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Quem afinal venceu entre Hillary e Obama?

May 21st, 2008 · · 28 Comentários

O sistema eleitoral norte-americano não é simples e o trabalho dos dois candidatos democratas é confundir mais, evidentemente, para fazer parecer que uma vitória é mais merecida que a outra. Esta discussão está rolando um pouco nos comentários do post abaixo, então não custa trazê-la à tona.

Hillary Clinton vem utilizando dois argumentos para defender a idéia de que só um processo torpe poderia negar-lhe a vitória. O primeiro, de que nos estados mais populosos, foi ela quem venceu; o segundo de que, no número de ‘votos populares’, ela venceu.

Os argumentos são apenas parcialmente verdadeiros.

Primeiro a questão do voto popular. Hillary não recebeu mais votos que Obama. Recebeu mais cédulas, o que é diferente. Para chegar à conclusão de que teve mais votos, descarta todos os estados nos quais as primárias são decididas pelo sistema de caucus, ou assembléias. Para Hillary, o voto que veio na forma de uma cédula depositada em urna vale; aquele que saiu de um levantar de mãos em uma reunião de interessados não conta.

Em segundo vem a questão dos estados grandes. No maior de todos, a Califórnia, ela realmente venceu. Mas Obama teve 43% dos votos, lá, o que representa uma proporção bem mais do que razoável dos votos dos eleitores democratas. Teve 40% em Nova York. Em Ohio e na Pensilvânia, ele recebeu 45% dos votos. No Illinois, venceu com 65%.

A maior distorção no discurso de Hillary é o caso do Texas, que é o segundo maior estado dos EUA em população e em território. Lá, as primárias funcionam em dois turnos, o primeiro por meio de voto, o segundo por micro-convenções regionais. Obama recebeu 47% dos votos em cédulas e 56% nas micro-convenções.

Na Convenção Nacional, Flórida e Michigan não estarão presentes porque foram punidos pelo Partido Nacional ao anteciparem suas primárias sem permissão. Todos os candidatos sabiam que a punição viria. Nenhum deles fez campanha nestes estados e o nome de Obama sequer estava presente nas cédulas de Michigan. Hillary Clinton, há um tempo, reclamou um bocado da não inclusão destes estados. Há um motivo para ela ter parado de reclamar: a diferença entre ela e Obama é tão grande, agora, que mesmo que suas vitórias lá fossem consideradas, ela não ultrapassaria seu concorrente.

Se as primárias dos EUA fossem decididas pelo voto direto nacional, Obama seria o vencedor. Se fossem decididas pelo voto direto de cada estado estabelecendo pesos diferentes por conta da população, Obama também seria o vencedor. Se, no entanto, os democratas adotassem o sistema republicano de primárias, aí Hillary seria a candidata.

Por quê? Porque, em vários dos estados grandes, os republicanos não distribuem os delegados de acordo com os votos que cada candidato recebe. Não importa se o resultado foi 51% para A e 49% para B; A leva tudo. Mas, aí, o sistema é menos democrático, não o contrário.

O que fez Obama vencer? Ainda é cedo para dizer. A questão da raça e do sexo estava presente, trazendo e afastando votos de um para o outro toda hora. Nos estados em que, além de afiliados ao partido, independentes também puderam votar, ele teve mais votos; naqueles em que democratas de carteirinha apenas votavam, Hillary levou vantagem. Quando a decisão vinha por meio de caucus, a equipe de Obama se organizou melhor; no voto em urna, a de Hillary obteve melhores resultados.

Os acertos de Obama, no fim, provavelmente têm menos a ver com seu carisma pessoal e mais com uma máquina de campanha melhor azeitada e uma logística impecável. Incompetência do pessoal de Hillary? É bem possível que não. No fim, ao que parece à primeira vista, o que fez diferença é que Obama tinha mais dinheiro para gastar do que ela. A Internet mudou o jogo político sem que os Clinton tivessem percebido. Embora ela tivesse grandes doadores com bolsos fundos, Obama pode contar com uma quantidade enorme de gente doando de tostão em tostão.

Esta é uma vantagem que ele leva para a eleição majoritária contra John McCain.

Tags: EUA

28 Comentários até agora ↓




  • 1 Rodrigo // 21/May/2008 às 16:48

    primeiro

  • 2 Vinhal // 21/May/2008 às 18:02

    Mas, ô Doria,

    por que o Obama recebeu esses tostões? Não foi pelo carisma pessoal?

  • 3 Clara C. // 21/May/2008 às 18:06

    mas vamos combinar que podia ser menos complicado. ô sisteminha difícil de entender…

  • 4 Pedro Doria // 21/May/2008 às 18:07

    Vinhal – pelo carisma pessoal, sim, de certa forma. Mas porque seu apelo é à turma mais jovem que, portanto, está habituada com a Internet. Como os eleitores de Hillary são mais velhos, ela já entrou perdendo neste quesito. Não por falta de atrativos, mas pq seus atrativos atendiam a outro grupo etário.

