Poucos assuntos são tão áridos quanto negociações comerciais. Tentativas de acordo de grande porte, como a Rodada de Doha da OMC, são ainda mais difíceis. Mas o fracasso das reuniões da última semana, em Genebra, dizem um bocado sobre o estado do mundo.
Há um motivo para este grande encontro de ministros das relações exteriores ter acontecido agora. A idéia era ter um texto pronto para que o Congresso dos EUA pudesse aprová-lo rápido. Acordos de livre mercado são impopulares. Presidentes recém-eleitos e deputados recém-eleitos não mexem com esse tipo de assunto, não importa o que digam em campanha ou preferências partidárias. Como é fundamental a participação dos EUA nesse jogo, correram o calendário para conseguir algo.
Os próprios EUA entraram para conversar com o pé no freio, sua vontade de mexer nos próprios subsídios agrícolas era muito pequena. Estavam impedidos por novas leis aprovadas pelo Congresso.
De seu lado, a Índia se reserva o direito de manter proteções tarifárias contra a importação de produtos agrícolas se por algum motivo os preços aumentarem repentinamente. Se começar a entrar comida estrangeira demais em seu mercado, ela suspende tudo. Vários países pobres encontraram na Índia um seu defensor deste tipo de mecanismo de defesa. E, como a negociação já andava mesmo difícil, a China simplesmente não colocou nenhum tipo de concessão à mesa e embarcou no barco indiano.
Os diplomatas não rejeitaram a idéia de proteger os mercados emergentes de flutuação no preço dos produtos agrícolas. Mas ninguém chegou a algum tipo de acordo sobre que tipo de barreira tarifária poderia vigorar.
Quando essas negociações para a abertura de mercados ao comércio internacional tiveram início, em Doha, em 2001, o mundo era outro. Comida andava barato, o petróleo idem e aquecimento global não estava no mapa dos grandes problemas. Hoje, os países que têm população pobre querem proteções para o caso de a crise alimentar explodir repentinamente. O petróleo em alta pressiona as economias e o fato de que todos têm de lidar com contenção nas emissões de carbono aumenta o custo de vida.
Ao longo da semana passada e no início dessa, chegou-se a culpar China e Índia pelas negociações emperradas. Peter Mandelson, comissário de comércio da União Européia, diz que não. Para ele, a culpa é dos EUA. Sua nova legislação de subsídios mudou o rumo da prosa. Se um dos países mais ricos do mundo chega para conversas de liberalização de mercados dizendo que cederá pouco, ninguém se mexe. De fato. Mas subsídios agrícolas são uma área na qual os europeus, franceses em particular, de inocentes não têm nada.
A impressão para quem lê na imprensa brasileira é de que o Brasil saiu menor das conversações. É que o país não se alinhou de presto com China e Índia. Tentou salvar as negociações. A questão, aí, é que para o Brasil, quando a conversa é exportação de alimentos, os interesses são diferentes. Trata-se do maior produtor e o maior exportador do mundo. Mercados abertos é o que Brasília mais quer.
Se no auge da onda neoliberal alguém acreditou que o destino do mundo era a total abertura, pois bem, não é assim que as coisas funcionam. Todos são protecionistas quando as regras do jogo estão mudando rápido – e isso é assim independentemente de um republicano ou um democrata estar no Salão Oval.
Há, ainda, uma pergunta que cabe e já ronda este Weblog há algum tempo. As instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra terão ficado obsoletas? A Organização Mundial do Comércio é uma delas. Na opinião do chanceler brasileiro Celso Amorim, o jogo, agora, será um de acordos bilaterais. Cada dois países vão fazendo seus acertos por conta própria. Ele não é único a considerar que este é o caminho. A OMC não serve para mais nada? Precisa ser repensada? E ainda há quem pense que a história acabou.






31 Comentários até agora ↓
1 Burn the Witch! // 30/July/2008 às 17:05
Eu!
2 Darwinista // 30/July/2008 às 17:06
E ainda há quem pense que a história acabou.
Ah, o Fukuyama inventou isso aí só pra virar celebridade e ganhar uma grana. Nem ele mesmo acredita nisso…
3 Maurício Santoro // 30/July/2008 às 17:07
O sistema multilateral de comércio não foi feito num dia, nem acabará numa única noite. Basta lembrar que a proposta original de criar uma Organização Internacional do Comércio foi feita em 1944 (!) durante a conferência de Bretton Woods, e que foi inviabilizada justamente pelo protecionismo agrícola do Congresso dos EUA - a Casa Branca queria o acordo.
