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Os EUA e suas guerras (1)

May 19th, 2008 · · 27 Comentários

Quanta provocação um país deve agüentar antes de partir para a guerra? Às vezes, há quem diga, a guerra é necessária e inevitável. Ficar negociando, e insistindo em negociações, é uma espécie de ingenuidade.

Em 1794, os EUA assinaram um acordo de paz com o Reino Britânico, pondo fim à guerra entre os dois países e consolidando sua independência. O tratado, no entanto, foi interpretado pela França – que havia auxiliado militar e financeiramente a jovem república – como um ato hostil.

Não era fácil lidar com a França naquele momento: em pleno período do Terror, a monarquia caíra em 1789 e, enquanto girondinos e jacobinos brigavam entre si a respeito do futuro da nação, o país saía declarando guerras. Muitos queriam exportar à força sua revolução. Em 1794, perante o acordo de paz entre norte-americanos e britânicos, os franceses não tiveram dúvidas. Começaram a tomar, em alto mar, quaisquer navios com a bandeira dos EUA. Não pararam aí. Na escalada das tensões, quando um diplomata norte-americano chegou em Paris para tentar conversa, o governo revolucionário não apenas se recusou em recebê-lo como respondeu em carta que se sentaria à mesa apenas após o pagamento de uma volumosa soma. Uma ofensa clara.

Quando a carta francesa chegou aos EUA, o presidente era John Adams, um homem lembrado como indeciso pela história. Ele se recusava a declarar guerra e insistia na neutralidade perante a confusão européia.

Àquela época, como hoje, os EUA estavam rachados. O Partido Federalista, liderado por Alexander Hamilton, defendia uma aliança mais estreita com os britânicos e uma postura firme perante as ofensas francesas. Hamilton, que sucedeu George Washington na liderança do exército, queria a guerra. E ele tinha um bom argumento: além de ser impossível confiar nos humores do governo revolucionário francês, Paris obviamente queria a guerra também. Afinal, os ataques contra navios dos EUA não cessavam.

Por outro lado, o Partido Republicano Democrata de Thomas Jefferson era pró-França. Considerava que os EUA tinham a obrigação de apoiar os franceses neste momento de transição, não apenas porque a França havia os ajudado durante a Guerra Revolucionária contra os britânicos como também porque a Revolução Francesa lembrava os ideais de sua própria independência. Jefferson havia indo além: quando em Paris, fora um dos autores da Declaração dos Direitos do Homem, que ainda hoje forma a base da constituição francesa.

Adams era federalista – portanto, era o seu partido que desejava a guerra. Ele simplesmente se recusou, constantemente postergando a decisão e insistindo – numa demonstração de fragilidade, seus co-partidários diziam – em negociações. Ele acreditava que a instabilidade do governo francês não duraria muito. O governante ia mudar e a agressão gratuita cessaria. Questão de tempo. No último ano de seu mandato, o jovem general Napoleón Bonaparte participou de um golpe de Estado contra o governo constitucional, instalando um novo regime. Em segredo, Adams enviou um novo embaixador que, enfim, voltou de Paris com um acordo de não-agressão mútua.

Não foi em tempo de salvar seu governo, totalmente dominado por esta única questão. Em 1800, Thomas Jefferson foi eleito o terceiro presidente dos EUA e Adams, sem conseguir a reeleição, voltou para seu Massahussetts natal um quê amargurado. Jefferson, o brilhante iluminista norte-americano, é um dos mais lembrados dentre os founding fathers da nação; já Adams, cuja vida virou recentemente série de tevê na HBO de lá, é lembrado apenas como aquele presidente entre Washington e Jefferson. Seu primo Sam Adams, que virou nome da boa cerveja de Boston, termina que é mais famoso.

Mas o seu é um nome a lembrar: houve um tempo em que, no governo dos EUA, insistência em negociação era matéria de fé.

(O belicoso Partido Federalista terminou por desaparecer do mapa. Os Republicanos Democratas criados por Jefferson continuaram – é o atual Partido Democrata. O Partido Republicano só seria fundado em 1854.)

No vídeo acima, John Adams e Thomas Jefferson na série da HBO.

Tags: EUA · História

27 Comentários até agora ↓




  • 1 confetti // 19/May/2008 às 10:52

    eu !!

