudança’ é também uma qualidade abstata. Que tipo de elementos ressoarão como ‘mudança’ para os eleitores? O que vai convencê-los de que agora tudo enfim mudará? Palin é nova e empolgante para os conservadores sociais. Mas seu discurso não será muito parecido com o do atual governo? Foi uma aposta de McCain.

Ele bateu em três temas durante a Convenção. O primeiro é a mudança encarnada por Palin. Um rosto diferente em Washington. O segundo é sua experiência como prisioneiro de guerra. O norte-americano médio gosta disso. É o tipo do tema – patriotismo – que cala fundo no homem branco de classe média baixa, o operário de estados chave como Ohio e Michigan. O terceiro tema é um clássico do discurso republicano: impostos. Os outros vão aumentar seus impostos.

Aqui, isto é muito importante. Hoje, foi anunciado o novo índice de desemprego no país. Bateu em 6,1%, um recorde histórico. As pessoas estão perdendo suas casas. Literalmente. Este é o desafio de John McCain. A revolta com o governo de George W. Bush não é pequena: sente-se nas ruas. A vida está muito difícil e todo mundo faz contas. Fechar o mês é uma tarefa dura. Atendimento médico, nos EUA, é uma fortuna. Seguro de saúde, idem. Imagine o plano mais caro de uma Amil, é o preço de um plano de saúde mediano. A qualidade que se recebe, em retorno pelo mesmo preço, é bem menor. A aposentadoria da classe média está em risco.

Os republicanos falaram de valores cristãos, patriotismo e impostos baixos. Os democratas dizem que, impostos baixos para a classe média, na verdade é com eles. Fora esse desentendimento, prometem atendimento de saúde universal. E a economia dos tempos de Bill Clinton. É tentador.

Qual discurso vai mover os eleitores? Já no fim de semana teremos pesquisas para começar a entender. Uma pista: valores abstratos fazem a diferença em tempos de bonança. Quando a economia está mal, os eleitores votam pensando no bolso. A chave para os republicanos é convencer o público de que os democratas aumentarão seus impostos.

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