Por que o petróleo sobe?

EUA · Energia e Aquecimento global · 21/07/2008 - 03h25 - 33 Comentários

Howell Raines, ex-diretor de redação do New York Times, publicou uma boa análise da alta do preço de combustíveis nos EUA, parcialmente aplicável ao resto do mundo. A teoria corrente trata do seguinte: oferta e demanda. China e Índia estão consumindo mais. Há mais demanda para a mesma oferta, os preços sobem.

Não exatamente, sugere Raines.

Executivos das petroleiras acreditam numa versão atualizada da Teoria do Pico do Petróleo, apresentada em 1956 pelo geólogo M. King Hubbert. Ela propõe que por conta da finitude dos campos de petróleo e pelo alto custo da produção, a indústria norte-americana do petróleo chegará a um nível máximo em determinado momento e, aí, começará a decair. A versão atualizada afirma que a produção máxima de petróleo nos EUA se dará em 2020.

As petroleiras estão recebendo um preço bastante alto por um produto que, elas acreditam, ficará cada vez mais difícil de obter no futuro e que também será menos valioso por conta da concorrência de outros combustíveis. O jogo inteligente a fazer, do seu ponto de vista, é desviar cada centavo para o lucro e aproveitar enquanto o Cassino do Ouro Negro ainda está funcionando. Para confundir público e imprensa, eles selecionam vários homens para fazer as relações públicas e culpar a falta de petróleo que você prevê faz meio século em: falta de refinarias, legislação ambiental, e os lençóis imaginários no Alaska.

Ou seja, a indústria do petróleo, nos EUA, está botando o lucro no bolso e não investe nada em produção. A mesma indústria, nos últimos 25 anos, fechou metade das refinarias no país. E, embora o discurso das empresas afirme que tudo ficaria melhor se perfurar nas reservas ambientais do Alaska fosse legal, elas não começaram ainda sequer a explorar 80% dos territórios, nos EUA, que o governo já autorizou. “Todo repórter por aí compra essa história de oferta e demanda”, ironiza Don Barlett, da revista Time. “Se eu estivesse nas relações públicas das petroleiras, ia continuar batendo na mesma tecla.” Raines continua sua coluna:

Oferta e demanda? Claro, mas como lembra John Lee, veterano repórter do Wall Street Journal e que foi do New York Times por muitos anos, oferta e demanda de petróleo não são apenas ‘dois gráficos que indicam de onde vem, para onde vai’. Há motivos mais complexos na determinação do preço que se paga no posto de gasolina. ‘O preço na bomba sempre refletiu o último preço de pico, ou seja, aquilo que gasolina custa no mercado geral. É o preço do momento e não o preço baseado na gasolina comprada e estocada nos armazéns.’

Digamos que você seja uma empresa petroleira vendendo gasolina nos postos e que, nos seus armazéns, existem barris que foram comprados a 140 dólares e outros a 75. Tem muito espaço aí para manipular os preços. Mas, por favor, nem sequer pense que a Exxon Mobil ousaria manipular preços assim. Assim como eu e você, eles são escravos destas forças tremendas, oferta e demanda.

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