A primeira vista, pode não parecer muito. Mas tem muito significado o fato de que o Conselho de Segurança da ONU condenou as eleições de segundo turno que acontecerão no Zimbábue, sexta-feira. Quer dizer que, desta vez, o embaixador da África do Sul, que tem assento no Conselho, não impôs seu veto para bloquear a votação. Como a condenação foi unânime, quer dizer que a África do Sul votou contra o governo de Robert Mugabe.
Ou seja, Thabo Mbeki, o presidente da África do Sul, retirou seu apoio tácito a Mugabe.
Que ninguém tenha dúvidas: Mugabe é um bárbaro. Fiscais eleitorais do candidato da oposição, Morgan Tsvangirai, foram assassinados. Outros tantos apanharam. Mugabe imaginou que venceria o primeiro turno eleitoral só pelo medo que inspira. Confiante, permitiu que cada zona eleitoral afixasse os resultados conforme ia apurando-os. Quando a vitória de Tsvangirai ficou evidente, já era tarde. Aí virou a eleição na marra, fraudando. Agora, explica a quem perguntar que só Deus o tira do governo. É no mínimo razoável concordar com o CS da ONU: não dá para esperar uma eleição limpa.
Mugabe contava com o apoio de todos os governantes seus vizinhos – principalmente o mais poderoso deles, Thabo Mbeki. Para o mundo, ele é um bárbaro. Para os principais líderes africanos, é diferente. Mugabe, do seu ponto de vista, é o último líder da geração que derrubou os poderes imperiais europeus. É um sobrevivente. Ditador carniceiro, por certo. Mas a barbárie faz parte do cotidiano africano há muitos séculos. Há um choque geracional. Os velhos líderes olham com respeito para a história de Mugabe. Os jovens olham-no com horror. Querem uma África moderna, democrática, parte da comunidade internacional.
Primeiro, foram Zâmbia e Botsuana que renegaram Mugabe. Agora Mbeki está aparentemente cedendo. E também José Eduardo dos Santos, um de seus principais aliados, em Angola. O Zimbabue tem a pior inflação do mundo. Depende dos vizinhos para receber armas e alimentos vindos da China por navio, já que não tem porto. (As armas estavam vindo via Angola.)
A esperança para um Zimbábue livre de Mugabe é que o Conselho de Segurança imponha sanções, os vizinhos as implementem e a pior inflação do mundo resolva o resto. Seria um poder conjunto equivalente à mão de Deus para fazer Robert Mugabe cair.




