Daniel Dantas, a imprensa e
aquilo que realmente importa

Brasil · Mídia · 14/07/2008 - 15h11 - 195 Comentários

Está vazando por todo lado, em ritmo de pinga-gotas, detalhes do relatório do delegado Protógenes Queiroz que embasou as prisões de Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pita e uma penca de outros. O capítulo que tem causado mais burburinho é aquele dedicado à imprensa.

O delegado acusa três jornalistas em particular de serem “colaboradores da organização criminosa”. São eles Leonardo Attuch, da revista IstoÉ Dinheiro; Diogo Mainardi, da Veja; e Andréa Michael, da Folha de S. Paulo.

Não é a primeira vez que o nome da IstoÉ Dinheiro é envolvido neste tipo de circunstância por investigações da Polícia Federal. Em 2005, o publicitário Luiz Lara foi grampeado oferecendo a venda de uma reportagem de capa da revista para Adriano Schincariol, dono da Cervejaria Schincariol. O preço sugerido teria sido de “até um milhão de reais”. Uma capa favorável à cervejaria de fato saiu algumas semanas depois. A Editora Três, oficialmente, negou que houve acordo do tipo. Luiz Lara disse que tinha sido infeliz na declaração.

No caso atual, ainda não vazou absolutamente nada no relatório que indique qualquer negociação direta. É uma acusação bem mais frágil do que a de 2005. As acusações contra Mainardi são circunstanciais. Ele jamais escondeu suas conversas com Daniel Dantas. Fonte jornalística existe de todo tipo. E quem conhece podres da República, em geral, não tem a reputação ilibada. Como muitos dos leitores sabem, não gosto do jornalismo da Veja. Não por ser uma revista conservadora. Mas porque, muitas vezes, os repórteres da revista saem da redação dispostos a comprovar uma opinião pré-concebida, incapazes de mudarem de idéia perante os fatos. Ter problemas com o tipo de jornalismo nada tem a ver com suspeitar que a revista, ou seus jornalistas, estejam à venda.

Paulo Henrique Amorim publicou, em seu blog, um trecho gravado da conversa entre a repórter Andréa Michael, da Folha, e o publicitário Guilherme Henrique Sodré Martins. “Avisa ao Daniel que tenho uma matéria de encomenda para ele”, ela diz. “Tá, vou avisar”, ele responde. Amorim não diz em que contexto se deu a conversa. “Matéria encomendada” fica sendo uma expressão feia de doer dadas as circunstâncias. Mas o ‘feito por encomenda’ é expressão de uso corrente, não quer dizer necessariamente matéria comprada. Tampouco quer dizer que todas as reportagens de Andréa, ou da Folha, sejam favoráveis ao banqueiro. Seria preciso ouvir todas as conversas da repórter com o assessor de Dantas para chegar a alguma conclusão.

Publica a conversa inteira, Paulo. Todas as que você tiver.

É bom lembrar que o delegado pediu ao juiz Fausto de Sanctis a prisão preventiva de Andréa, ele leu o relatório e não a concedeu. Um juiz que deu ordens de prisão para alguns dos homens mais poderosos do país e desafiou o Supremo não teria medo de prender uma repórter. Considerou que não havia provas que justificassem.

Cá não vai uma defesa corporativa vinda de jornalista. Existem jornalistas corruptos e existem veículos que se vendem. Mas a ferocidade com que algumas acusações estão sendo feitas faz parecer que há gente aproveitando o momento para ajustar contas passadas. Nesta hora, fica parecendo que a coisa mais importante a se descobrir no Brasil é quem são os jornalistas corruptos. Estes são ficha pequena. Posso não gostar de Veja, mas os editores da revista têm razão no que dizem esta semana na capa: Fala, Daniel.

Que se prendam os jornalistas que comprovadamente quebraram a lei. Muito mais importante do que isso é Daniel Dantas, que tem a chave de todo grande escândalo do Brasil nos últimos 15 anos. Não é revista ganhando um milhão por venda de capa. São bilhões de reais desviados e empresas que fornecem a infra-estrutura que faz o país funcionar que estão em jogo. É melhor que o processo seja bem feito, bem subsidiado. Melhor que todas as prisões sejam corretas na última vírgula da lei. Quanto mais rigoroso for o processo, maiores as chances de o banqueiro falar em troca de diminuição da pena. Vai ter para todo mundo, entre tucanos e petistas.

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