O favor que al-Maliki prestou a Obama,
que deseja ser Kennedy ou Reagan

EUA · Europa · Iraque · 21/07/2008 - 11h51 - 39 Comentários

Barack Obama só chegou ao Iraque hoje, mas a edição mais recente da revista alemã Der Spiegel já lhe trazia uma boa notícia no fim de semana. São as palavras do premiê iraquiano Nouri al-Maliki: ‘Os EUA devem deixar o Iraque tão logo seja possível’, ele disse. ‘O candidato Barack Obama fala de deixar em 16 meses. Esta, imaginamos, seria uma boa perspectiva, com a possibilidade de pequenas mudanças.’

John McCain tem batido sistematicamente em Obama neste quesito. Ele argumenta que o candidato democrata entende pouco do que está acontecendo no Iraque e é imaturo para avaliar. Esta viagem de Obama à Ásia Central e Oriente Médio é um bocado defensiva, para poder dizer que esteve lá recentemente e que conversou com os comandantes.

Mas, quando o governo do Iraque diz que ele está certo, tudo muda de figura.

Al-Maliki, evidentemente, está de olho também na política interna de seu país. Ele, que assinou a ordem de execução de Saddam Hussein, é xiita. Os xiitas querem o controle do Iraque e, como são maioria, têm chances de conseguir. Xiita mas não excessivamente religioso. Anda de terno e gravata e não com vestes tradicionais. Ouve o clero, mas aproveita o que quer de seus conselhos e dispensa o resto. É de família tradicional. Seu avô foi ministro do rei Faisal I, irmão do avô do atual rei da Jordânia, quando o Iraque era uma monarquia. Prestar um favor ao futuro presidente dos EUA por certo renderá pontos. É uma aposta, claro, mas o tipo de aposta que ressoa bem em casa. O que ele está dizendo qualquer um que esteve no Iraque repete: querem os norte-americanos fora.

O fato é que McCain foi jogado para a defensiva. Até agora, vinha fazendo seu discurso na posição de veterano de guerra, filho e neto de almirantes, especialista em política externa perante o jovem e desqualificado oponente na eleição. É um papel difícil de sustentar quando o governo que os EUA deveriam estar ajudando concorda com a avaliação de Obama.

Neste momento, al-Maliki está sob pressão, já disse que foi mal interpretado. Qual que nada, o estrago foi feito. Um bocado de pressão também deve estar sobre o presidente Jalal Talabani. É o mínimo com o qual McCain pode esperar: ao menos a impressão de que o governo iraquiano está dividido. Mas Talabani está em silêncio e cada dia em que este silêncio se mantém, mais alto ele fala.

Do Oriente Médio, Obama seguirá para a Europa. Na Alemanha, fará um discurso para mais de um milhão de pessoas aos pés da Coluna da Vitória erguida pela Prússia nos tempos de Otto von Bismarck. Ele queria falar à frente do Portão de Brandenburgo, mesmo local em que John Kennedy disse ‘Ich bin ein Berliner’ e, anos depois, Ronald Reagan pediu a Mikhail Gorbachov que derrubasse ‘aquele muro’. É o local onde presidentes dos EUA foram grandes.

Foi com toda razão que o governo alemão gentilmente negou-lhe o espaço. Seria uma intromissão violenta na política interna norte-americana permitir a Obama que fosse filmado qual Kennedy ou Reagan perante um milhão de alemães. Mas é bem possível que as imagens tenham esta aparência de sucesso majestoso de qualquer jeito. Obama é popular na Europa.

(Não custa dizer: é exatamente o tipo de intromissão que al-Maliki cometeu. Mas ele deve ser perdoado. Seu país, afinal, está invadido. Ele tem interesse direto no resultado do pleito norte-americano.)

Tudo, é claro, pode ser posto a perder com uma gafe. É o maior fantasma ao redor de Obama. Se tudo der certo esta semana, ele volta com a imagem de um líder respeitado e admirado no exterior. É o tipo da coisa que os norte-americanos sentem falta. Depois de George W. Bush, tudo o que querem é um novo Kennedy, um novo Reagan. É esta a imagem que Obama quer vender.

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