Racismo europeu entre o Holocausto e o Islã

Europa · História · Islã · Judaísmo · 22/06/2008 - 14h38 - 60 Comentários

Noah Feldman, do Council of Foreign Relations e da Escola de Direito de Harvard, não é o primeiro a sugerir que a Europa Ocidental é, por natureza, racista. Mas é o mais recente.

Há uma explicação controversa para explicar a cultura anti-muçulmana na Europa: mesmo após 60 anos de introspecção a respeito do anti-semitismo que levou ao Holocausto, os europeus não se convenceram de que imigrantes com diferenças culturais e religiosas devem ser tratados como membros plenos de sua sociedade. O anti-semitismo europeu entre as duas grandes guerras incluía acusações de crime, de conservadorismo religioso, inferioridade genética e, principalmente, falava da impossibilidade de assimilação. Não é coincidência que boa parte dos judeus da Europa Ocidental eram imigrantes ou filhos de imigrantes de países mais ao leste.

Os EUA tiveram sua própria forma de racismo legalizado nas leis Jim Crow, que Hitler copiou para seus próprios propósitos. Após a Segunda Guerra, no entanto, nós norte-americanos começamos a encarar nosso passado. Tendências racistas ainda estão entre nós, mas carregamos a culpa deste racismo e a consciência de que devemos vencê-lo.

Na Europa, o terrível sucesso de Hitler no assassinato de tantos judeus fez com que a sociedade pós-guerra européia jamais tivesse que enfrentar as diferenças. Os judeus que sobraram já estavam longe. Hoje, a natalidade dos muçulmanos europeus é bem maior do que a de seus vizinhos. É como se a inabilidade européia de lidar com diferenças estivesse sendo testada pela primeira vez desde então. Em teoria, a Europa lembra o Holocausto. Mas a profundidade desta memória pode ser posta em questão quando tantos europeus parecem ter se esquecido de que seu continente já serviu de residência para outros estrangeitos muito antes da chegada da atual minoria muçulmana.

Recentemente, uma deputada britânica sugeriu que uma campanha devia desestimular o casamento entre primos paquistaneses. O motivo é que são mais propensos a certas anomalias genéticas. Eles – os paquistaneses – e judeus asquenazitas. Mas ninguém teria coragem de sugerir a uma comunidade judaica com quem casar. Ainda mais com argumentos genéticos.

Muitos dos costumes muçulmanos são criticados por serem atrasados perante a cultura européia liberal de hoje. São mesmo. Como são os costumes católicos, que rejeitam a igualdade entre homens e mulheres no púlpito e ainda consideram homossexualismo doença.

É claro que há o terrorismo, reconhece Feldman. Mas o terrorismo é também de todo conveniente para explicar um padrão de intolerância com o diferente.

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