China: um guia para leitores

China · 31/07/2008 - 11h54 - 25 Comentários

Nós, jornalistas, somos bichos que têm afeição por clichês. O clichê, no caso, vai além da expressão de efeito. Muitas vezes, viciamos à toa nosso olhar, repetimos padrões e não fazemos o que deveríamos de fato fazer: observar o que há de novo no mundo e colaborar para que o leitor entenda melhor o que se passa nos arredores. Nas próximas semanas, todos leremos um bocado sobre China. Simon Elegant, correspondente da Time por lá há alguns anos, antecipa a cobertura original que todos leremos.

1. Reportagens mais ou menos elogiosas tratarão da surpreendente infra-estrutura arquitetônica e de engenharia, que servirá de gancho para mostrar como a China cresce rápido.

2. Muitas piadinhas serão feitas a respeito da estranha língua que falam por lá. E muitas matérias serão escritas baseadas em matérias que saíram no jornal de língua inglesa local, o China Daily.

3. Após os elogios iniciais (1) à infra-estrutura e ao crescimento, novas reportagens mostrarão a China real que o governo ‘não quer’ que o mundo veja. E o mundo, sem que o governo chinês atrapalhe qualquer repórter, saberá como é a vida de um típico pobre urbano e conhecerá o drama daqueles que perderam seus barracos para a construção dos grandes estádios.

4. Muito será publicado a respeito da qualidade do ar em Beijing.

5. Todo membro do governo entrevistado parecerá estar repetindo mais ou menos a mesma linha ditada pelo Partido. E sempre haverá outro entrevistado, um chinês que fala inglês fluente e morou no exterior, que falará mal da China.

6. Chineses que falam bem da China serão chamados de ‘nacionalistas’. Tibetanos que defendem o Tibete livre não serão chamados de ‘nacionalistas’. O governo chinês será chamado de ‘regime’.

Nenhum leitor precisa se preocupar, Elegant termina por dizer. Os bravos jornalistas não se deixarão enganar pela aparente simpatia e sorrisos chineses.

Agora, sendo justo: se fosse eu o repórter pisando pela primeira vez em Beijing para produzir uma reportagem a cada dois dias, o resultado seria diferente dos clichês? Se tivesse lido a brincadeira de Simon Elegant antes, não. Sem ter sido alertado, tenho minhas dúvidas. Clichês existem por um motivo. São estereótipos. Atalhos para a real compreensão.

Há um ano, mais ou menos, um dos jornalistas mais importantes de uma das revistas mais importantes do Brasil posou na China para comandar uma edição especial. Numa de suas primeiras noites, ele foi jantar com um brasileiro, correspondente de outro grande veículo, que mora em Beijing faz alguns anos. O jornalista importante não calou a boca um segundo, passou a noite explicando o que é a China. O correspondente que lá morava teve pouco espaço para se manifestar.

É um caso extremado, claro. Mas é uma anedota útil para compreendermos o processo pelo qual a notícia é construída. A imprensa em todo o mundo já chegou a um acordo a respeito da China como ela é. Essa narrativa é constantemente publicada por toda parte. Se ela ajuda a jogar uma luz inicial num país complexo, é também limitadora. Afeitos à narrativa padrão, temos – os repórteres – a tendência de ignorar os pequenos indícios que não confirmam a história que estamos preparados para contar.

No fim das contas, fica uma pista para recomendar a leitura: repórteres com mais de dois anos de China são fontes de informação mais confiáveis.

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