Depois das FARC

América Latina · 3/07/2008 - 09h18 - 164 Comentários

A versão que o governo colombiano conta de como Íngrid Betancourt foi libertada é a seguinte. Há pouco mais de um ano, um agente do serviço de inteligência do Exército foi infiltrado no grupo das FARC comandado por Geraldo Antonio Aguilar, conhecido por César. É o carcereiro-mór da guerrilha. Em junho, ele convenceu César de que havia ordens para fazer o translado daqueles prisioneiros para o lugar onde está o novo comandante das FARC, Alfonso Cano, e que aproveitariam para isso os helicópteros de uma ONG estrangeira.

Ao mesmo tempo, o governo colombiano fez circular pela imprensa a notícia de que agentes humanitários suíços e franceses haviam entrado na selva para se comunicar com o grupo. Suíça e França nem negaram, nem confirmaram a história. Os helicópteros pousaram no acampamento e de lá saltaram ‘umas figuras surrealistas’, como os descreveu Íngrid. ‘Pareciam gente das FARC, falavam como gente das FARCs, alguns tinham camisetas de Che Guevara. Pensei: que comissão internacional é essa? É tudo a mesma gente, vão apenas nos mudar de lugar.’

Dentro do helicóptero, já no ar, um dos pilotos se manifestou: ‘Somos do Exército nacional. Vocês estão livres.’

Segundo o governo colombiano, a operação foi possível porque os blocos das FARC separados pela mata não estão se comunicando uns com os outros por medo de serem interceptados. No fim, são duas escolhas. Ou acreditamos não apenas na competência como também no tremendo golpe de sorte do Exército, que segundo o New York Times teve auxílio dos EUA na operação; ou acreditamos que Íngrid e seus 14 companheiros de cárcere foram libertados após uma negociação com a alta-cúpula. É provavelmente um cenário mais crível; e é bem possível que jamais saibamos.

Se foi um golpe ou se foi negociado, a questão é que as FARC estão enfraquecidas. Talvez esteja chegando o dia em que elas não existirão mais. O que não deixará de existir, na Colômbia, é o narcotráfico. Entre 2000 e 2006, os EUA investiram no Plano Colômbia 5,5 bilhões de dólares. Entre 2002 e 2007, a produção de cocaína no país aumentou em 14%. É um buraco sem fundo. Os cartéis acabaram, as FARC assumiram o negócio.

Quando as FARC caírem de podres que estão, quem assumirá o negócio são aqueles mais próximos. Ou seja: os grupos paramilitares de direita criados em parte, diga-se, com o dinheiro norte-americano. Será um processo parecido com aquele que ocorreu no Afeganistão durante a invasão soviética. Treinaram e bancaram mujahedins que viraram o Talibã e a al-Qaeda.

Não será alívio para ninguém a substituição de criminosos de esquerda por criminosos de direita. Para a população oprimida, dá no mesmo.

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