  • 5 El Torero // 21/May/2008 às 19:02

    Gostaria de saber o perfil de quem doa a grana, qto vem de milionários, qto vem de gente nem tanto…a média de cada doação vinda da classe média.

  • 6 Travis Bickle // 21/May/2008 às 19:08

    Sem vergonha nenhuma, não entendo NADA desse sistema eleitoral americano.

  • 7 Clara // 21/May/2008 às 19:28

    Pedro, com todo o respeito, que eu saiba, o candidato democrata ainda não foi escolhido. Portanto, ainda não se pode afirmar que é Obama contra McCain.

  • 8 anrafel // 21/May/2008 às 19:30

    Sabe aqueles cartolas que no início do campeonato se reúnem no conselho arbitral e assinam o documento com o regulamento da disputa e quando seu time chega em segundo lugar reclamam desse mesmo regulamento?

    Hillary que não vá imitar esses caras.

  • 9 Brancaleone // 21/May/2008 às 19:38

    Travis:
    São dois então.
    Num intêndedo necas de pitibiribas tambem…
    Mas a Hillary tá merecendo.
    Mas o Obama me parece um Collor e tem um nome desgraçado de desamericanizado…

  • 10 Pedro Doria // 21/May/2008 às 19:41

    Clara, vc tem toda razão, o candidato democrata ainda não foi oficializado e, portanto, ainda pode ser Hillary.

    Mas Obama tem uma maioria nos delegados eleitos que Hillary não tem mais como ultrapassar; ele tem tambem a maioria entre os superdelegados. O Partido Republicano já está fazendo campanha contra Obama e abandonou Hillary, seu alvo inicial. Dentro da campanha de Hillary, as acusações já começaram na tentativa de explicar o fracasso. Ninguém entre os profissionais da política acha que ela tem qualquer chance.

    Há duas possibilidades de ela se tornar candidata.

    Uma, a de que algo particularmente feio no passado de Obama seja descoberto. Aí os superdelegados que estão com ele viram a casaca. Por enquanto, virada de casaca só existe no outro sentido.

    Outra, de que o Partido Democrata mude as regras do jogo no fim do percurso.

    É indício de que ela mesma já sabe disso o fato de que parou de bater no Obama faz uma semana. Não está mais tentando derrubá-lo pois sabe que não há mais tempo para ganhar os votos de que precisava. Agora, faz campanha perante os superdelegados e apenas com argumentos que, eles sabem, são forçados.

    De qualquer forma, no início de junho, logo após a última primária, ela própria prometeu que haverá uma decisão. Ou seja, se não tiver conseguido mobilizar os superdelegados até lá, deve desistir. Por enquanto, ninguém tem se bandeado para o lado dela. E todo dia pingam mais alguns no de Obama.

  • 11 Celinho // 21/May/2008 às 20:33

    Eleiçoes americanas ou: como complicar um processo que poderia ser o mais simples do mundo..
    So falta incluirem nas regras algo como: no final os dois candidatos pegam os palitinhos e começam a jogar, em caso de empate decide-se pelo par ou impar, mas apenas nos estados que começam com a letra M, nos outros é feito um bingo e quem vencer leva tudo..
    Enfim, valeu pelo post explicativo, Pedro..

  • 12 Zictor // 21/May/2008 às 21:29

    @anrafel,

    Seu comentário com a metáfora dos cartolas foi perfeito.

    Mas, de uma forma ou de outra, acho ridículoque Estados como Iowa, New Hampshire e afins fiquem com tanta frescura de serem as primeiras primárias. Eles acabam tendo poder demais.

  • 13 Julio Meirelles // 21/May/2008 às 21:35

    O processo americano é complexo, mas por isso belo, especialmente porque a população participada de forma ativa na escolha dos principais candidatos. As regras são conhecidas antes, e variam de estado para estado e de partido para partido. Só é complicado para quem quer uma única regra e deixa de apreciar a beleza da diversidade e da tradição de cada estado federado, em respeito ao federalismo americano. Lá as regras eleitorais, salvo algumas poucas regras federais, são estaduais. Aqui no Brasil, diferentemente, as regras são únicas e nacionais. Democracia também pode significar respeito ao particular.

  • 14 Mr X // 21/May/2008 às 21:44

    Muitos milionários apóiam o Obama, inclusive o George Soros.

    Os milionários são os novos socialistas. Sério.

    O porque disso seria uma longa história.

  • 15 Chesterix-Dracul- El Cid, o irado // 21/May/2008 às 22:04

    eu já quase torço para o Obama ser presidente, e assistir o circo pegar fogo…não imediatamente, mas como consequência de seu governo.

