Charles Taylor, ex-ditador da Libéria, tem um passado e tanto. Pesam sobre ele acusações que vão do recrutamento de crianças como soldados, estupros coletivos, massacres, em seu país natal e na vizinha Serra Leoa. Extremamente impopular, num cenário internacional desfavorável, Taylor foi levado à renúncia em agosto de 2003. À época, quem negociou sua saída foi Olusegun Obasanjo, então presidente da Nigéria, que ofereceu exílio em troca de ele abandonar qualquer envolvimento político com a Libéria.
Taylor foi colocado na lista dos mais procurados da Interpol mas, a princípio, a Nigéria se recusou a deportá-lo. Em março de 2006, a presidente eleita da Libéria Ellen Johnson-Sirleaf pediu ao país vizinho que entregasse o ex-ditador para ser julgado por crimes contra a humanidade. Contava também com a pressão dos EUA. Taylor tentou fugir, mas foi recapturado e extraditado. Hoje está em Haia, na Holanda, onde responde a um processo perante a Corte Penal Internacional.
Seu julgamento é considerado uma vitória para a idéia da Corte Penal Internacional.
Mas talvez tenha sido uma péssima idéia, sugere o editor de Internacional do Financial Times, Gideon Rachman. (O talvez aqui é importante; Rachman não tem opinião formada.)
Taylor renunciou quando o clima já lhe era desfavorável porque tinha a promessa de um exílio e anistia. Anistias sempre foram oferecidas a ditadores em casos parecidos. São uma maneira de acelerar o fim de um governo insuportável e evitar o derramamento de sangue. Mas veja-se o caso de Robert Mugabe, no Zimbábue. Por que ele renunciaria? Não tem qualquer motivo. Sabe que, mesmo que lhe ofereçam uma anistia, ela não valerá nada e, fatalmente, ele passará o resto da vida perante um juiz em A Haia.
Sua única opção é se manter no poder enquanto conseguir. E não importa quanto sangue derrame no meio tempo.
É um dilema que a Corte Penal Internacional impõe. Se por um lado é certo que todos os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam trazidos à Justiça, por outro sua existência faz com que nenhum responsável por crimes contra a humanidade queira deixar o poder enquanto puder mantê-lo.




