A costura diplomática entre Irã, EUA e Europa

Alemanha · EUA · Europa · Irã · 4/07/2008 - 09h18 - 45 Comentários

Há definitivamente tensão no ar por conta da possibilidade de um ataque ao Irã. Esta semana, em vários pontos do mundo, distintos esforços diplomáticos saíram à tona veladamente na imprensa.

Na edição de semana passada da revista The New Yorker, o decano dos repórteres investigativos Seymour Hersh publicou um longo texto a respeito dos conflitos internos entre Casa Branca e Congresso, nos EUA.

Segundo Hersh, a liderança democrata e republicana, no Congresso, autorizou o financiamento de operações secretas dentro do Irã por parte da CIA e das Forças Armadas. Em geral isso quer dizer dar dinheiro e treinar forças de oposição. Há receio, no entanto, de que estas atividades estejam indo além.

Um dos que manifestam preocupação é o secretário de Defesa Robert Gates. Falando numa reunião privada a senadores, Gates disse que se houver ataque ‘vamos criar gerações de jihadistas e nossos netos vão lutar contra esses inimigos aqui nos EUA’. Perguntaram-lhe se ele falava em nome do presidente Bush ou do vice, Dick Cheney. ‘Digamos que falo apenas em meu nome.’ Sim, o ministro de Bush é contra os aparentes esforços da Casa Branca de atacar o Irã. Hersh diz ainda que a resistência entre os generais também é muito grande. Mas que a pressão por um ataque continua.

Ali Ettefagh, um financista iraniano que mora entre Irã e Europa, analisa assim a situação: ‘Estes são vazamentos propositais vindos direto do escritório do vice-presidente para Seymour Hersh. É um jogo psicológico, uma onda cíclica de noticiário intenso contra o Irã que demonstra a falta de boa vontade do governo norte-americano. Essas notícias de operações secretas chegam para desestabilizar o Irã no momento em que o grupo 5+ 1 (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia) fazem uma oferta de acordo para resolver a questão nuclear. O Irã não deve se permitir confundir pelo jogo.’

Segundo Ettefagh, sempre que algum tipo de acordo está sendo seriamente discutido, vaza na imprensa dos EUA alguma notícia que afasta o Irã das mesas de negociação. O Irã fica parecendo o vilão. Talvez. Aí, passam-se uns dias, o presidente Bush vem deixar claro que nada disso está acontecendo e que a solução que seu país busca é diplomática. Exatamente como aconteceu esta semana. A questão, porém, é mais complexa.

Mesmo quando nós jornalistas não percebamos o jogo – e, muitas vezes, não percebemos mesmo que estamos sendo usados – diplomatas percebem. Sabem exatamente o que acontece, tanto no Irã quanto fora. O desconforto com o governo iraniano é grande. O presidente Mahmoud Ahmadinejad fala demais e não tem qualquer vontade de diplomacia. É um incendiário. E é por isso que uma carta publicada ontem no jornal francês Liberatión é particularmente importante.

No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy procurou ser recebido pelo aiatolá supremo Ali Khamenei. Para negociar em que condições tal encontro poderia ocorrer, o velho aiatolá ordenou que seu braço direito, Ali Akbar Velayati, fosse à França. Velayati então procurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad para informá-lo da missão numa visita de cortesia. Ahmadinejad deixou-o esperando por horas madrugada adentro até recebê-lo e foi rude. Então, o presidente do Irã escreveu uma carta a Sarkozy chamando seu par francês de ‘jovem e inexperiente’ e fazendo ameaças veladas. O fato de que Sarkozy é cinco meses mais velho do que Ahmadinejad é irrelevante. A conversa foi abortada antes de ser negociada.

A carta publicada no Liberatión é de Velayati. Parece que veio do nada. Responde, naquele tom floreado da prosa persa, a uma pergunta jamais feita. ‘Apesar de seu vasto poder, o líder supremo só intervém em casos muito importantes, deixando a maior parte das questões para os responsáveis pelo Estado. Ao receber dignitários e líderes de outros países, ao se comunicar com eles, o líder dá mostras de sua presença crucial na diplomacia iraniana.’

Quer dizer que, no ano passado, Ahmadinejad cruzou uma linha de poder interno que não deveria ter cruzado. Foi um recado para o governo francês: desculpem a grosseria do rapaz, aqui em casa quem manda ainda é o velho.

Não é dizer, de forma alguma, que Sarkozy e Khamenei estejam prontos para se encontrar na semana que vem. O encontro talvez jamais aconteça. Mas Khamenei acaba de desautorizar o presidente Ahmadinejad perante a França. É a maneira iraniana de usar a imprensa em sua diplomacia. Seu objetivo é botar panos quentes.

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