  • 16 Chesterix-Dracul- El Cid, o irado // 21/May/2008 às 22:15

    Líder homossexual publica os endereços residenciais de ativistas pró-família
    Matthew Cullinan Hoffman

    21/05 - Mais uma ação que demonstra a sanha totalitária do líder gay Luiz Mott e seus aliados no governo, que já pressionam e ameaçam ativistas pró-família e pessoas contrárias a agenda gay.

  • 17 Cortez // 22/May/2008 às 0:43

    A votação nacional é estado ganho x estado perdido, e ninguém é obrigado a votar, portanto considerando:

    - média histórica de votantes freqüentes republicanos x democratas em cada estado;

    - quantos “não freqüentes” votariam em cada um dos candidatos em cada estado;

    - quantos “depende” votariam à favor de cada candidato em cada estado;

    - quantos “depende” votariam contra cada candidato em cada estado;

    - que votariam quer dizer sair de casa, estacionar, pegar fila e dar sua contribuição cívica ao processo democrático, desistindo do churrasco;

    - qual tipo de primária traz mais votantes às eleições nacionais, caucus ou urna? ser bom de caucus quer dizer convencer mais gente a participar, ou o contrário? por estado, não esqueça;

    Conclui-se:

    Sei lá, bicho!

  • 18 confetti // 22/May/2008 às 3:14

    chesto #15, eu também….meio envergonhada….))

  • 19 Zictor // 22/May/2008 às 9:11

    confetti e chest,

    Vocês estão parecendo a Regina Duarte na campanha do Serra para a presidência.
    Não vai ser o fim do mundo.

    Já esperava isso do chest, mas não da confetti.

  • 20 confetti // 22/May/2008 às 9:17

    zic cade seu humor ?! nao tenho medo de obama presidente, tenho medo é de sua incompetencia e das bobagens que ele pode fazer….

    fora isso, tudo bom c/ vc ? muito luto por ai né…70 mil mortos….o fim do mundo, estamos nele…odios e catastrofes naturais, fome, guerra, no future…

  • 21 Pedro Doria // 22/May/2008 às 9:19

    Bem… a se tomar pelo caso da Regina Duarte, quem sentiu medo se deu mal. O governo Lula tem corrupção pacas e aparelhamento. Defeitos suficientes para negar-lhe o voto.

    Mas o país vai bem.

  • 22 confetti // 22/May/2008 às 9:22

    hallow pd….passeando no pedaço ? )

  • 23 aiaiai // 22/May/2008 às 10:04

    PD esqueceu outra possibilidade da Hillary ganhar: o Obama ser assassinado!
    Em se tratando de EUA não é tão improvável assim e, nesse caso, hillary ganharia as primárias e as eleições.

  • 24 Zictor // 22/May/2008 às 12:05

    Desolé, confis

    Eu tenho andado muito estressado no trabalho.

  • 25 confetti // 22/May/2008 às 12:37

    “confis”…curti….))))

  • 26 lucia // 24/May/2008 às 19:09

    Cada pessoa pode doar no máximo US$2300 para as primárias e US$2300 para as eleições gerais.
    Obama é advogado por Harvard e professor de direito na Univ. de Chicago. A Hillary também é advogada (acho que por Yale), mas sequer conseguiu passar no exame da ordem (bar exam) em NY. Comparar o Obama com o Lula é uma total loucura.

  • 27 André Kenji // 24/May/2008 às 20:31

    1-) Em 1988 um candidato bem menos crível(Jesse Jackson) conseguiu uns mil delegados tendo como base o voto dos negros e até o início dos anos 90 um candidato a juiz federal poderia ter sua nomeação bloqueada se fosse descoberta alguma coisa insensível sobre raça somente pela pressão que os negros exerciam sobre os senadores democratas nos estados do Sul.

    Logo, não é difícil fazer as contas e descobrir como que Obama venceu.

    2-) Um dos argumentos de Hillary faz sentido: os caucuses são anti-democráticos e beneficiam o eleitorado jovem e com bastante tempo disponível que vota em Obama. Pelo estados em que os dois sistemas foram usados(Ex, Washington) a votação de Obama teria sido bem menor se nenhum estado o usasse.

    Eu nunca participaria de um troço desses pelo fato do voto ser público. Tenho chefes com posições bem diferentes da minha.

    3-) A Flórida favoreceria Hillary em bom número pela população imigrante e pelos aposentados se houvesse uma primária certa por lá. No caso de Michigan a alta população negra de Detroit e heterogeneidade da população lançam dúvidas, mas considerando os votos em Ohio, Pensilvânia e o resto do rust belt acho que Clinton venceria lá por boas margens. Aliás, Obama só venceu um condado no norte de Ohio.

  • 28 André Kenji // 24/May/2008 às 20:36

    Caucuses tem vários problemas. São feitos num horário específico, o que exclui gente que precisa trabalhar ou estudar em determinado horário. São programas cansativos para a maior parte da população e o voto público(”Eu vi fulaninho na coluna de Obama na eleição”) ou afasta ou sujeita pessoas a coação.

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