Quanta provocação um país deve agüentar antes de partir para a guerra? Às vezes, há quem diga, a guerra é necessária e inevitável. Ficar negociando, e insistindo em negociações, é uma espécie de ingenuidade.
Em 1794, os EUA assinaram um acordo de paz com o Reino Britânico, pondo fim à guerra entre os dois países e consolidando sua independência. O tratado, no entanto, foi interpretado pela França – que havia auxiliado militar e financeiramente a jovem república – como um ato hostil.
Não era fácil lidar com a França naquele momento: em pleno período do Terror, a monarquia caíra em 1789 e, enquanto girondinos e jacobinos brigavam entre si a respeito do futuro da nação, o país saía declarando guerras. Muitos queriam exportar à força sua revolução. Em 1794, perante o acordo de paz entre norte-americanos e britânicos, os franceses não tiveram dúvidas. Começaram a tomar, em alto mar, quaisquer navios com a bandeira dos EUA. Não pararam aí. Na escalada das tensões, quando um diplomata norte-americano chegou em Paris para tentar conversa, o governo revolucionário não apenas se recusou em recebê-lo como respondeu em carta que se sentaria à mesa apenas após o pagamento de uma volumosa soma. Uma ofensa clara.
Quando a carta francesa chegou aos EUA, o presidente era John Adams, um homem lembrado como indeciso pela história. Ele se recusava a declarar guerra e insistia na neutralidade perante a confusão européia.
Àquela época, como hoje, os EUA estavam rachados. O Partido Federalista, liderado por Alexander Hamilton, defendia uma aliança mais estreita com os britânicos e uma postura firme perante as ofensas francesas. Hamilton, que sucedeu George Washington na liderança do exército, queria a guerra. E ele tinha um bom argumento: além de ser impossível confiar nos humores do governo revolucionário francês, Paris obviamente queria a guerra também. Afinal, os ataques contra navios dos EUA não cessavam.
Por outro lado, o Partido Republicano Democrata de Thomas Jefferson era pró-França. Considerava que os EUA tinham a obrigação de apoiar os franceses neste momento de transição, não apenas porque a França havia os ajudado durante a Guerra Revolucionária contra os britânicos como também porque a Revolução Francesa lembrava os ideais de sua própria independência. Jefferson havia indo além: quando em Paris, fora um dos autores da Declaração dos Direitos do Homem, que ainda hoje forma a base da constituição francesa.
Adams era federalista – portanto, era o seu partido que desejava a guerra. Ele simplesmente se recusou, constantemente postergando a decisão e insistindo – numa demonstração de fragilidade, seus co-partidários diziam – em negociações. Ele acreditava que a instabilidade do governo francês não duraria muito. O governante ia mudar e a agressão gratuita cessaria. Questão de tempo. No último ano de seu mandato, o jovem general Napoleón Bonaparte participou de um golpe de Estado contra o governo constitucional, instalando um novo regime. Em segredo, Adams enviou um novo embaixador que, enfim, voltou de Paris com um acordo de não-agressão mútua.
Não foi em tempo de salvar seu governo, totalmente dominado por esta única questão. Em 1800, Thomas Jefferson foi eleito o terceiro presidente dos EUA e Adams, sem conseguir a reeleição, voltou para seu Massahussetts natal um quê amargurado. Jefferson, o brilhante iluminista norte-americano, é um dos mais lembrados dentre os founding fathers da nação; já Adams, cuja vida virou recentemente série de tevê na HBO de lá, é lembrado apenas como aquele presidente entre Washington e Jefferson. Seu primo Sam Adams, que virou nome da boa cerveja de Boston, termina que é mais famoso.
Mas o seu é um nome a lembrar: houve um tempo em que, no governo dos EUA, insistência em negociação era matéria de fé.
(O belicoso Partido Federalista terminou por desaparecer do mapa. Os Republicanos Democratas criados por Jefferson continuaram – é o atual Partido Democrata. O Partido Republicano só seria fundado em 1854.)
No vídeo acima, John Adams e Thomas Jefferson na série da HBO.




