Nós, jornalistas, somos bichos que têm afeição por clichês. O clichê, no caso, vai além da expressão de efeito. Muitas vezes, viciamos à toa nosso olhar, repetimos padrões e não fazemos o que deveríamos de fato fazer: observar o que há de novo no mundo e colaborar para que o leitor entenda melhor o que se passa nos arredores. Nas próximas semanas, todos leremos um bocado sobre China. Simon Elegant, correspondente da Time por lá há alguns anos, antecipa a cobertura original que todos leremos.
1. Reportagens mais ou menos elogiosas tratarão da surpreendente infra-estrutura arquitetônica e de engenharia, que servirá de gancho para mostrar como a China cresce rápido.
2. Muitas piadinhas serão feitas a respeito da estranha língua que falam por lá. E muitas matérias serão escritas baseadas em matérias que saíram no jornal de língua inglesa local, o China Daily.
3. Após os elogios iniciais (1) à infra-estrutura e ao crescimento, novas reportagens mostrarão a China real que o governo ‘não quer’ que o mundo veja. E o mundo, sem que o governo chinês atrapalhe qualquer repórter, saberá como é a vida de um típico pobre urbano e conhecerá o drama daqueles que perderam seus barracos para a construção dos grandes estádios.
4. Muito será publicado a respeito da qualidade do ar em Beijing.
5. Todo membro do governo entrevistado parecerá estar repetindo mais ou menos a mesma linha ditada pelo Partido. E sempre haverá outro entrevistado, um chinês que fala inglês fluente e morou no exterior, que falará mal da China.
6. Chineses que falam bem da China serão chamados de ‘nacionalistas’. Tibetanos que defendem o Tibete livre não serão chamados de ‘nacionalistas’. O governo chinês será chamado de ‘regime’.
Nenhum leitor precisa se preocupar, Elegant termina por dizer. Os bravos jornalistas não se deixarão enganar pela aparente simpatia e sorrisos chineses.
Agora, sendo justo: se fosse eu o repórter pisando pela primeira vez em Beijing para produzir uma reportagem a cada dois dias, o resultado seria diferente dos clichês? Se tivesse lido a brincadeira de Simon Elegant antes, não. Sem ter sido alertado, tenho minhas dúvidas. Clichês existem por um motivo. São estereótipos. Atalhos para a real compreensão.
Há um ano, mais ou menos, um dos jornalistas mais importantes de uma das revistas mais importantes do Brasil posou na China para comandar uma edição especial. Numa de suas primeiras noites, ele foi jantar com um brasileiro, correspondente de outro grande veículo, que mora em Beijing faz alguns anos. O jornalista importante não calou a boca um segundo, passou a noite explicando o que é a China. O correspondente que lá morava teve pouco espaço para se manifestar.
É um caso extremado, claro. Mas é uma anedota útil para compreendermos o processo pelo qual a notícia é construída. A imprensa em todo o mundo já chegou a um acordo a respeito da China como ela é. Essa narrativa é constantemente publicada por toda parte. Se ela ajuda a jogar uma luz inicial num país complexo, é também limitadora. Afeitos à narrativa padrão, temos – os repórteres – a tendência de ignorar os pequenos indícios que não confirmam a história que estamos preparados para contar.
No fim das contas, fica uma pista para recomendar a leitura: repórteres com mais de dois anos de China são fontes de informação mais confiáveis.






25 Comentários até agora ↓
1 Helio // 31/July/2008 às 12:06
(…)
7. E as matérias sobre a comida chinesa? O pessoal comendo carne de cobra e barata assada no espetinho já virou clichê bem antes dos jogos começarem. E vamos ver muito ainda…
2 Proftel // 31/July/2008 às 12:08
É por essas e outras que gosto de textos como os do Zictor.
:-)
3 Doida de Pedra // 31/July/2008 às 12:09
Pôxa Hélio,
achei que eu ia ser a primeira… Mas gostei da sua inclusão do item 7. ;)
4 Celinho // 31/July/2008 às 12:33
Helio,
Sem falar que quem como de verdade os espetinhos de escorpiao e de bicho da seda sao os estrangeiros.. Chinês mesmo so vi comendo espetinho de fruta cristalizada.. claro que na China se come de tudo mas uma coisa é falar de Pequim outra é falar da China que é enorme.. Seria a mesma coisa que falar que os brasileiros gostam de comer buchada de bode..ou que tomam chimarrao.. ;-)
5 Proftel // 31/July/2008 às 12:48
Buchada de bode, pequi, bagre mal preparado (um baita gosto de terra), qualquer coisa com azeite de dendê….
É dose.
:-/
6 Diego // 31/July/2008 às 12:51
Faltou mais um item, além do que o Hélio # 1 falou: a censura na internet. Nem começou a Olimpíada e a censura já está lá. Na Folha de São Paulo de hoje, tem uma matéria sobre isso, o “Great Firewall”.
