O adeus a Dorival Caymmi
De João Máximo, nO Globo:
Era [de Dorival Caymmi] a explicação mais precisa, ainda que modesta, para a origem de suas canções praieiras: ‘Tratei desses motivos porque nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto também de Iemanjá, certo eu também de que estamos todos nós nas suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar de minha vida.’ [...]
Uma lentidão que, atribuída à proverbial preguiça baiana, acabou assumindo como se devesse a ela a excepcional qualidade de sua obra, na qual não se encontra uma só canção menor, mal acabada. Há história sobre isso, uma delas com Antonio Carlos Jobim. Visitando o amigo, Jobim ficou intrigado com um tema em que Caymmi vinha trabalhando havia tempos, não saindo da primeira frase musical. Pois, sem cerimônia, Jobim disse que ficaria com a frase para ele, como se a lentidão a tornasse de domínio público. Daí o Tema de amor de Gabriela, para o filme de Bruno Barreto. Finalmente concluída, a canção de Caymmi se intitularia A mãe d’água e a menina.
Lentamente ou não, Caymmi construiu uma obra pequena (pouco mais de cem títulos) mas preciosa. Ficou famoso, foi gravado no exterior, esteve no programa de TV de Andy Williams nos Estados Unidos (onde sua Das rosas… fez sucesso), atuou com Vinicius de Moraes e Baden Powell em Buenos Aires, foi a França, à Angola, teve sua obra regravada pelos maiores artistas brasileiros, inclusive os mais jovens.
Via Dori Caymmi – É doce morrer no mar:
De Caetano Veloso, em seu blog:
Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de ‘Você já foi à Bahia?’ tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. ‘Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.’ vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de ‘Quem vai ao Bonfim, minha nêga’, onde a vírgula entre ‘Bonfim’ e ‘minha nêga’ cai certinho, e esse ‘minha nêga’ vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala. E a gradação virgulada de ‘muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá’, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E – depois do refrão ‘então vá’ repetir-se ritmicamente seguindo a série ‘lá tem caruru’, ‘vatapá’, ‘mungunzá’ – abre-se aquele largo das ’sacadas dos sobrados da velha São Salvador…’ que eu repeti quase todo (menos o último verso) em ‘Terra’.
Novamente Dori Caymmi, Você já foi à Bahia?:
Ainda sobre o assunto:
- O adeus a Zé Rodrix Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com...
- O adeus a Samuel Huntington Samuel Huntington morreu na quarta-feira passada e já deveria ter aparecido por aqui, no Weblog. Mas aí houve o bombardeio...
- O adeus a Jefferson Péres Poucos homens farão tanta falta ao Senado do Brasil quanto Jefferson Carpinteiro Péres fará. Nos últimos tempos, ele era um...
- O adeus a Ruth Cardoso A ex-primeira-dama Ruth Cardoso morreu agora há pouco, em São Paulo. Ela havia sido internada para fazer um cateterismo na...



O que me impressiona nesta geração de artistas, é a longevidade deles. Qual será o segredo?
Bacana o post e o comentário de CV pega o alvo: Caymmi tem prosódia elegante, melodias com a finura própria dos grandes mestres da música popular. Pressa mais freqüentemente é coisa do pior circuito da “reprodutibilidade industrial”. E não é qualquer intérprete que dá conta. Dos mais ou menos jovens, lembrando assim (ouço pouco) me agradam algumas como a Joyce e a Rosa Passos - e dos não tão jovens, João Gilberto está perfeitamente à altura, como também muitas vezes a Nana. Brasil vinculante.
Sim, claro, também o Dori Caymmi.
Eu tenho mais vinil do Dorival Caymmi aqui em casa do ue gibi dos X-Men.
Como eu gosto desse cara, putaquipariu!
Mas não considero uma perda artística tão grande. Ele tava aposentado da música faz tempo, né?
E pô, depois da velhice vem a more, né?
Viveu bem, mestre!
Sua identificação com um lugar e um modo de vida (a cidade do Salvador provinciana) só encontra paralelo em Luiz Gonzaga e o Nordeste interiorano.
Mas ao lado das canções praieiras/baianas, tem o material mais urbano, sambas-canções que, segundo alguns, foram precursores das harmonias bossa-novísticas.
Grande Dorival, soube fazer arte, soube viver.
O comentário do João Máximo, ok.
O do Caetano, o quê?
De tudo que alguém poderia falar sobre a genialidade deste exemplo de vida, vai falar que ele sabia gramática? Como se isso fosse exigência para a grandiosidade…
Leo, chegando eu meio atrasado para a conversa, mas a prosódia a que se refere Caetano é a musical; o bom encadeamento melodia e letra, sua proximidade com a fala natural de quem mora nesta última flor do Lácio. Nada a ver com saber gramática; tudo a ver com o talento excepcional, maior, de DC como compositor popular. O Caldas Aulete ainda registra o verbete “prosódia” com essa acepção; estou com preguiça de checar noutros.