Pedro Doria | Weblog

um pouco do mundo, todos os dias

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Publicado em April 2008

Uma estante às quintas

24/April/2008 · 24 Comentários

Manuscritos Budistas Tibetanos

Tags: Estantes

Os filmes que aprendi com minha mãe

23/April/2008 · 24 Comentários

Os imperdoáveis

Tags: Cinema

Aye! Aye! Shakespeare aos 444 anos

23/April/2008 · 45 Comentários

Ninguém sabe ao certo em que dia goode & ol’ Will Shakespeare nasceu, mas certo é que foi batizado no 26 de abril em 1564 e morreu que morreu a 23 de abril, 1616. Ficou registrado por alguns que morreu no dia do aniversário, então a tradição se firmou.

Há 444 anos, pois.

Diz David Rosenberg, colunista de um pequeno jornal norte-americano:

O público que vai ao teatro hoje só pensa em si. Como mais poderíamos explicar o fato de que aplaudem de pé qualquer coisa que vejam? Há também aqueles que dão risinhos e fazem sons às menções mais sutis de sexo? Some a isto os celulares que não param, os barulhos de papel de bala, uns tantos enviando mensagens de texto e até mesmo desatenção. Às vezes dá vontade de nunca mais entrar no teatro.

Mas, sejamos justos. O público nos tempos de Shakespeare não era muito melhor. Em geral, era pior. Os milhares de elizabetanos que pagavam um penny (o preço de uma bisnaga) para assistir de pé às peças em frente ao palco eram chamados de ‘groundlings’ e, certa vez, o próprio Shakespeare os descreveu como ‘uma gente capaz das piores coisas, em seus shows de demência e barulho’.

Gente que batia carteiras e prostitutas faziam seu trabalho nesse espaço enquanto os nobres e suas mulheres ocupavam cadeiras no entorno ou mesmo no próprio palco. Mercadores vendiam cerveja, maçãs e frutas secas e a comilança produzia uma cacofonia que os atores tinham que vencer para serem entendidos. Eles tinham que lidar também com o fato de que o público deixava muito claro quando não gostava de algo.

Mas havia um certo orgulho de ouvir sua língua inglesa no teatro, mesmo entre aqueles que não sabiam ler. Adoravam o teatro. Lá, aprendiam sua história, alimentavam suas esperanças e esqueciam das tristezas. Mal-educados, de fato, críticos, e no entanto foram unidos por poesia de primeira. Seu teatro era sua cultura.

Às vezes, encarando alguma má tradução ou o inglês hoje um tanto pomposo, Shakespeare parece impenetrável. Mas há um motivo que faz dele, ainda, o maior escritor de todos os tempos. É que estamos todos em suas histórias.

Imagine um rapaz ainda jovem que perde um pai e, na volta para casa, o cadáver ainda quente, tem de lidar com o repentino novo casamento da mãe.

Ou então um casal adolescente, ele 16 e ela 13, na lida com seu primeiro amor – um amor que, como cabe à idade, parece a sensação mais intensa e visceral que jamais houve ou jamais haverá. Uma emoção que eles próprios não sabem controlar.

Destaque daí um sujeito que, tendo perdido a mulher, decide dedicar toda sua vida à única filha na esperança de poupá-la de todo o sofrimento. O isolamento é controlável enquanto ela é criança. Mas basta que fique mocinha, agora o sujeito já velho, e ele percebe o controle escorrer por entre seus dedos.

O jogo de emoções em momentos extremos está ali, assim, no Hamlet, em Romeu e Julieta ou na Tempestade. Mas apresentar gente assim tão gente apenas faria de Shakespeare um grande entre grandes – mas não o maior. Porque não somos apenas pessoas lidando com nossas relações e emoções. Somos também bichos políticos.

O pai de Hamlet, afinal, não era apenas um pai – mas também um rei. E enquanto ele enlouquece lentamente buscando amadurecer enquanto há tempo, buscando compreender enquanto sofre, as intrigas da disputa pelo poder transcorrem ao seu redor.

