O sistema eleitoral norte-americano não é simples e o trabalho dos dois candidatos democratas é confundir mais, evidentemente, para fazer parecer que uma vitória é mais merecida que a outra. Esta discussão está rolando um pouco nos comentários do post abaixo, então não custa trazê-la à tona.
Hillary Clinton vem utilizando dois argumentos para defender a idéia de que só um processo torpe poderia negar-lhe a vitória. O primeiro, de que nos estados mais populosos, foi ela quem venceu; o segundo de que, no número de ‘votos populares’, ela venceu.
Os argumentos são apenas parcialmente verdadeiros.
Primeiro a questão do voto popular. Hillary não recebeu mais votos que Obama. Recebeu mais cédulas, o que é diferente. Para chegar à conclusão de que teve mais votos, descarta todos os estados nos quais as primárias são decididas pelo sistema de caucus, ou assembléias. Para Hillary, o voto que veio na forma de uma cédula depositada em urna vale; aquele que saiu de um levantar de mãos em uma reunião de interessados não conta.
Em segundo vem a questão dos estados grandes. No maior de todos, a Califórnia, ela realmente venceu. Mas Obama teve 43% dos votos, lá, o que representa uma proporção bem mais do que razoável dos votos dos eleitores democratas. Teve 40% em Nova York. Em Ohio e na Pensilvânia, ele recebeu 45% dos votos. No Illinois, venceu com 65%.
A maior distorção no discurso de Hillary é o caso do Texas, que é o segundo maior estado dos EUA em população e em território. Lá, as primárias funcionam em dois turnos, o primeiro por meio de voto, o segundo por micro-convenções regionais. Obama recebeu 47% dos votos em cédulas e 56% nas micro-convenções.
Na Convenção Nacional, Flórida e Michigan não estarão presentes porque foram punidos pelo Partido Nacional ao anteciparem suas primárias sem permissão. Todos os candidatos sabiam que a punição viria. Nenhum deles fez campanha nestes estados e o nome de Obama sequer estava presente nas cédulas de Michigan. Hillary Clinton, há um tempo, reclamou um bocado da não inclusão destes estados. Há um motivo para ela ter parado de reclamar: a diferença entre ela e Obama é tão grande, agora, que mesmo que suas vitórias lá fossem consideradas, ela não ultrapassaria seu concorrente.
Se as primárias dos EUA fossem decididas pelo voto direto nacional, Obama seria o vencedor. Se fossem decididas pelo voto direto de cada estado estabelecendo pesos diferentes por conta da população, Obama também seria o vencedor. Se, no entanto, os democratas adotassem o sistema republicano de primárias, aí Hillary seria a candidata.
Por quê? Porque, em vários dos estados grandes, os republicanos não distribuem os delegados de acordo com os votos que cada candidato recebe. Não importa se o resultado foi 51% para A e 49% para B; A leva tudo. Mas, aí, o sistema é menos democrático, não o contrário.
O que fez Obama vencer? Ainda é cedo para dizer. A questão da raça e do sexo estava presente, trazendo e afastando votos de um para o outro toda hora. Nos estados em que, além de afiliados ao partido, independentes também puderam votar, ele teve mais votos; naqueles em que democratas de carteirinha apenas votavam, Hillary levou vantagem. Quando a decisão vinha por meio de caucus, a equipe de Obama se organizou melhor; no voto em urna, a de Hillary obteve melhores resultados.
Os acertos de Obama, no fim, provavelmente têm menos a ver com seu carisma pessoal e mais com uma máquina de campanha melhor azeitada e uma logística impecável. Incompetência do pessoal de Hillary? É bem possível que não. No fim, ao que parece à primeira vista, o que fez diferença é que Obama tinha mais dinheiro para gastar do que ela. A Internet mudou o jogo político sem que os Clinton tivessem percebido. Embora ela tivesse grandes doadores com bolsos fundos, Obama pode contar com uma quantidade enorme de gente doando de tostão em tostão.
Esta é uma vantagem que ele leva para a eleição majoritária contra John McCain.




