A Amazônia é nossa?

Brasil · 20/05/2008 - 05h01 - 289 Comentários

No Brasil, onde fica 60% da floresta Amazônica, o debate a respeito da propriedade da mata é dado em termos recorrentes. Há uma suspeita antiga, por parte dos militares e dos segmentos conservadores, de que o real objetivo dos estrangeiros é tomar posse deste pedaço selvagem e tropical do país e de suas riquezas.

A importância global da Amazônia é bem conhecida. Ela atua como um regulador de clima, afetando diretamente os padrões de chuva no Brasil e na Argentina. Seus ventos, sugerem alguns estudos, talvez afetem chuvas na Europa e América do Norte. A queima e decomposição de árvores cortadas pelo desenvolvimento do Brasil é responsável por 50% das emissões de carbono oriundas do desflorestamento, diz Meg Symington, diretora para Amazônia do World Wildlife Fund, nos EUA. [...]

Há poucos casos concretos daquilo que os brasileiros chamam de biopirataria. A companhia farmacêutica Bristol-Myers Squibb, por exemplo, descobriu que o veneno das cobras jararacas pode ajudar no controle de pressão alta e o usou para lançar o remédio Captopril. Mas em geral, diz Thomas Lovejoy, presidente da ong Heinz Center, ‘a biopirataria é uma lenda’.

O assunto mais badalado dos últimos dias, nas redações do Brasil, é a reportagem dominical do novo correspondente do New York Times, Alexei Barrionuevo, com o sugestivo título ‘A Amazônia pertence ao Brasil – ou ao mundo todo?‘. Na caserna, já estão lá uns generais e coronéis de pijama todos ouriçados.

Quem lê o texto sem preconceitos ou pré-concepções, no entanto, descobre outra coisa: é honesto. É a típica pauta que só um repórter estrangeiro recém-chegado ao Brasil perceberia. Trata da paranóia sempre presente por aqui de que alguém, em algum lugar, nos quer roubar a Amazônia. Não fala de uma ameaça real. Quem conhece o Brasil há muito não se surpreende com esta discussão; aqueles que chegam de fora ficam surpresos com a idéia que ronda as teorias conspiratórias da direita.

Num segundo nível, no entanto, a reportagem levanta uma questão importante. Quando um país não cumpre com suas responsabilidades, o que a comunidade internacional deve fazer?

Veja-se o caso do Sudão e de seu genocídio em curso na região de Darfur. Às vezes está mais em evidência na imprensa, noutras tantas, menos. A China sustenta economicamente o país e ninguém achou que cabe uma invasão, mesmo que para salvar gente. Em princípios dos anos 90, a Otan, sob o comando do então presidente dos EUA, Bill Clinton, interveio no Kosovo para impedir outro genocídio.

Noutros casos, a questão não são vidas humanas em risco. A China polui – e polui sem culpas. Está prestes a se tornar o maior emissor de carbono do mundo. Enquanto isso, o atual maior emissor, os EUA, elegerá um presidente – seja Obama, seja McCain – que agirá como Bush se recusou a agir e partirá para diminuir a dependência do petróleo, coisa que fará bem ao planeta, pela geopolítica, pelo aquecimento. Mas ninguém cogita intervenção na China. Mal há pressão.

Ecologicamente, o Brasil tem uma atuação dúbia. Nosso governo é totalmente irresponsável no que tange a preservação da Amazônia. Por outro lado, nossa energia vem em primeiro lugar do etanol, em segundo das hidrelétricas – combustíveis fósseis em terceiro. Nesse sentido, não tem país grande como este. Se há críticas ao etanol brasileiro – e há –, elas são injustas. O etanol de cana – e não o de cereais – é a alternativa mais barata e mais eficiente que há hoje para o petróleo-combustível. Não que a grande indústria petroleira goste disso.

Daí que a questão amazônica é surpreendente. Embora seja um exemplo de substituição do combustível fóssil, o país é o quinto maior emissor de carbono do mundo. São as queimadas. E a responsabilidade é de Brasília. Qual responsabilidade? O Brasil não tem uma política para a Amazônia. Cada ministério tem suas preocupações, cada setor do governo faz o que quer e, evidentemente, os interesses entram em conflito.

O Brasil é assim: quando quer, o governo sabe fomentar um setor, investir em pesquisas, se relacionar com empresas privadas e nos tornamos líderes mundiais em algo inovador ou inventamos soluções próprias e competitivas. O governo sabe ser competente. Assim como nossas empresas privadas também sabem. É o Brasil do etanol, da Vale, da Petrobras, da Natura, da Embraer. Noutras vezes, deixamos os problemas para lá na esperança de que alguma solução apareça pela inércia. Jamais aparece.

Os militares tinham uma política para a Amazônia: a de ocupá-la. Sua política foi desastrada. Mandou gente para lá que não acaba mais e não legalizou a situação de ninguém, não distribuiu os títulos de terra que prometera, tampouco construiu a infra-estrutura que devia. Na falta de legalização, a lei passou a ser a da arma e da força. É uma vida dura, difícil. Mas ao menos tinham um objetivo para aquele mundo de terra e de mata. Os governos civis não têm. No fundo, e já há muitos governos, o que falta para a Amazônia é um objetivo claro.

O Brasil tem, sim, uma responsabilidade perante o mundo de preservar sua floresta. É uma responsabilidade também perante nós mesmos. Sem Amazônia, não há chuva do centro-oeste ao sul para irrigar as plantações que sustentam o crescimento ou encher as hidrelétricas que acendem São Paulo e o Rio. Então, do ponto de vista pragmático, não há dúvidas de que preservar é bom negócio.

Como preservar? Fechar tudo e não deixar ninguém mais entrar? Como distribuir os títulos de terra para quem já está por lá? Como instituir a lei numa terra em que deputados-policiais matam gente com serra elétrica? Como erguer centros de pesquisa brasileiros com cientistas de ponta transferidos ou nascidos na região?

Ninguém vai tomar a Amazônia – a política internacional não comporta esse tipo de ação.

Mas, por trás do pedido de demissão da ministra Marina Silva, está um fato simples que só. O Brasil ainda não sabe o que quer fazer com sua maior floresta. E, enquanto não soubermos o que fazer com a mata, ela seguirá sendo destruída e uns tantos entre nós, por puro sentimento de culpa, continuarão achando que alguém lá fora vai tomá-la na força. Talvez porque, no fundo, bem lá no fundo, saibam que temos culpa no cartório.

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