Romeu e Julieta tampouco lidam apenas com seu amor adolescente e intenso. Lidam com ele e com um mundo insuportavelmente concreto a volta, um ambiente de guerra civil no qual a cidade está rachada por um ódio há muito estabelecido entre duas facções, um ódio destrutivo, irracional que terminará por levá-los à própria destruição. (Pensem em Israel e Palestina.)

É só ouvir Marco Antonio discursando pelo cadáver esfaqueado de César, lentamente manipulando as emoções da turba à frente do Senado, para compreender o político demagogo em ação. Ou ouvir Henrique 5º perante seus soldados no dia de São Crispim para lembrar daqueles momentos em que um líder político de fato consegue inspirar a turba a produzir seu melhor.

A paranóia insegura de Otelo, queiramos ou não, está um pouco em todos nós. Como a vontade de superproteger os filhos de Próspero. Lidamos com um mundo no qual há Veronas espalhadas. Há Ricardos 3os no poder de nações e Marcos Antonios querendo chegar lá.

Há 444 anos nasceu o homem que escreveu tudo que havia para escrever sobre nós. Não mudamos rigorosamente nada desde então.

data gentilmente lembrada pelo Ao Mirante, Nelson!

Tags: Artes · História · Mundo

Open thread, de índio, Tiradentes, seu Cabral
e de São Jorge, mais seu cavalo e o dragão

23/April/2008 · 244 Comentários

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Tags: Open thread

Uma noite excepcional para Hillary Clinton

23/April/2008 · 76 Comentários

Com 98% dos votos contados na Pensilvânia, Hillary Clinton vence Barack Obama por 55 contra 45% dos votos. Seus eleitores foram para as ruas e votaram. Ainda é cedo para dizer se é reação aos comentários de que são ‘amargurados’, feito por Obama. Mas é capaz.

Com uma diferença de 10%, trata-se de uma vitória fantástica.

Na prática, quer dizer 16 delegados a mais. Não é muito. A princípio, não há por que achar que Obama perderá as próximas primárias grandes, em Indiana e na Carolina do Norte, ambas no dia 3 de maio.

Obama terá maioria dos delegados eleitos e disputará com Hillary o voto dos superdelegados, membros do partido que votam em quem quiserem. É por conta destes que sua vitória por boa margem, na Pensilvânia, faz diferença. Ela, assim, mostra que tem a simpatia do eleitor branco de classe média baixa, que tende a ser mais conservador, e que corresponde a um dos grupos de indecisos mais importantes na disputa presidencial. Se Hillary convence os superdelegados de que ela consegue tirar estes votos de John McCain e que Obama não consegue, o improvável pode acontecer e Hillary, no fim, vencer Obama.

Uma vitória fantástica, pois.

Não quer dizer que o desafio seja pequeno. Para ser candidata, do jeito que as coisas andam, Hillary precisará de aproximadamente 70% dos votos dos superdelegados. É um bocado difícil.

Tags: EUA

#terremotosp: eu sobrevivi!

22/April/2008 · 81 Comentários

Camisetas e mais camisetas.

via Interney

Tags: Brasil

Os filmes que aprendi com minha mãe

22/April/2008 · 46 Comentários

O poderoso chefão

Tags: Cinema

O corpo humano visível

22/April/2008 · 15 Comentários

O atlas de anatomia de David Bassett, composto na década de 60 do século passado, é talvez o melhor jamais feito. Bassett era um especialista em dissecação e, ao longo da carreira, fez milhares de fotos, muitas delas estereoscópicas, que podiam ser vistas com os visores View Master, populares entre crianças num tempo anterior à revolução digital.

A Escola de Medicina da Universidade de Stanford vai levar à Internet este material – e o New York Times publicou uma amostra. As fotografias talvez incomodem alguns dos mais sensíveis. Para outros, são fascinantes.