O GATT, que vigorou de 1947 a 1994, pretendia ser apenas uma solução provisória e na prática deixou de fora até a Rodada Uruguai (1986-1994) temas controversos como agricultura, têxteis, etc.
A OMC é uma organização extremamente sedutora por acenar com a possibilidade de ganhos comerciais abrangentes para mais de 100 países. Ela tem feito esforços notáveis em incorporar assuntos complexos como propriedade intelectual, serviços, ao mesmo tempo em que lida com a agenda clássica de agricultura e indústria.
Talvez seja o caso de pensar em acordos menos abrangentes, que deixem para depois itens sobre os quais não há consensos. E certamente será necessário pensar reformas que aumentem a democracia na instituição. A Rodada Doha foi conduzida, na prática, por menos de uma dúzia de países - o que já representou um avanço com relação ao tempo em que tudo era decidido pelo Quad (EUA, UE, Canadá e Japão)…
4 Diogo // 30/July/2008 às 17:16
O Amorim está acordando.
http://www.ordemlivre.org/node/297
5 Sidney Mirandão // 30/July/2008 às 17:40
Só para provar que esse papo de liberalização só funciona quando é a favor deles (e olha que, daqui a pouco, nós vamos estar mais para o lado deles do que para o nosso).
Trocando em miúdos, liberalização na agricultura (e nas finanças, e na bolsa, e na educação, etc.) dos outros é refresco.
6 Travis Bickle // 30/July/2008 às 17:48
A história acabou. E Osama resolveu contar uma nova.
Pau que dá Chico não vai dar Francisco. E o Brasil tem parar com essa viadagem (sorry) de ajudar países pobres, que nos odeiam. Danem-se. Assim como o Reino Unido nem sabe direito onde fica o Brasil no Google Earth, estou cagando pra Uruguai e outros guais.
Chavez vai vender óleo por ”100 anos” pro rei que mandou ele calar a boca. E la nave va.
7 Zé Bush // 30/July/2008 às 18:25
well…continuando nesse ritmo, com aumento de produção e exportação, o Brazil terá que se decidir brevemente entre ser rabo de elefante ou cabeça de formiga.
Mas me parece que a divisão de nações em “blocos” não pega mais. Os interesses e variantes atuais não são os mesmo de 40/50 anos atrás.
8 Proftel // 30/July/2008 às 18:28
A dias venho falando que o Pedro Doria estava esquecendo de Doha.
Agora sim mas, o que conversaram por lá?
Quais tarifas foram postas na mesa?
Que produtos?
Quem abriu mão do quê?
Uma coisa é certa, o Brasil é um dos maiores produtores de grãos e carnes, enfiar o pé na jaca (nada a ver com o Surf) e dizer que “o preço é tal, quem quizer compre da gente” é o que precisamos.
Quem quizer compre e pronto, essa dependência dos produtos ditada pela bolsa de commodities de Chicago (dentre outras) é que mata.
:-/
9 C. Barbosa - Subversivo // 30/July/2008 às 18:39
Os norte americanos… sempre eles! Em qualquer situação, ontem e hoje… Tomara que amanhã estejam bem fraquinhos. Torço pra que aprendam com a crise, nunca eles precisaram tanto de uma crise. O fato é que eles querem levar todos com eles. Parece ser tudo consequência da trajetória prepotente deste tipo de espécie humana. Engoliram o mundo e agora estão com indigestão… resta apenas torcer pra essa diarréia passar logo e lambuzar á menor quantidade possível de quem vem pagando a conta através dos anos.
Acreditaria em uma OMC e em qualquer outra organização, na ONU, acreditaria até no Santa Klaus… desde que não tivesse o dedo desses “dick head’s”…
10 C. Barbosa - Subversivo // 30/July/2008 às 18:56
É “fora do tema”, mas não podia deixar de registrar. Tenho pena de quem adapta seu discurso pelo PIG, são informações unilaterais demais e intencionais também.
Viva a blogosfera… parabéns pra Doria, debatedores e demais espaços e profissionais que se dedicam a um outro ponto de vista, ou o mais próximo do real.
Há muito cansei das mentiras… vamos em frente, que o inimigo é gigantesco e muito forte.
11 Clara // 30/July/2008 às 19:46
A conclusão do chanceler Celso Amorim é um tanto tardia, e o fracasso atinge bastante o Brasil, por várias razões. Muitos países já fizeram acordos bilaterais e o fracasso de Doha era absolutamente previsível.
