A esquerda deve renegar as Farc

América Latina · Brasil · Ideologias · 3/07/2008 - 16h30 - 311 Comentários

A turma da extrema direita costuma sempre sacar do bolso a história do Foro de São Paulo e de como as Farc fazem parte dele. Quem vai além da paranóia típica de vivandeiras, sabe que, no Brasil, o Foro é irrelevante. Não tem influência. Quase ninguém no comando do PT, por exemplo, o leva a sério. Luís Inácio Lula da Silva, o presidente da República, não leva nem o PT a sério. Quanto mais o Foro.

Mas há, sim, quem no PT, ou na esquerda, goste do Foro. Algumas dessas pessoas, não muitas, têm poder. É o caso, por exemplo, de Marco Aurélio Garcia, um dos principais assessores do presidente. Ele não é o único. Não é difícil reconhecer gente como ele. Alguns publicam revistas. Outros têm blogs. Nas mesas de bar, eles são muitos. Nas infindáveis reuniões partidárias, também. Só que há um problema.

Eles perderam contato com a realidade.

Não é difícil entender o que eles vêem em grupos como as Farc. Têm ali, em mente, uma fantasia de liberdade, de um grupo que luta pela Revolução igualitária e a utopia socialista. Talvez seja até um sonho bonito. Mas as Farc não são nada disso.

As Farc são um grupo de narcotraficantes – e neste negócio, assim como os cartéis criminosos que sucederam, vivem de explorar gente pobre no campo. São seqüestradores. A maioria daqueles que seqüestram não são ex-candidatos à presidência com nacionalidade européia ou militares norte-americanos. Não. A maioria dos seqüestrados são soldados e policiais pobres que condenam a apanhar e a viver incertamente no meio do inferno da selva, longe da família, de saúde básica, sem ter certeza de que sobreviverão aos anos de cativeiro.

As Farc, hoje enfraquecidas, são também golpistas.

A turma da esquerda que elogia as Farc também costuma chamar parte da imprensa brasileira de golpista. É falta de coerência. Numa democracia, a imprensa critica o governo. Qualquer governo. É seu papel. Isto não quer dizer que o governo vá cair por conta das críticas. Às vezes, acontece. Richard Nixon que o diga. Ou Fernando Collor. Mas não é caso de golpe. É a retirada do poder por meios legítimos, institucionais, de quem descumpriu suas funções. Chamar parte da imprensa brasileira de golpista enquanto elogia as Farc não faz qualquer sentido.

Golpe é derrubar um governo eleito pelo povo desrespeitando os meios garantidos pela Constituição. Golpe não é Revolução. A Revolução Americana, a Francesa, a Russa ou a Cubana derrubaram tiranos que não foram eleitos. Não é isto que as Farc querem fazer. Elas querem obter o poder sem passar pelo processo constitucional. Para isso, usam da violência.

As Farc são bem-vindas no Foro de São Paulo. São convidadas do Fórum Mundial Social. Foro e Fórum são irrelevantes. Só jogo de imagem. Não têm poder de mudar nada e não mudam. Fica justamente a imagem. As Farc fazem mal à esquerda. Lula, Evo Morales, Hugo Chávez, Rafael Correa e Daniel Ortega chegaram ao poder pelas urnas. Democracia tem esse poder: fez de um operário pobre filho de mãe analfabeta e pai ausente oriundo das profundas do Nordeste presidente da República. Renegar as Farc é responsabilidade da esquerda. É hora de reavaliar princípios. Democracia nos faz bem a todos.

As Farc só servem para aterrorizar a população e manter a Colômbia em estado de guerra civil.

Correção - Nos comentários, Átila Roque protesta: as Farc não são convidadas do Fórum Social Mundial; quando aparecem, vinculadas a alguma ONG fantasia, são de presto desligadas. Ele pede para que não se misture Foro e Fórum. Pois bem, a correção de fato cabe. Perdão.

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