Tags: Ciências

O que esperar das primárias da
Pensilvânia entre Hillary e Obama

22/April/2008 · 26 Comentários

Depois de muitas semanas, cá está de volta a corrida pela candidatura democrata à presidência dos EUA. Faltam dez competições, incluindo a de hoje, na Pensilvânia. Importantes, mesmo, são os 158 delegados em disputa hoje e os 187 dos estados de Indiana e Carolina do Norte, que estarão em jogo no próximo dia 6, uma terça-feira daqui a duas semanas. O resto são concursos menores.

Ninguém espera uma vitória de Barack Obama, hoje. Ninguém achava que ele venceria bem mais de um mês atrás, quando em 11 de março ele ganhou no Mississippi a última primária realizada. A questão, hoje, é qual será o tamanho da diferença entre ele e Hillary.

Há um mês e meio, Hillary Clinton tinha uma vantagem de aproximadamente 15 pontos percentuais. A pesquisa mais recente do American Research Group sugere que ela abrirá uma distância de 13 pontos. Se isto se confirmar, será uma belíssima vitória. Survey USA, Mason-Dixon e Public Policy Polling sugerem que a diferença entre ambos os candidatos se dará entre 3 e 6%. Se terminar assim, não haverá analista que não interprete o resultado como uma derrota tremenda para Hillary. A maioria dos institutos, no entanto, aposta numa diferença nos arredores dos 10%.

Indiana e Carolina do Norte são estados nos quais Obama deve vencer.

Ele esteve sob um tiroteio pesado neste período entre Mississippi e Pensilvânia. Primeiro vazaram vídeos de seu pastor, Jeremiah Wright, no púlpito. ‘God damn America’, Que Deus condene a América, ele gritou. ‘As galinhas criadas pelos EUA voltaram para ciscar em casa’, disse a respeito da al-Qaeda. Muitas vezes, soava profundamente racista contra brancos. Tudo parecia que pegaria muito mal para Obama e, no entanto, o candidato se pôs perante as câmeras para fazer seu agora histórico discurso de 40 minutos sobre o conflito entre raças nos EUA. Um discurso longo que, no entanto, esteve por semanas entre os mais vistos no YouTube. Obama evitou a hipocrisia e falou de forma incrivelmente franca. Virou a mesa reconhecendo que racistas, entre negros e brancos, são quase todos, principalmente os mais velhos.

Da segunda controvérsia ele não se livrou. Falando para um público de financiadores endinheirados do Partido Democrata, na Califórnia, Obama disse que o conservadorismo do americano típico das regiões industriais empobrecidas pela globalização tem a ver com a amargura pela dureza da vida. Daí que se aferram a temas como a manutenção da legalidade das armas. Chamar seu eleitor de amargo ou de mal com a vida não é coisa que se recomende.

Hillary, por sua conta, teve momentos ruins – mas não tão ruins. Durante a campanha, algumas vezes citou a vez em que, primeira-dama, pousou na Bósnia sob tiroteio – neste caso, é litoral, conflito armado. O objetivo era mostrar-se preparada para o difícil cargo de presidente dos EUA. Quando as imagens da visita fatídica apareceram, ela toda sorridente, ficou evidente que, além de não ter havido qualquer tiro, a visita era protocolar e sem quaisquer riscos. Ser pego mentindo também não é coisa boa para candidato a presidência. Virou piada. Esta eleição norte-americana tem um termo novo que os candidatos – todos eles – têm usado. Hillary ‘misspoke’, dizem seus assessores. Falou errado, se atrapalhou, se confundiu. É impossível traduzir ao pé da letra. É o eufemismo da moda para mentira.

O único debate desta rodada entre ambos, na semana passada, foi um dos piores para Barack Obama desde o início da corrida presidencial. Ele estava na defensiva e os moderadores mantiveram o cerco a ele por quase todo o programa. É uma mudança e tanto – era Hillary quem costumava estar na berlinda nestes encontros.

Foram semanas duras para Obama, pois. E, hoje, vai ficar claro o que elas representaram.

Há um motivo para tantas pesquisas darem resultados tão diversos. Numa eleição em que o voto não é obrigatório, os estatísticos têm que medir mais do que a intenção de voto. Medem, também, a percepção que o povo tem de como vai a campanha. Alguém pode querer votar em Hillary e, no entanto, convicto de uma derrota, preferir ficar em casa. Como cada instituto avalia de formas diferentes quem votará de fato e quem não se dará ao trabalho, os resultados saem díspares.