Bem que o PD poderia falar quem é esse jornalista importante.
7 Nhé! // 31/July/2008 às 13:05
Ah, sim, o trânsito caótico tb é um clichê. (mas lá é uma zona mesmo, cruizcredo!)
8 Proftel // 31/July/2008 às 13:10
Ôw, clichê mesmo é dizer que chinês e japonês é tudo igual.
kkkkkkkkk rsrsrsrsrsrsrs
:-)))))
*pronto, já vai aparecer um “politicamente correto” pra encher o saco.
9 Diego // 31/July/2008 às 13:12
Nhé! #7,
A sorte dos jornalistas é que em competições como essas, existe uma faixa à esquerda exclusiva para os jornalistas credenciados e os atletas e suas equipes. Assim eles não irão enfrentar o trânsito caótico, apenas assistirão.
10 Nhé! // 31/July/2008 às 13:24
Prof, chinês, japonês e coreano!
11 Dênis Corrêa // 31/July/2008 às 13:56
clap clap clap
Pedro Doria, é a primeira vez que vejo um jornalista pensando sobre o próprio ato de jornalistar por aí.
“A imprensa em todo o mundo já chegou a um acordo a respeito da China como ela é. Essa narrativa é constantemente publicada por toda parte. Se ela ajuda a jogar uma luz inicial num país complexo, é também limitadora. Afeitos à narrativa padrão, temos – os repórteres – a tendência de ignorar os pequenos indícios que não confirmam a história que estamos preparados para contar”.
Espalhem por aí essa idéia.
12 Rodrigo // 31/July/2008 às 13:57
PD
Ficou sabendo que o Tarso Genro tá querendo punir militares que estupravam, torturavam e matavam? Tá lá no site do UOL.
Finalmente estes monstros vão ter o que merecem.
13 Fabio Negro // 31/July/2008 às 14:03
Jornalistas estrangeiros chamarão Pequim de Beijin, mas nunca Alemanha de Germânia.
14 Pedro Doria // 31/July/2008 às 14:11
Fabio Negro, mas por que alguém chamaria a Alemanha de Germânia? Se vc reclamasse que ninguém chama de Deutschlândia eu entenderia…
15 Fabio Negro // 31/July/2008 às 14:36
Alguém chamaria Alemanha de Germânia porquê o nome veio da língua germânica, das quais se derivam o inglês e o alemão.
Não é pra ir “na raiz”? Corrigir um erro histórico?
Aliás, “regime” Chinês manda e a gente obedece, né? Foda-se a gente chamar Pequim de Pequim desde o século XVI, né?
Agora cachorro pequinês tem que se chamar cachorro beijinês.
Certo?
16 Celinho // 31/July/2008 às 15:48
Os reporteres sem fronteiras divulgaram que vaaaarios sites estrangeiros nao serao acessiveis da China. O da Anistia Internacional, é obvio, e outros que segundo eles “nao tem a ver com o esporte” mas que estao incluidos o da BBC, etc..
E o hipocrita presidente do COI disse que eles so estao envolvidos na parte esportiva.. Mas pra criticar os protestos contra a tocha olimpica o COI ja mete o bedelho ne?
17 Liuz // 31/July/2008 às 15:51
porque beijing e não pequim?
18 Fabio Negro // 31/July/2008 às 18:50
Por quê o The Guardian mandou.
(O Der Spiegel não. A Folha não. O Estadão não. A Veja não. A Turma da Mônica não…)
19 Rolando // 31/July/2008 às 21:21
Bem, a gente fala Irã e não Irão, que seria o mais lógico. Amesterdão e Roterdão também só na terrinha.
Francoforte, Copenhaga, Helsínquia, Francoforte (mas Munique parece que pegou mesmo), Bassora (e não Basra), Bordéus…..
E por que até hoje a imprensa tupiniquim não grafa de vez Singapura em vez de Cingapura?
Creio que não vou conseguir dormir esta noite…
20 Antonio // 31/July/2008 às 22:59
Cara, que belo texto. Faço coro com o Dênis Corrêa: de fato, é raríssimo ler jornalistas refletindo sobre as limitações inerentes à sua atividade profissional.
Só o fato de dizer “o processo pelo qual a notícia é construída” é algo espantoso, e bonito. Jornalistas, de um modo geral, costumam ser um pouquinho “positivistas”. É certo que ninguém mais reclama para si A Objetividade, mas é incrível a frequência com que ouvimos um ou outro afirmando que está “trazendo apenas os fatos”, como se houvesse uma separação ou independência absoluta entre observador e objeto. Por isso, afirmar que a notícia é construída (ênfase nesse “construída”) ao invés somente de “observada” e posteriormente “relatada”, é um espanto. Acho, mas posso estar errado, que esta é uma noção com a qual muitos jornalistas ficariam desconfortáveis em concordar.
