De 2003 para cá, a etnia que domina o governo sudanês matou por volta de 300.000 pessoas de um outro grupo. Uns 2,5 milhões deixaram suas casas em direção a campos de refugiados.
Na última quinta-feira, o promotor argentino Luís Moreno-Ocampo depôs perante o Conselho de Segurança da ONU a respeito do processo que pretende apresentar ao Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia. Ocampo quer indiciar dois homens. O primeiro é Ahmed Haroun, ministro de Questões Humanitárias do país; o segundo, Ali Kushayb, líder da guerrilha árabe Janjaweed, responsável direta pela maior parte dos estupros, tortura e mortes na região de Darfur.
Nada que esteja acontecendo no planeta, neste exato momento, é mais grave do ponto de vista humanitário do que o Sudão. Mesmo se incluirmos na lista as conseqüências dos atos da ditadura de Myanmar, que nega ajuda aos próprios cidadãos após um desastre natural. Mesmo que incluamos o Iraque ou qualquer outro episódio do Oriente Médio.
No entanto, já faz cinco anos, o que se passa é uma certa reação blasé. ‘Horrível aquilo no Sudão, não é?’ E daí para outro assunto.
Por que a esquerda não se esgoela e põe o Sudão no topo de sua lista de prioridades? Cruze os blogs ou revistas de esquerda no mundo e os assuntos são vários, as vítimas do imperialismo muitas, mas para as três milhões de vítimas do governo sudanês não sobra muita compaixão.
Como se a direita fosse inocente – não é. Ninguém cogita uma mudança de regime para o Sudão. Ninguém bate os tambores de guerra ameaçando invasão. Um ou outro reclama que a China emperra o assunto no Conselho de Segurança da ONU – o que é verdade. Mas nem EUA, nem França, nem Reino Unido, rigorosamente ninguém acha que o assunto vale uma pesada pressão diplomática. Acaso fosse prioridade, dobrava-se a China. Ou partia-se para a ação sem o aval da ONU. Não seria inédito.
Os únicos realmente preocupados com o Sudão são burocratas e tecnocratas da ONU e de uma meia dúzia de ONGs.
Por quê? Vivemos um período moralista. Esquerda e direita têm, ambas, um discurso de o que é o certo e o que é o errado no mundo assim, na ponta da língua, e todos são rápidos em apontar o dedo para o lado contrário. E, no entanto, perante a pior coisa que ocorre no planeta Terra, só frieza.
O que isso diz a nosso respeito? E faço a pergunta com franqueza: a última vez que o Sudão foi mencionado no Weblog foi em 5 de fevereiro passado. E o país não era o assunto principal do post.
É uma região tão perigosa que poucos jornalistas se arriscam por lá. Este é um dos motivos que justificam a falta de noticiário direto. Mas não basta. Será racismo? Será algum tipo de desistência coletiva a respeito da África Subsaariana?
Talvez seja mais do que isso. Os vilões desta história são ‘árabes’, mas isso é como se apresentam. São negros. As vítimas, também. Os vilões são muçulmanos. Mas as vítimas, também. Há petróleo na região de Darfur, claro. Só que nenhuma superpotência está tentando arrancar o petróleo a fórceps fingindo boas intenções.
O que acontece no Sudão é muito mais simples: é o mal em ação. Somos todos, à direita e à esquerda, pragmáticos. Não atribuímos o ‘mal’ aos outros. Desenvolvemos teorias complexas (ou nem tanto) a respeito de como o mundo funciona e tudo trata de intenções e interesses. Como intenções e interesses são difíceis de atribuir no caso sudanês, o que nos sobra para nossa verborragia política? Nenhuma de nossas teorias geopolíticas têm uma explicação para o Mal. O Mal, neste sentido, nos diz algo um pouco pior. Se um grupo humano é capaz da barbárie, todos nós somos. Depois que os alemães fizeram o Holocausto, ninguém mais pode dizer de cara limpa que uma cultura civilizada, iluminista e cristã seja incapaz do Mal. Todos somos. E, com raríssimas exceções – a intervenção dos EUA no Kosovo, por exemplo –, temos este hábito de deixar o mal agir livremente.
As prisões dos indiciados estão pedidas. Os acusados não podem deixar o país – se deixarem, serão presos. Mas, por enquanto, o assunto segue prioritário apenas na burocracia internacional.