Por maior que tenha sido o tiroteio verbal entre Hillary e Obama, nas últimas semanas não houve eleitores trocando de candidato. O número de indecisos também nunca foi muito grande. (E, se as últimas primárias servirem de regra, Hillary deve ganhar entre os poucos indecisos.) Os eleitores de Obama, em geral mais jovens e mais militantes, devem sair para votar. A questão é: os eleitores de Hillary, hoje, vão às urnas ou não? Ela conseguiu motivar a base ou não?

Se a diferença entre ambos terminar ali pelos 5% na Pensilvânia, as possibilidades de Hillary vencer a disputa final, que já é remota, despencarão. Se, por outro lado, ela terminar com mais do que 10%, aí ganhará um fôlego surpreendente. Pode não ser suficiente para uma vitória de Hillary, mas não traz bons agouros para Obama. E se ficar entre 5 e 10%? Neste caso, ambas as campanhas sairão em campo tentando convencer imprensa e eleitores de que se deram melhor do que o adversário.

No fim das contas, o desgaste da briga entre Hillary e Obama já teve pelo menos um resultado concreto. Nas pesquisas nacionais, ambos aparecem empatados na disputa contra John McCain. Há uns meses, venciam com razoável folga. A eleição de 2008 poderá terminar mais difícil para os democratas do que a maioria dos analistas previa em janeiro.

Tags: EUA

Open thread

22/April/2008 · 290 Comentários

En su grave rincón, los jugadores
rigen las lentas piezas. El tablero
los demora hasta el alba en su severo
ámbito en que se odian dos colores.

Tags: Open thread

Os filmes que aprendi com minha mãe

21/April/2008 · 65 Comentários

Deus e o diabo na terra do Sol

Tags: Cinema

Fernando Lugo no Paraguai e em Itaipú

21/April/2008 · 226 Comentários

Fernando Lugo, da Aliança Patriótica para a Mudança, se elegeu o novo presidente do Paraguai ontem à noite. É uma mudança histórica – o Partido Colorado estava no poder desde 1947. Lugo, que é bispo licenciado, ligado à Teologia da Libertação, é mais um a se juntar na onda de presidentes de esquerda latino-americanos.

A questão, agora, é: que tipo de presidente de esquerda será Lugo? Do tipo Chávez ou do tipo Lula? Tipo Morales ou tipo Bachelet?

No centro da questão, evidentemente, está a usina hidrelétrica de Itaipú.

Itaipú é responsável por 95% da energia elétrica consumida no Paraguai e 24%, no Brasil. O Paraguai consome apenas 15% da parte que lhe cabe. E aí entra a polêmica: o Paraguai revende esta eletricidade para o Brasil. O preço, negociado por acordo dos anos 1970, é consideravelmente abaixo do preço de mercado. O argumento brasileiro é que o preço baixo é justo porque, afinal, o Brasil pagou por quase toda a represa. (Há um acordo semelhante, na represa de Yaciterá, com a Argentina.)

Lugo fez campanha dizendo que quer renegociar.

Isto não faz dele um novo Morales por um motivo muito simples. As refinarias de gás da Petrobras que Morales invadiu ficam em território boliviano. Lugo não pode invadir Itaipú porque metade de sua casa de máquinas fica em território brasileiro. Tampouco pode desligar meia usina. E, mesmo que pudesse, desligaria a luz de seu país inteiro.

Ligado à Teologia da Libertação, tem laços de amizade com os principais nomes da esquerda católica brasileira. Celebrou sua vitória rezando com Frei Betto, confessor de Lula, a seu lado. Por afinidades pessoais, está mais próximo de brasileiros do que de venezuelanos.(Ele próprio diz que será um meio termo entre Lula e Chávez, seja lá o que isso quer dizer.)

Mas que ninguém tenha dúvidas: haverá pressão. E pode haver confusão.