12 marco // 30/July/2008 às 20:24
Na opinião do chanceler brasileiro Celso Amorim, o jogo, agora, será um de acordos bilaterais.
marco - esse mesmo Amorim dizia que o Chile era um país traidor ” do espírito de cooperação da América do Sul ” quando o país andino se apressou a fazer um acordo bilateral com os EUA.
Ou seja, vamos fazer agora ás pressas o que o Chile fez com calma.
Amorim é uma anta. Se cair num banhado não sai mais.
ma
13 Deise // 30/July/2008 às 21:37
É um jogo de interesses. Quem tiver melhor estratégia sairá ganhando. Creio que as adaptações não deveriam ocorrer só nas organizações, mas sim partir dos países interessados na comercialização de seus produtos. Até que ponto é viável a prioridade na exportação? E até que ponto o que disse nosso amigo Proftel deve ser pensado?
14 Capitalista // 30/July/2008 às 21:43
As exportações do Chile se concentram em três produtos: cobre, frutas e pescado; considerando que o cobre representa quase 50%. Qualquer comparação com a economia brasileira é patética.
15 SK // 30/July/2008 às 22:05
Da música “Time” do Pink Floyd - meio fora do contexto da música, mas dentro do contexto da “dipromacia brasileira”
“You are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun”
16 Proftel // 30/July/2008 às 22:14
Deise, sou da Baixada Santista, li muito sobre o funcionamento da extinta Bolsa do Café em Santos e, conversei com alguns senhores que trabalharam por lá (hoje todos falecidos e, presumo, ainda se remoendo pelo fechamento da Bolsa (em 1970)).
O princípio de funcionamento d’uma Bolsa é igual em tudo quanto é canto, não há como explicar por aqui, ocuparia muito espaço.
É sempre isso que tenho em mente quando sugiro essa saída para o Brasil.
:-)
17 Arpex // 30/July/2008 às 22:35
Hoje é um dia para celebrar o próprio umbigo. 30 de julho, dia internacional do umbigo.
18 marco // 30/July/2008 às 22:43
Patética é a qualidade de vida do povo brasileiro se comparada a do Chile.
E, cobre à parte, o que se destacou na diplomacia chilena foi a inteligência e rapidez em firmar os melhores acordos - bilaterais, muitos- para o país.
Que não incluem ideologias e ideólogos patéticos.
ma
19 Cão andaluz // 30/July/2008 às 23:27
Era de se rir a cara de Monica Waldvogel no Jornal das Dez da Globo News ao saber que o responsável pelo fracasso da Rodada não eram os EUA. E sim os emergentes “aliados” do Brasil, Índia e China.
PD, a bem da verdade, complemente o seu texto:
“Os próprios EUA entraram para conversar com o pé no freio, sua vontade de mexer nos próprios subsídios agrícolas era muito pequena. Estavam impedidos por novas leis aprovadas pelo Congresso.”
Leis aprovadas com imenso apoio de Barack Obama, o presidente do mundo, e pelo Congresso majoritariamente democrata.
Sim, a culpa aqui é exclusivamente dos DEMOCRATAS. Quem votou contra esta lei de subsídios? O veinho, McCain…
Sardenberg explica que Obama é um dos responsáveis pelo fracasso da rodada. Por tabela, mas é…
http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=445377
20 Deise // 31/July/2008 às 0:02
Proftel,
Conheço um pouco também sobre Bolsas, por isso levantei a questão que colocou. Em parte, concordo contigo. Acho que o Brasil deveria pensar exatamente isso: até que ponto é tão importante a exportação, a ponto de nos tornarmos dependente dela, considerando o fato de que temos recursos invejáveis e que nos colocaria numa situação bastante interessante. Entretanto, entendo que determinadas situações não podem ser nem tanto ao mar nem tanto à terra. Contudo… Sim, acho que o Brasil deveria se colocar melhor diante do mercado internacional, exigindo algumas condições. Já nos tornamos conhecidos, a despeito de saberem ou não onde ficamos no mapa mundi. Não precisamos provar mais nada. É hora de exigir. Ou melhor, negociar com inteligência e estratégia.
21 Chesterix-Darlymple (velho colega) // 31/July/2008 às 0:39
brasileiro é pé de chinelo cheio de complexos de inferioridade.
22 Victor // 31/July/2008 às 2:04
O Papel do Chile, foi sim infantil do ponto de vista da logica do mercado, se beneficiou, a custo de danificar a situação dos outros.