(E sobre a questão da repetição de uma determinada “narrativa”, rapaz, isso dá pano pra muita manga. Mas isso fica para outra hora.)
Só discordo de uma coisa, PD: a afirmação de que clichês são “atalhos para a real compreensão”. Penso que é justo o inverso: clichês são desvios para a compreensão. São estradas aparentemente bonitas e bem pavimentadas — mas levam aos lugares errados. Clichês mais atrapalham do que ajudam, se é que ajudam em alguma coisa quando o assunto é “compreender”. (Aliás, relendo o primeiro parágrafo, vi que vc também parece pensar assim.)
Acho que foi Barthes quem disse que “o estereótipo é o vírus da identidade”.
Abs a todos,
ACT
21 Fabiano // 1/August/2008 às 0:37
E como seria se a Olimpíada viesse para o Rio de Janeiro? Dá-lhe favela, popozudas lotando a praia de Copacabana às 10 da manhã de segunda-feira, traficantes, rodinhas de samba, brasileiros “pobres mas de bem com a vida” sorrindo e deixando a boca desdentada à mostra, prostitutas de 12 anos de idade, o Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara e mais centenas de clichês que eles ainda não conhecem e nós repetimos sem parar para nós mesmos.
22 Zictor // 1/August/2008 às 7:21
Eita!!!!!
Se eu tivesse tempo para escrever…….
Vou ter que escrever aos poucos, em diversos comentários.
Vou começar dizendo que o texto não é de Elegant, é de um comentarista do blog dele e o original em inglês é muito mais ácido que a adaptação do PD. E devo dizer que é muito verdade mesmo. Ontem à noite conversei com uma amiga suíça sobre a cobertura da imprensa germânica sobre a China. Ela me disse que a mídia suíça é a mais equilibrada, os austríacos pouco se importam, então a mídia é superficial. Mas os alemães só descem o sarrafo na China. Parecem sempre querer achar um lado ruim em tudo. Perfeito exemplo de má mídia.
O velho dilema Beijing vs. Peking (putz, eu sempre conto essa história)
Em chinês, o nome da capital do norte sempre foi escrito com os mesmos caracteres Bei (norte) e Jing (capital). E a pronúncia tem sido a mesma nos últimos séculos.
Desde o século XIX, diversos acadêmicos tentaram criar formas romanizadas de expressar os sons da língua chinesa. O sistema mais famoso tornou-se o Wade-Giles.
Nesse sistema, as palavras são escritas Mao Tsé-Tung, Peking, Nanking (o “k” é cortado no meio por um traço), e por aí vai. Esse sistema ainda é usado em Taiwan.
Mas o governo comunista fez uma reforma na línuga chinesa, e um dos resultados dessa reforma foi o sistema Hanyu Pinyin (literalmente “escrita dos sons em chinês”), ou simplesmente pinyin para os íntimos.
Em pinyin, os nomes escritos acima tornam-se Mao Zedong, Beijing e Nanjing.
Até os anos 70, Taiwan (República da China) dominava as relações da China com ocidente. Inclusive no Brasil, creio que a maior parte da comunidade chinesa vem de Taiwan.
Naturalmente os acadêmicos estudavam chinês em Taiwan e utilizavam o sistema Wade-Giles para escrever nomes em chinês.
Com a ascensão da República Popular da China como representante do povo chinês na ONU (1971) e a seqüência de países que trocaram a Taiwan pela China, as pessoas começaram a prestar mais atenção na RPC do que na RC.
Conseqüentemente, começaram a utilizar mais a forma corrente pelas bandas de cá.
Lingüisticamente falando, não é errado chamar de Pequim em nossa língua, porque a língua é nossa e esse foi o nome que chegou primeiro. A pronúncia errada se deve única e exclusivamente ao fato de não reconhecermos a pronúncia correta quando vemos algo escrito numa língua que não conhecemos.
Tá bom assim? Tá bem explicado?
23 Zictor // 1/August/2008 às 7:26
@Fabiano
Conheci um atleta olímpico e um jornalista mexicanos.
O jornalista falou bem demais da organização do Pan no Rio, mesmo com todos os defeitos. E o atleta quase garantiu Rio 2016. Disse que a regra é uma olimpíada na Europa e uma fora.
Só que os canadenses e americanos já tiveram excesso de olimpíadas, e que teriam que reconhecer o Brasil no jogo da política internacional.
Palavras do cara.
24 Liuz // 1/August/2008 às 11:01
@zictor … agora sim :p
25 Fabio Negro // 1/August/2008 às 13:45
Zictor, achei uma excelente explicação e uma excelente justificativa para se continuar usando a forma “Pequim”, como todo mundo aqui aprendeu desde pequenininho.
Se alguém souber por quê Bombaim virou Mumbai, também, eu agradeço.
(parece que essa foi mudança de nome, mesmo, né?)
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