Há um motivo para o Brasil estar sendo pressionado por seus vizinhos seja com suspensão de acordos comerciais (Argentina), com ameaça de nacionalização de propriedades do governo brasileiro (Bolívia) ou com bravatas de todo tipo (Venezuela). O problema é que o Brasil está crescendo economicamente e, do ponto de vista estratégico, está bem posicionado para crescer mais no futuro. Na América do Sul, nenhum país tem melhores perspectivas do que o Brasil. Como qualquer poder regional, há pressão dos vizinhos. Querem mais.

Existem muitas escolas de como potências lidam com sua área de influência. Dada a falta de tradição militarista brasileira, à chinesa e à russa é que não será. Resta, portanto, negociar. Tratar com uns agrados. Um dinheiro a mais para Lugo garante sua popularidade entre os paraguaios e gratidão.

Tal gratidão tem uso: é preciso expandir Itaipú. Isso, só com boa vontade paraguaia.

Tags: América Latina · Brasil

Uma moça às segundas

21/April/2008 · 15 Comentários

Lisa

Tags: Moças

Os filmes que aprendi com minha mãe

20/April/2008 · 2 Comentários

Sinfonia em Paris

Tags: Cinema

Eduardo Viveiros de Castro e o que há
com os índios da Raposa Serra do Sol

20/April/2008 · 65 Comentários

Eduardo Viveiros de Castro é talvez quem mais entenda de índio no Brasil. Antropólogo, professor em Paris e no Rio de Janeiro, conhece a terra ali no norte do Brasil, e cada tribo, como ninguém. Ele foi entrevistado por Flávio Pinheiro e Laura Greenhalgh para o Estadão de hoje.

Existe risco para a soberania nacional na reserva Raposa Serra do Sol, como crê o general?

Existe, sim, uma questão de soberania do governo ao ser contestado publicamente por um membro das Forças Armadas. O general polemiza com uma decisão que, como todo mundo diz, não se discute, apenas se executa. A argumentação de que a reserva indígena represente um problema de soberania está mal colocada.

Por quê?

Há outras reservas em terras contínuas, em fronteiras. É o caso da Cabeça de Cachorro, no município de São Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas. E o Exército está lá, como deveria estar. A área indígena não teria como impedir a presença dos militares. O que a área indígena não permite é a exploração das terras por produtores não-índios. Dizer que o Exército não pode atuar é um sofisma alimentado por políticos e fazendeiros que agem de comum acordo, numa coalizão de interesses típica da região. Roraima é um Estado que não se mantém sozinho, ou melhor, que depende do repasse de recursos federais. Um lugar onde 90% dos políticos nem sequer são nativos. Onde o maior arrozeiro, que está à frente do movimento contra a reserva, arvora-se em defensor da região, mas veio de fora. É um gaúcho que desembarcou por lá em 1978, e não há nada de mal nisso, mas combate os índios que justamente servem de “muralha dos sertões”, desde os tempos da colônia. Os índios foram decisivos para que o Brasil ganhasse essa área, numa disputa que houve no passado com a Guiana, portanto, com a Inglaterra. Dizer que viraram ameaça significa, no mínimo, cometer uma injustiça histórica. Até o mito do Macunaíma, que foi recolhido por um alemão, Koch-Grünberg, e transformado por um paulista, Mário de Andrade, foi contado por índios daquela área, os macuxis, os wapixanas. Eles são co-autores da ideologia nacional. [...]

Esse conflito na Raposa tem por volta de 30 anos. Em 2005, quando o presidente Lula homologou as terras, selou-se o compromisso de retirar, no prazo de um ano, os produtores rurais que estavam dentro da área reservada. Parecia que todo mundo ficara de acordo. Por que a situação se deteriorou?

Há o jogo político. Disseminam-se inverdades, como a de que a área da reserva ocupa 46% de Roraima, quando apenas ocupa 7%. As terras indígenas de Roraima, somadas, dão algo como 43% do Estado. Mas a Raposa tem 7%.

Ou, 1,7 milhão de hectares.

