A louca jogada de McCain ao escolher
Sarah Palin para vice de sua chapa

EUA · 30/08/2008 - 12h51 - 87 Comentários

Vocês foram bem mais rápidos do que eu, nessa. Obrigado =)

A surpreendente escolha de Sarah Palin, governadora do Alaska, mostra que John McCain é um homem ousado. Nos comentários, alguém perguntou qual a relevância do candidato a vice – alguém vota pensando nele? A resposta não é tão simples quanto sim ou não. Mas é uma resposta importante.

O mais importante é que um candidato a vice não atrapalhe.

Em alguns casos, nos EUA, o vice pode despertar simpatia em alguns grupos de eleitores importantes com os quais o candidato principal tem problemas. Joe Biden, por exemplo, fala à classe média baixa e branca que, embora ligada ao Partido Democrata, votou pesadamente em Hillary Clinton. Nessa função de atrair um ou outro grupo específico, vices costumam ser eficientes.

A segunda qualidade que um candidato a vice pode ter é a de complementar algo que falte ao candidato a presidente. Assim, é uma tentativa de neutralizar críticas. Biden tem décadas de experiência com política externa, por exemplo. Mas essa é uma função mais difícil. Todo eleitor sabe que um Obama presidente só ouviria Biden se quisesse. Na chapa, ele pode amenizar a crítica de inexperiência mas não a elimina de forma alguma.

O que nos leva à desconhecida senhora Palin.

McCain tem uma série de objetivos. O primeiro, evidentemente, é atrair as eleitoras frustradas de Hillary Clinton que desejam uma mulher na presidência. Palin não é a primeira candidata a vice da história dos EUA – Geraldine Ferraro estava na chapa do democrata Walter Mondale, em 1984 – mas é a primeira com chances reais de vitória. (A eleição de 84 foi fácil para Ronald Reagan.) O segundo objetivo é afastar as críticas a respeito de sua idade. De quebra, ele deseja atrair os eleitores da chamada direita cristã.

Grupos específicos dedicados a um candidato fazem a diferença em eleições tão apertadas quanto as norte-americanas. Num pleito empatado, o engajamento da direita cristã foi suficiente para o desempate em 2000, quando George W. Bush venceu. McCain não atrai essa turma. Mas considera que Palin possa atraí-los.

Senão, vejamos: ela é radicalmente contra o aborto. Contra os direitos civis iguais para gays. Contra o estudo de células tronco embrionárias.

O receio de alguns analistas republicanos é que, quando busca abraçar muitos objetivos ao mesmo tempo, termine sem conseguir nada. Por que, afinal, quem são as eleitoras mais dedicadas de Hillary Clinton? As feministas de meia idade. Não feministas radicais, de caricatura, mas mulheres que, engajadas ou não, enfrentaram as reais dificuldades impostas às mulheres pela sociedade. Mulheres jovens, que não viveram os anos 1960, muitas vezes não percebem que o mundo já mudou muito.

Hillary na presidência representava esta mudança estupenda. Ela queria dizer: agora chegamos a qualquer lugar. Para muitas destas mulheres, cuja história pessoal justifica um bocado do seu ceticismo, a derrota de Hillary serve como confirmação para a idéia de que um teto invisível continua lá, uma afirmação peremptória de que este ainda é um mundo dos homens.

E aí reside um problema: qual o perfil destas mulheres eleitoras de Hillary? McCain está apostando que basta uma mulher para atraí-las. Talvez seja verdade. Mas se forem mulheres engajadas no ideal feminista, elas reconheceram em Palin uma mulher que defende a sociedade patriarcal, recusando às mulheres os chamados direitos reprodutivos – inclua-se na lista o aborto e o estudo de células tronco embrionárias.

Mais adiante, há outro problema. A principal crítica que John McCain tem feito a Barack Obama é que, com oito anos no Senado estadual de Illinois e quatro em Washington, ele é um homem inexperiente demais para chegar à presidência.

Não há dúvidas de que Obama seja inexperiente.

Mas John McCain, se eleito, será o presidente mais velho a tomar posse na história dos EUA. Ele escolheu para vice de sua chapa, segunda pessoa na linha de autoridade em todo o país, a governadora do segundo estado menos populoso dos EUA que está no comando há apenas dois anos e cuja carreira política anterior se limitava à prefeitura de Wasillia, um município com 7.000 habitantes.

Ao decidir que Palin é a melhor pessoa para substituí-lo no comando do país, ele jogou fora seu argumento mais forte contra Obama.

A ousadia não está aí. Está no fato de que Palin é uma desconhecida. Escolher alguém que não está nos holofotes é um convite à investigação da imprensa. Poucas horas após sua apresentação, já haviam levantado um processo administrativo contra ela. Não parece grave. Ela também jamais foi testada nas grandes (e difíceis) entrevistas aos programas da tevê política. McCain girou a roleta.

Atualização – O post não deixou algo suficientemente claro. McCain escolheu uma radical. Sarah Palin, 44 anos, mãe de cinco crianças, é contra o uso de pílula anti-concepcional e preservativos mesmo entre casais heterossexuais casados legal e religiosamente.

Pode ter sido uma jogada de gênio. Ou suicida.

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