O Brasil que existe, o Brasil que poderia existir

Brasil · Ideologias · 2/08/2008 - 21h09 - 261 Comentários

Li comentários de todo tipo a respeito do post, ontem, sobre a reportagem da revista Cambio. Nas redações dos grandes jornais, o consenso já é: muito barulho por nada, o ‘dossiê’ não traz qualquer indício de que o governo tenha favorecido as Farc. Lembra, isto sim, que houve empenho de gente no governo para ajudar de uma forma ou de outra o ex-padre Oliverio Medina, que esteve preso e quase foi deportado. Mas toda esta movimentação foi pública, não era segredo. Hoje, ele é casado com uma brasileira e pai de outra brasileira. A tendência é de que consiga a nacionalidade, o que afastaria de vez as possibilidades de ser extraditado.

O que jornalistas pensam é uma coisa; na blogosfera da direita, é diferente. Li que sou um idiota e que sou um desses ‘estranhos fenômenos da Internet brasileira’. Essa trupe, como aquela esquerda que ainda acredita em luta armada, não compreende o mundo em que vive. Por isso, enquanto caça fantasmas de eras passadas, não consegue identificar quais os reais dilemas do Brasil, ou mesmo fazer as críticas que o atual governo merece.

Não se trata apenas do PT. Há um problema com PSDB, com DEM, PMDB ou PPS ou PDT.

O que se espera de um partido político, hoje? Que tenha posições a respeito dos grandes dilemas que o mundo atravessa. Como se posiciona a respeito do aquecimento global, por exemplo. Seu combate é uma prioridade? Que custo está disposto a bancar e como se portará nas negociações internacionais? Como vê a transformação da sociedade e sua relação com a ciência e as religiões constituídas? Como pensa o aborto, estudo de células tronco embrionárias, casamento e adoção homossexual? As respostas para estas perguntas indicam como o partido compreende as relações entre as pessoas no país. São questões que nos afetam a todos. Não são as únicas.

Como compreende as responsabilidades do Estado com educação, saúde, moradia, formação profissional? Quando vê o Brasil, que tipo de país vê? Um país de vocação agrícola? Industrial? Turística? Que tipo de brasileiros precisaremos formar para que tais vocações sejam realizadas? A partir disto, quantas são as responsabilidades que o Estado deve assumir e como irá financiá-las? Tendo tudo isto em vista, que acesso espera dos mercados do mundo e que concessões está disposto a fazer em troca de possibilidades comerciais?

Os britânicos têm uma boa idéia do que pensam o Partido Conservador e o Trabalhista a este respeito. Os norte-americanos sabem o que esperar de republicanos e democratas. Os espanhóis entendem o que quer dizer um voto no PSOE ou no PP. Os franceses, os alemães, seja em regimes bipartidários, seja nos multipartidários. Nós brasileiros não sabemos. Já existe um princípio de política de Estado que mais ou menos continuou do governo FH para o Lula. Partidos com projetos claros, isso não temos.

Os projetos partidários não nascem no vácuo. Partidos representam grupos de interesse, classes sociais. A classe média urbana que não está no funcionalismo público costuma votar num partido liberal e querem liberdade de ação sem interferência governamental. A classe operária, funcionários públicos, costumam ter expectativas maiores do Estado. A classe média rural, que vive do que lhe rende o campo, terá outro grupo de prioridades, cobra do Estado mas tem objetivos bem diferentes dos trabalhistas. Às vezes, os interesses de um grupo se assemelham ao de outros. Numa democracia madura, é a estes anseios que os partidos políticos respondem. O PT tem tênues laços sindicais, mas estes não refletem uma política industrial e trabalhista como prioridade de governo. Do sindicalismo, herdou no máximo o peleguismo e a distribuição de cargos como método. Uma pena.

O DEM não é nada. Um dia se chamou liberal – mas a burguesia não se reconhece numa colcha de retalhos que reúne oligarcas nordestinos e chefetes políticos do sul. O PSDB teve um projeto econômico. Passado o período de privatizações e estabilização da moeda, o que lhe sobrou? Corre pelo Congresso feito barata tonta, não sabe o que defender e se morde pelo fato de seu projeto ter sido seqüestrado por quem não tinha idéias próprias. O PMDB, coitado, sequer finge ser um partido.

Quem acusa o PT de ter um projeto revolucionário não percebe uma realidade muito mais triste. O PT não tem qualquer projeto. Lula, sim, tem um projeto. É seu, particular.

Nossa democracia tem 20 anos contados desde a Constituição de 1988. Temos muito tempo pela frente e a graça de vivermos numa terra não só rica como detentora das riquezas certas para o mundo que vemos pela frente: temos uma vasta mata, nossa base energética é das menos dependentes de petróleo que existem, a ciência e tecnologia incipientes são de excelente qualidade. Esses recursos disfarçam o fato de que, dentre os políticos, ninguém nos oferece uma idéia de país, um projeto para avaliarmos. É este, não os fantasmas de 1970, nosso real problema.

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