O que não é um absurdo. As terras de índios são 43% ao todo, porém, até 30, 40 anos atrás, eram 100%. E o que acontece hoje com os 57% que não são terras de índios? São ocupados por uma população muito pequena, algo em torno de 1 milhão de pessoas. O que é isso? É latifúndio. Sabe quantos são os arrozeiros que exploram terras da reserva? Seis. Não há dúvida de que o que se quer são poucos brancos, com muita terra. Outra inverdade: as terras da reserva são dos índios. Não são. Eles não têm a propriedade, mas o usufruto. Porque as terras são da União. E a União tem o dever constitucional de zelar por elas. Já os arrozeiros querem a propriedade. As notícias que temos são as de que, desde a homologação, produtores rurais que estão fora da lei já atacaram quatro comunidades indígenas, incendiaram 34 casas, arrebentaram postos de saúde, espancaram e balearam índios.

Sua entrevista é um mapa para quem quer entender o que está acontecendo na Reserva Raposa Serra do Sol.

Tags: Brasil

Os filmes que aprendi com minha mãe

19/April/2008 · 9 Comentários

Don’t look back

Tags: Cinema · Música

Uma entrevista aos sábados

19/April/2008 · 23 Comentários

Criamos uma companhia chamada Aracruz Florestal, de plantio de eucalipto. Porque a primeira idéia era a de exportar tipos, como, aliás, muita gente faz hoje em vários países, inclusive o próprio Brasil. Mas aí se decidiu fazer celulose. Então, foi fundada a Aracruz Celulose, que é o que você conhece hoje. Durante esse período em que eu estava na Vale do Rio Doce, nós começamos a fazer parques florestais. Mais tarde, ainda no tempo em que estava na Vale do Rio Doce, compramos a floresta de Linhares, que era uma floresta nativa, na época em que o estado do Espírito Santo estava sendo devastado. Nós compramos aquilo para preservar. A desculpa para a diretoria da Vale aceitar a aquisição foi a que se tratava de uma fazenda de dormentes. Era a única maneira de aceitarem um investimento como aquele em uma época na qual todos estavam queimando floresta para fazer pasto. Aliás, como até hoje fazem na Amazônia. Isso em 1954, 55, 56, por aí. A reserva foi comprada, não se tirou nenhum pau para fazer dormentes. Foram criadas lá pesquisas, além de um herbário para estudar as madeiras locais. Infelizmente muita pesquisa só atingiu o problema do uso mercante da madeira e não para usos da farmacologia, indústrias químicas e outras utilidades.

Em 1991, o sr. Stephan Schmidheiny [fundador da Avina] foi convidado pelo presidente da Conferência do Rio, sr. Maurice Strong, para fazer a Rio-92. Ele então veio para o Brasil, visitou a Aracruz, que também trabalhava com esta linha e já tinha essa preocupação de juntar floresta nativa com espécies exóticas. Isso porque a floresta nativa abriga animais e plantas, e a interação entre fauna e flora é extremamente importante. Curiosamente, a introdução de sementes exóticas pode prejudicar alguns setores, mas também pode beneficiar muitos outros. Você não vai plantar eucalipto em uma nascente. Em compensação há plantas exóticas cujo período de dormência no inverno lá fora corresponde ao período de seca aqui, portanto ela não suga água no período da seca. Então beneficia a nascente. Durante a visita, o sr. Schmidheiny foi à Aracruz e a Carajás. Ele notou que estávamos trabalhando bem, isso está no livro ‘Sustentabilidade’. Ele diz lá que nós já praticávamos essa combinação dos lados ambiental, econômico e social simultaneamente. (lê trecho do livro) ‘Eliezer Batista, na época diretor da Rio Doce Internacional, defendia o desenvolvimento sustentável antes da conferência do Rio e permanece como um de seus defensores desde então’. E viu isso realizado lá em Carajás. Aí ele teorizou toda a noção do desenvolvimento sustentável, que não é nada mais do que isso. Foi daí que saiu a Conferência da Rio-92, mas pouca gente sabe que se originou dessa maneira.