  • 2 Mr X // 19/May/2008 às 11:07

    Começou a propaganda… :-((((

    Que tal falar sobre a guerra contra as tribos árabes que Jefferson comandou poucos anos depois? Acabou com os piratas muçulmanos!

    http://en.wikipedia.org/wiki/First_Barbary_War

  • 3 Zé Bush // 19/May/2008 às 11:38

    well…creio que Adams não foi de todo um fraco ou indeciso. Sabia que a jovem nação americana não seria páreo para uma França revolucionária e bem armada. Sem exército, sem armas, devendo muito…..entrar em guerra prá que? Ainda mais quando tinha oposição até dentro do prórpio país. Condição primordial para entrar numa guerra é ter a nação unida em torno de um propósito, o que não acontecia.

    Tem outra coisa. Com o império espanhol na América se desmanchando, seria bastante razoável supor que a França “estimularia” invasões e agressões através do México, como de fato chegou a acontecer.

    Alguma décadas depois, os franceses colocaram até um imperador francês no México, tamanha era sua influência e poder. Durou pouco, mas bem que tentaram…

  • 4 Pax // 19/May/2008 às 11:41

    Belo tema, belo argumento de discussões.

    Só não concordo que Adams tenha nome mais famoso que Jefferson. De onde você tirou isso Pedro Doria?

  • 5 Pedro Doria // 19/May/2008 às 11:45

    ô, Pax, mas se eu disse que o Adams é apenas aquele presidente entre o Washington e o Jefferson e que até o primo dele, nome de cerveja, é mais famoso…

  • 6 Nassau // 19/May/2008 às 12:21

    E a mídia patriótica onde estava?

  • 7 Chesterton // 19/May/2008 às 14:06

    uma pequena diferença, naquela época a França era os EUA de hoje. Os EUA não podiam com a França.

  • 8 Chesterton // 19/May/2008 às 14:13

    Ad\ams é muito famoso pelas pastilhas.

  • 9 Felipe // 19/May/2008 às 14:19

    Pedro, aco importante lembrar que a proxima guerra que os EUA vai patrocinar vai ocorrer aqui na America Latina. Eles apoiam decaradamente Alvaro Uribe, um presidente que enriqueceu com o dinheiro do tráfico de drogas e que tem parentes presos por associação ao trafico. Eles nao respeitam outros presidentes no continente eleitos DEMOCRATICAMENTE e, alem disso, incentivam a elite desses paises a tomarem o poder passando por cima da vontade do povo. Aproveitando que essas elites tem quase a totalidade dos meios de comunicacao no continente e sao, ideolicamente, alinhadas aos desejos do presidente Bush. Pior que isto tambem ocorre no Brasil. Porem com menos intensidade pois Lula resolveu nao brigar com os EUA. Diferente do referendo clandestino que os EUA fizeram os governantes ricos junto aos empresarios ricos da Bolivia criarem. Diferente da estrategia golpista dos meios de comunicacao da Venezuela pra derrubar o presidente eleito.

  • 10 Chesterton // 19/May/2008 às 14:39

    Cara, esse Felipe entende tudo ao contrario…

  • 11 Pedro Doria // 19/May/2008 às 14:44

    Nassau – a imprensa era diferente, na época. Havia os panfletos (famosos, diga-se) do Alexander Hamilton, que eram pró-Inglaterra, e outros tantos financiados pelo Thomas Jefferson, pró-França.

  • 12 Renato // 19/May/2008 às 14:56

    Muito interessante PD, mas concordo com a opinião do Chesterton.

    Adams enrolou porque não queria entrar numa guerra que não sabia se tinha condições de ganhar. E apoiar-se em seu ex-colonizador, a Inglaterra seria algo arriscado, ainda mas com parte de seu povo sendo pró-frança. Lembrando que em 1812 os americanos lutaram contra os ingleses e os canadenses.

    Não me lembro de quem é o ditado. Mas um bom general é aquele que sabe quando pode ganhar uma guerra, mas também sabe quando a vitoria é impossível.

