O terremoto vivido pelos leitores
do Weblog na China

China · 13/05/2008 - 15h11 - 17 Comentários

Pescando dos comentários abaixo, diz a Ana, que assina o blog Ana no Império do Meio e que vive em Xangai:

O que aconteceu ontem, mesmo com os prédios que o governo diz ter evacuado, foi uma trapalhada. Xangai é considerado um lugar seguro para terremotos. Mas, estando na Ásia, tão perto de locais como Mianmar e com histórico prévio de catástrofes, era de se imaginar que as pessoas saberiam como agir. O que aconteceu foi um monte de gente correndo como barata tonta, guardas sem saberem lidar com situação, nenhuma sirene tocando para avisar aos moradores para deixarem suas casas.

Através de uma mídia controlada, o Estado traça a sua lista de prioridade para políticas públicas e determina que tipo de informação os veículos de comunicação devem focar. Assim como poucos chineses sabem que se deve escovar os dentes após as refeições, também não sabem agir diante de um terremoto.

Na minha ex-cidade Wuhan, caiu até prédio.

A mortandade está grande, mas, apesar de não ter provas, algo me diz que haverá alardes e alardes para sufocar a questão do Tibete na mídia.

Ana fez dois comentários, e o acima é um condensado de ambos. No segundo, ela tece críticas à cobertura da televisão brasileira.

Zictor, autor do Mundo visto pelos leitores sobre a China, e que vive em Beijing, continua:

Sobre o fato de o povo não estar preparado para lidar com o terremoto, isso não me surpreendeu. Os chineses só aprendem batendo cabeça, faz parte da cultura deles. É difícil falar de prevenção aqui sem que eles ou alguém que eles conheçam tenham sofrido de um problema semelhante.

Assim, mesmo que a mídia fosse livre, a chance de que ela tentaria cavucar ‘responsáveis’ pela desgraça seria pouca. Os chineses não se preparam muito mesmo. Vão começar a se preparar agora, mas só perto da área afetada.

Da mesma forma, a mídia chinesa não tem motivos para tentar esconder o número de mortos. Eles têm uma razoável liberdade de manobra. A partir de informações conseguidas de fontes confiáveis (não posso dar muitos detalhes), a imprensa chinesa só aperta mesmo em tópicos politicamente sensíveis, como os 3 T’s (Taiwan, Tibet e Tian’anmen). Tirando esses campos minados, o que rola mais é auto-censura mesmo.

Os políticos chineses também não são burros. Assim como ocorreu quando houve a nevasca, Wen Jiabao (primeiro-ministro) e Hu Jintao (presidente) já estão no local, pra tirar foto e dar ordens. Os políticos locais também se mexem, é a chance de eles mostrarem serviço e conseguir promoções.

A mídia está focada nos esforços de resgate. Se alguma autoridade local fizer merda ou embaçar, tá lascada. Há uma chance de a mídia cair em cima. A responsabilidade vai toda em cima da pessoa e o partido sai quase ileso. Aqui, os chineses dissociam as autoridades locais do partido.

O importante é fazer a liderança do topo sair bem na fita. Os locais correm riscos.

Para concluir, discordo do PD, este NÃO é um teste para a abertura da China. Durante o Grande Salto para frente eles já haviam culpado desastres naturais por problemas econômicos. Pelos padrões dos chineses, as notícias mais importantes para o mundo podem ser liberadas. Somente o enfoque e a direção em que apontam as coberturas precisam ser ‘guiados’. E essa manipulação sutil dificilmente será percebida ou destacada pela mídia mundial.

Os comentários do Zictor também foram condensados – o completo está lá embaixo. Nós, eu e ele, percebemos a China de maneira diferente. E este é um bom debate. A China já é uma potência mundial – e pelo seguinte motivo: sua política externa determina o futuro de muitos países. Sanções a lugares como o Sudão são impossíveis sem a colaboração chinesa. E, enquanto a China mantiver a bênção sobre lugares como o Sudão, crimes podem acontecer. (Ser potência não é simples.)

O governo da China, como qualquer potência, joga dois jogos de imagem simultaneamente. O primeiro é interno e tanto Ana quanto Zictor estão nos dando uma aula sobre como os chineses se vêem e se compreendem. O segundo é externo. Perante a tragédia de Nova Orleans, o governo liderado por George W. Bush fracassou em ambos os jogos de imagem. Aparentemente, pelo menos no que toca à percepção interna, o governo chinês tem a crise sob controle. A percepção externa, que andou problemática por conta do Tibete, ainda está aberta.

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