Rodada de Doha, OMC e o mundo
que não abre, mas não abre de jeito nenhum

Brasil · China · EUA · Mundo · Ásia Central · 30/07/2008 - 16h58 - 31 Comentários

Poucos assuntos são tão áridos quanto negociações comerciais. Tentativas de acordo de grande porte, como a Rodada de Doha da OMC, são ainda mais difíceis. Mas o fracasso das reuniões da última semana, em Genebra, dizem um bocado sobre o estado do mundo.

Há um motivo para este grande encontro de ministros das relações exteriores ter acontecido agora. A idéia era ter um texto pronto para que o Congresso dos EUA pudesse aprová-lo rápido. Acordos de livre mercado são impopulares. Presidentes recém-eleitos e deputados recém-eleitos não mexem com esse tipo de assunto, não importa o que digam em campanha ou preferências partidárias. Como é fundamental a participação dos EUA nesse jogo, correram o calendário para conseguir algo.

Os próprios EUA entraram para conversar com o pé no freio, sua vontade de mexer nos próprios subsídios agrícolas era muito pequena. Estavam impedidos por novas leis aprovadas pelo Congresso.

De seu lado, a Índia se reserva o direito de manter proteções tarifárias contra a importação de produtos agrícolas se por algum motivo os preços aumentarem repentinamente. Se começar a entrar comida estrangeira demais em seu mercado, ela suspende tudo. Vários países pobres encontraram na Índia um seu defensor deste tipo de mecanismo de defesa. E, como a negociação já andava mesmo difícil, a China simplesmente não colocou nenhum tipo de concessão à mesa e embarcou no barco indiano.

Os diplomatas não rejeitaram a idéia de proteger os mercados emergentes de flutuação no preço dos produtos agrícolas. Mas ninguém chegou a algum tipo de acordo sobre que tipo de barreira tarifária poderia vigorar.

Quando essas negociações para a abertura de mercados ao comércio internacional tiveram início, em Doha, em 2001, o mundo era outro. Comida andava barato, o petróleo idem e aquecimento global não estava no mapa dos grandes problemas. Hoje, os países que têm população pobre querem proteções para o caso de a crise alimentar explodir repentinamente. O petróleo em alta pressiona as economias e o fato de que todos têm de lidar com contenção nas emissões de carbono aumenta o custo de vida.

Ao longo da semana passada e no início dessa, chegou-se a culpar China e Índia pelas negociações emperradas. Peter Mandelson, comissário de comércio da União Européia, diz que não. Para ele, a culpa é dos EUA. Sua nova legislação de subsídios mudou o rumo da prosa. Se um dos países mais ricos do mundo chega para conversas de liberalização de mercados dizendo que cederá pouco, ninguém se mexe. De fato. Mas subsídios agrícolas são uma área na qual os europeus, franceses em particular, de inocentes não têm nada.

A impressão para quem lê na imprensa brasileira é de que o Brasil saiu menor das conversações. É que o país não se alinhou de presto com China e Índia. Tentou salvar as negociações. A questão, aí, é que para o Brasil, quando a conversa é exportação de alimentos, os interesses são diferentes. Trata-se do maior produtor e o maior exportador do mundo. Mercados abertos é o que Brasília mais quer.

Se no auge da onda neoliberal alguém acreditou que o destino do mundo era a total abertura, pois bem, não é assim que as coisas funcionam. Todos são protecionistas quando as regras do jogo estão mudando rápido – e isso é assim independentemente de um republicano ou um democrata estar no Salão Oval.

Há, ainda, uma pergunta que cabe e já ronda este Weblog há algum tempo. As instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra terão ficado obsoletas? A Organização Mundial do Comércio é uma delas. Na opinião do chanceler brasileiro Celso Amorim, o jogo, agora, será um de acordos bilaterais. Cada dois países vão fazendo seus acertos por conta própria. Ele não é único a considerar que este é o caminho. A OMC não serve para mais nada? Precisa ser repensada? E ainda há quem pense que a história acabou.

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