China, África: parasita, hospedeiro?

China · África · 10/06/2008 - 14h35 - 30 Comentários

A edição que está nas bancas dos EUA da revista FastCompany traz uma interessante análise das atividades chinesas na África.

A África Subsaariana vem crescendo 6% ao ano desde 2004 – lideram os países produtores de petróleo e minerais. Não é pouco para um continente considerado perdido até há bem pouco tempo. Este crescimento, com apoio chinês, tem se traduzido em nítida melhoria da infra-estrutura: estradas, eletricidade – e, com elas, hotéis, postos de gasolina, serviços. Negócios. Neste sentido, a China é uma boa influência que traz, para o continente, algo que o imperialismo e o pós-imperialismo ocidental não trouxeram.

Mas há um problema, aí, comum a todo o planeta mas particularmente grave no caso africano. Um bom naco do dinheiro que entra, sai de imediato. Há algo como 500 bilhões de dólares fruto da corrupção governamental em bancos do ocidente. É um dinheiro que, se repatriado, pagava a gigantesca dívida externa.

Governos e empresas no ocidente costumam dizer que não fazem mais negócios com a África porque, afinal, as coisas mudaram e tolerar trabalho infantil, subcondições de emprego e os altos valores em suborno cobrados pelas autoridades não é mais possível. Como a China não está nem aí para este tipo de ética, ela faz negócios com quem estiver disposto a topar suas condições.

É hipócrita o discurso ocidental. Se há 500 bilhões de dólares em dinheiro da corrupção em bancos da Europa e EUA, não há qualquer esforço para investigá-lo. Os EUA são o país que menos coopera com os investigadores africanos que tentam levantar os fundos dos ex-ditadores e seus comparsas. Em segundo lugar, lá está o Reino Unido. Ninguém quer ver centenas de milhões de dólares deixando sua economia repentinamente. Dependendo da quantia – e, no caso da corrupa africana, o porte é grande –, poderia provocar um desequilíbrio no sistema bancário.

Há uma última razão. Acaso uma investigação séria tenha livre espaço para ser realizada, ficará evidente o quanto de cumplicidade houve por parte das instituições financeiras.

A China faz a África crescer, o corrupção suga um naco dos lucros, mas ainda assim os países vão melhorando. O discurso chinês é de um pragmatismo só: transparência e bom governo são bons, mas não são necessários para que haja desenvolvimento. É o contrário. Transparência e bom governo são o resultado do desenvolvimento. É um discurso conveniente.

Esqueçamos o genocídio do Sudão. Os ditadores, a tortura, as guerras civis, os sanguessugas diversos da terra africana. Agora que há uma potência realmente interessada na África, o desenvolvimento virá? De acordo com a FastCompany, não necessariamente. As exportações chinesas esmagaram no nascedouro a indústria de têxteis e calçados em Botsuana, África do Sul, Quênia e Suazilândia. Fizeram o mesmo com a indústria de plásticos da Nigéria. Sem qualquer chance de ver surgir uma indústria produtora de bens os mais básicos, que rumo tomaria o continente para escapar de ser um mero produtor de carvão, petróleo e algum metal? Esta não é, ainda, uma resposta que se possa dar.

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