  • 13 Hugo Albuquerque // 19/May/2008 às 15:30

    De parecido com os EUA de hoje, os EUA do início tinham aquela questão da dupla-hélice: Por um lado liberal, dentro daquela tradição dos calvinistas e dos judeus de NY, por outro paranóica, xenofóbica e belicista, dentro da tradição puritana.
    Obviamente, os americanos enxergavam o seu país de uma maneira bem diferente, era um jovem e revolucionário país navegando num mar bravio, precisando fazer um jogo de equilíbrio tanto no âmbito diplomático quanto militar (até onde fosse possível) em relação às grandes potências européias e quem quer que fosse.
    Neste momento ganharam os liberais. Poucos anos mais tarde, entretanto, ganharam os War Hawks e a frustrada tentativa de invadir o Canadá deu na segunda guerra de independência que resultou, inclusive, no incêndio da Casa Branca pelos ingleses.
    Hoje em dia as coisas rolam no mesmo sentido, onde liberais razoáveis se degladiam com belicistas, com o agravante, todavia, que os EUA, agora, demonstram certos sinais de esclerose que não existiam nessa época.

  • 14 marco // 19/May/2008 às 16:16

    Pelo raciocínio desenvolvido por esse post do Pedro Dória devemos esperar que o líder do Irã seja deposto por um jovem general e, assim, do nada, de maneira ideal, acaba o latente conflito Irãx israel.
    Inclusive a frenética construção da Bomba.

    ma

  • 15 marco // 19/May/2008 às 16:17

    Pacifismo tem limites.
    Chama-se bom senso.

  • 16 Chesterton // 19/May/2008 às 16:34

    esse pacifismo é a total abdicação da capacidade de entender como as coisas acontecem no mundo real. PD compartilha do “pensamento mágico” (gostei muito dessa tradução de wishfull thinking) de todo jornalista latino-americano com complexo de inferioridade em relação aos irmãos do norte.

  • 17 Paulo // 19/May/2008 às 16:50

    Realmente nao entendi qual a similaridade que vc quer estabelecer aqui Pedro.

    E ir ate aquela epoca eh desnecessario. Vc poderia pegar exemplos mais recentes como Wilson na WW1 e FDR na WW2. Os 2 tentaram negociar o ceu e a terra, antes *e depois* da guerra com resultados muito ruins. Se Wilson tivesse aprovado o acordo de defesa mutua com a Franca as coisas teriam sido beeem diferentes.

    Alias, eh interessante como os presidentes durante todas as maiores guerras do sec.XX foram democratas, nao?

  • 18 Mr X // 19/May/2008 às 17:15

    Já vi muito comentário burro aqui no blog do PD, mas esse do Felipe #9 deve ter batido alguma espécie de recorde!

    Hehehe, o cara entende tudo ao contrário mesmo, acho que devia se pendurar de cabeça pra baixo pra ver as coisas certas (e com mais sangue no cérebro talvez o pensamento comece a fluir).

    A próxima Grande Guerra também vai acontecer sob um Democrata (Obama).

  • 19 Linda // 19/May/2008 às 17:30

    Está jogando a toalha fácil, Mr X. rs

  • 20 Chesterton // 19/May/2008 às 18:44

    aquele partido democrata não existe mais.

  • 21 Chesterton // 19/May/2008 às 18:53

    Linda ama Lula.

  • 22 josef mario // 19/May/2008 às 18:59

    Companheiro felipe
    Eu, josef mario, devo dizer que o companheiro mandou bem no seu comentário 9. Infelizmente, são poucos os companheiros deste prestigioso blog que tem uma velocidade de raciocínio capaz de acompanhar inteligências brilhantes como a do companheiro. Meus parabéns!
    Muito obrigado

  • 23 Chesterton // 19/May/2008 às 19:26

    agora filipi pode se enterrar….

  • 24 Nassau // 19/May/2008 às 19:57

    Depois de um longo e tenebroso inverno…

    Eis que o Sol surge no horizonte, irradiando os seus feixes luminosos e beijando-me com seu cálido primaveril.

  • 25 MATA HARI // 20/May/2008 às 14:11

    Nassau, o que é esse post 24???

  • 26 Nassau // 21/May/2008 às 2:25

    MATA, você se interessa por hermetismo e numerologia cabalística?

  • 27 confetti // 21/May/2008 às 5:20

    nassô hahahaha

    isso, curte que é curto, o tempo passa….))

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