O que quer Hillary Clinton?

EUA · 4/06/2008 - 01h22 - 107 Comentários

Não são poucas as pessoas que estão, neste exato momento, tentando responder à pergunta do título. A decisão de Hillary de não reconhecer a derrota foi um misto de cálculo político e revolta pessoal.

Hillary não queria perder – isto é claro. E não gostou de perder.

Barack Obama tem – no momento em que escrevo – 2.160 delegados, precisava de 2.117 para ser o candidato.

Hillary está fazendo algumas contas, agora. A primeira é: dá para reverter o processo?

Até que dá. Ela pode questionar, na Convenção de agosto, a decisão de sábado a respeito de Michigan e Flórida. Pode cobrar o direito a voto pleno de todos os delegados de ambos os estados e pedir ainda que cassem os delegados de Obama em Michigan – já que o nome dele não estava nas cédulas.

Quais as chances de ela conseguir algo do tipo? É difícil.

Ela também pode tentar reverter os votos de superdelegados que declararam preferência por Obama. É um pouco mais difícil.

A segunda conta é: dá para se impor como candidata a vice-presidente?

Talvez. Ela tem votos em estados muito importantes. As pesquisas ainda não deixam claro o quanto destes eleitores votarão em Obama contra McCain. É a classe média baixa branca em estados do meio-oeste, que às vezes vota nos republicanos, os Reagan democrats, que Hillary carregou e talvez Obama não leve.

Se está pensando na vice-presidência, neste exato momento, Hillary decidiu jogar duro. Quer que Obama vá a ela. Mas este é um gesto que diminui a vitória dele. Ele tem que pedir. A praxe é que seja o contrário.

Este jogo não deve levar em consideração apenas eleitores hipotéticos que Hillary pode levar para uma candidatura Obama ou que podem simplesmente não votar nele e pronto, mesmo numa chapa com ela. O jogo deve considerar também quem, dentro do Partido Democrata, apóia a candidatura de Hillary como vice. O partido já tem um líder. Todos que se afastam de Obama, hoje, terão dificuldades dentro do partido. E, para fortalecer Hillary, é preciso virar as costas para ele. Quanto mais ela demorar a reconhecer a derrota e declarar seu apoio, mais gente dentro do partido se afastará dela.

E estes serão novos votos de superdelegados para ele que sairão das contas dela.

Na semana passada, em Salvador, Camille Paglia me descreveu Hillary como uma mulher rancorosa. Ressentida. Quer aquilo que considera seu direito e que não lhe é entregue. Muitos têm esta impressão pessoal. Essa noite, Hillary reforçou a impressão.

O senador Barack Obama é o candidato democrata à presidência. Não tem volta.

Por enquanto, o que Hillary Clinton está fazendo é dificultar as eleições para seu partido. Talvez, ainda assim, garanta o cargo de vice. Mas deixa um gosto amargo no processo. Terá arrancado o cargo à força, sem elegância.

Enquanto isso, ela chama seus eleitores ao site. Lá, são convidados a preencher uma mensagem: ‘Estou com você até o final’. Clicam okay e são levados a uma página que pede uns trocados. Talvez seja só esse o problema.

É um enorme contraste quando comparado ao vencedor deste processo.

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