O Hizbolá e o futuro do Líbano

Irã · Israel e Palestina · Oriente Médio · 12/05/2008 - 17h35 - 46 Comentários

De Robert Fisk, no Independent:

Quando o Hamas foi eleito para o governo palestino, o Ocidente o rejeitou. Então o Hamas tomou Gaza. Quando o Hizbolá foi tomar parte do governo libanês, os norte-americanos o rejeitaram. Agora, o Hizbolá tomou parte de Beirute. Os paralelos não são exatos, claro. O Hamas venceu as eleições de forma convincente. O Hizbolá era minoria no governo do Líbano. Quando o Hizbolá deixou o gabinete do premiê Fouad Siniora foi por conta das políticas pró-EUA deste e porque, com poucos votos, não tinha como mudá-las. Assim como os palestinos, os libaneses não querem uma república islâmica. Mas quando Sayed Hassan Nasrallah, líder do Hizbolá, falou que uma ‘nova era’ estava surgindo no Líbano, ele falava seriíssimo.

Nada está certo no futuro do Líbano. O governo, no entanto, se sustenta por um fio e o Hizbolá terá muito mais espaço no próximo regime. (Isto, se não decidir partir para o golpe e assumir o governo completamente.)

O Hizbolá representa os xiitas. Mas responder quantos são os xiitas, no Líbano, não é trivial. O último censo oficial foi há mais de 70 anos. O New York Times estabelece assim: 35% muçulmanos xiitas, 25% cristãos maronitas católicos, 25% muçulmanos sunitas, 10% cristãos outros, 5% muçulmanos drusos. Os xiitas, portanto, são maioria. Mas sunitas, drusos e cristãos costumam ter mais facilidade de se entender entre si.

Um Líbano dominado pelo Hizbolá teria que conseqüências para a região? (Por enquanto, Israel treme.)

O Hizbolá vem sendo financiado por Irã e por Síria. Os dois países têm interesses distintos. A Síria tem uma disputa territorial e geopolítica com Israel. Israel atrapalha militar, diplomática e financeiramente a influência síria sobre o Líbano e há uma velha briga pela posse das Colinas de Golan.

O problema do Irã, por sua vez, é ideológico, religioso e de uma geopolítica mais ampla. Teerã nega a Israel o direito de existir e vê sua oposição ao país como uma peça num conflito maior, com os EUA. Além do mais, o Hizbolá, como o governo iraniano, é xiita.

A população xiita, na Síria, é pequena e o governo, uma ditadura secular, usa com muita cautela qualquer discurso religioso. Prefere insuflar o espírito nacionalista. O Hizbolá o interessa porque mantém pressão indireta sobre Israel. Em outras palavras, a ligação Hizbolá-Síria é mais frágil do que a Hizbolá-Irã.

Já há em Israel quem defenda uma negociação com a Síria. Em troca de a Síria abrir mão de Golan, Israel não se opõe a uma tomada do Líbano. Melhor do que ter no vizinho um representante do Irã.

Hoje, é um cenário improvável.

Que Hizbolá seria esse no comando do Líbano? Um Hizbolá mais sírio ou mais iraniano? Para os países árabes, Egito, Arábia Saudita e outros tantos, a conversa com os sírios é amena; com o Irã, tensa. Um Irã potencialmente nuclear com o Líbano e boa parte do Iraque sob sua área de influência é ver surgir uma nova potência no Oriente Médio. Um cenário talvez bizarro que poderia fazer do mundo árabe e Israel curiosíssimos parceiros.

A ‘nova era’ prometida por Nasrallah não é apenas libanesa. Algo de muito diferente pode surgir nos próximos meses.

A única coisa certa: o Líbano segue sendo um peão no jogo de outros.

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