Todos sigam o Chile, e teremos oque é conhecido como Tragédia dos comums.
Não é preciso ser um perito em economia, para perceber que os acordos bilaterais fortalecem mais os mais fortes, que a unica condição que os emergentes tem, de fazer realmente alguma barganha, é em grandes blocos, com grandes negociações.
Doha fracassou, não por que essa ideia não vale, mas por que devemos repenssar, até onde podemos nos aliar com China e India, a que ponto os interesses deles são diferentes dos nossos, e até quando vamos aturar as regalias dos EUA, nas mesas de negociação, seja em Doha, ou seja em qualquer COP
23 Fabiano // 31/July/2008 às 2:29
Se não cabe comparação entre a economia brasileira e a chilena, muito menos vai caber qualquer comparação nossa com a China e a Índia — países com mais de um bilhão de habitantes cada e crescendo há anos a taxas consistentes de 8 a 10% ao ano. Nós, com muito favor estatístico (e mudança nos critérios de cálculo do PIB), crescemos abaixo da média mundial. Só parece muito porque passamos 20 anos sem crescer quase nada.
O papel delas é tão relevante no mundo hoje que todos querem aprender mandarim e deram uma Olimpíada de bandeja para a China. Na Índia já se fala inglês, do contrário as aulas de hindi estariam lotadas.
Já o nosso é tão pouco relevante que nossos diplomatas fazem o possível para demonstrar que estão perdidos e só nós mesmos notamos isso.
24 Credun Fas // 31/July/2008 às 4:16
A culpa é dos koalas!
http://www.flickr.com/photos/trixpan/2718153457/
25 Homero // 31/July/2008 às 4:44
Celso Amorim: “Deus queira que não seja preciso outro 11 de Setembro”.
Precisa ser um completo imbecil para dizer uma frase estúpida como essa. Não é à toa que toda iniciativa da diplomacia brasileira no governo Lula tenha fracassado.
26 HRP Fast Reloaded // 31/July/2008 às 8:43
O comportamento do Brasil foi fruto de uma terrivel intratavel resistencia de Uruguay e Argentina……o comentário 14 é da hora e caros amigos……o país com maior concentração de renda na america latina junto com o Brasil, é o Chile!
Palavra da ONU!
Tradicionalmente a pobreza é controlada no Chile há mais de 50 anos…..é mesmo um país mais justo na sua injustiça social…….mas com um rol de leis facistas e ditatoriais…….eu….ainda aposto mais no Brasil em 15 anos pra frente!
50% da economia roda em volta do cobre……haja dependencia!
27 Proftel // 31/July/2008 às 9:07
Deise.
:-)
28 Ricardo Lima // 31/July/2008 às 11:25
Para quem achava que a história tinha acabado:
http://www.salon.com/comics/knig/2008/07/16/knig/index.html
E tudo isso só nos primeiros 8 anos do novo milênio…
29 Chesterton Dracul // 31/July/2008 às 11:39
Homero, o Amorim é o exemplo do perfeito imbecil, concordo plenamente.
30 Chesterton Dracul // 31/July/2008 às 11:42
não é que Lula, além de criar o Ministério da Pesca, oferecendo mais umas peixadas para os companheiros, ainda falou dos biocombustíveis? Mas teve novidade também no comício baiano: denunciou o analfabetismo no Brasil.
E disse que ele, que não tem diploma, é quem está atacando o problema em mais de meio século. Lula e a ignorância precisam um do outro. Se retroalimentam.
Se tiver mais um mandato, ou dois, ou três, ele continuará fazendo o mesmo número: pedir aos seus assessores que mapeiem os lugares com mais baixa escolaridade e o levem lá para dizer, triunfal, que um ignorante – um de vocês! – está dando jeito no Brasil.
Se a ignorância acabar, Lula acaba. Quando o governo começou e aqueles dados do PT sobre a fome foram desmascarados, e o Brasil se deu conta de que aquele papo de 20% de famintos era mentira, o presidente quase entrou em crise existencial.
A ideologia vale-refeição entrou em colapso, e o professor José Graziano, o mago do Fome Zero, ganhou uma embaixada no quintal de casa.
Na administração pública, o efeito das ações é demorado. O Brasil está colhendo 15 anos depois os frutos da responsabilidade fiscal. Vai chegar também o dia, no futuro próximo, de realizar o prejuízo desses tempos de bagunça administrativa e peixadas para os companheiros, ao molho da infalível retórica coitadinha.
Grande Fiuza
31 Deise // 31/July/2008 às 16:11
Proftel.
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