Hoje, a única coisa imediata que você tem para mitigar os efeitos do clima é o plantio de árvores. Não há mais nada de efeito imediato. Será preciso usar energias alternativas, mas tudo isso vai demorar muito tempo. Para efeito imediato, o que existe é recuperar. Não há água sem florestas. E sem água não tem vida. A floresta é uma maneira de recuperar os recursos hídricos e, portanto, recuperar a vida, recuperar o ambiente. Esse é um dos primeiros passos, coisa que estamos tentando fazer em Minas Gerais agora.

Eliezer Batista

Tags: Brasil · Energia e Aquecimento global · Gente

Open thread de sábado

19/April/2008 · 238 Comentários

Andorinha lá fora está dizendo:
— ‘Passei o dia à toa, à toa!’

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .

Tags: Open thread

Os filmes que aprendi com minha mãe

18/April/2008 · 19 Comentários

O último tango em Paris

Tags: Cinema

Com a palavra, o juiz blogueiro

18/April/2008 · 19 Comentários

Venho fazendo críticas à Justiça brasileira e sua falta de compreensão da Internet. Nada mais justo, portanto, que dar palavra a um juiz. No caso, mais que isso: Jorge Alberto Araújo é juiz e blogueiro:

Apenas para se dar um exemplo a Associação dos Magistrados do Brasil – AMB e a Escola Nacional da Magistratura - ENM, em convênio com a Fundação Getúlio Vargas, promoveram um curso de atualização em Informática para juízes a ela vinculados.

O conteúdo do curso envolveu desde noções básicas sobre a Internet até questões bem pertinentes aos recentes debates na rede acerca de privacidade, colaboração on line e responsabilização dos provedores de conteúdo.

Foram dados elementos suficientes para que os juízes presentes pudessem refletir acerca dos prós e contras da disponibilização de espaços para a publicação livre de conteúdos em páginas como Blogger, WordPress.com, Flickr e YouTube, dando-se como exemplos situações atuais como os protestos em Myanmar, China, Tibet, em contraposição a situações de exposição pública como o caso Cicarelli que, redundou no bloqueio do servidor do YouTube para todo o país, em uma atitude que repercutiu de forma extremamente negativa internacionalmente, colocando o Brasil ao lado de países autoritários como a China, no que diz respeito ao bloqueio de sítios de Internet.

Nada obstante se debateu, por igual, a responsabilidade objetiva (independente de culpa) de empresas que disponibilizam o acesso gratuito ou pago à Internet pelos atos de seus usuários sem os identificar previamente – as lan houses – estabelecendo-se que se devem criar meios para rastrear e identificar os maus usuários, de forma a permitir a sua punição no caso de práticas ilícitas, sob pena de se perseguir os próprios provedores negligentes nesta atividade, como por exemplo o que já teria ocorrido com a empresa Terra, em um episódio no qual uma pessoa cadastrou um telefone de uma desafeto em um serviço de classificados, identificando-a como prostituta, o que teria gerado ao provedor uma ação em que fora condenada, isso sem que se impossibilitasse identificar o verdadeiro culpado para lhe pleitear o ressarcimento também em juízo.

Não apenas se pode, mas se deve exigir do Poder Judiciário uma maior aproximação com as novas realidades. Todavia não se pode admitir que as grandes empresas de informação se abstenham integralmente de sua responsabilidade no que diz respeito à utilização de seus espaços para a prática de crimes. É importante que os juízes atuem com bom senso no que diz respeito, principalmente ao bloqueio geral do acesso à Internet, mas, por igual, é necessário que as empresas que disponibilizam tais serviços desempenhem seu papel com responsabilidade, dispondo-se a colaborar com o Poder Público na prevenção e punição dos ilícitos praticados através dos meios que colocam à disposição dos usuários.

No blog Direito e Trabalho, Jorge Alberto discute várias questões que têm a ver com a Justiça brasileira, pondera e busca contato com seus leitores. Ele é antenado, conhece o mundo, está no Twitter. É também uma boa fonte de informação.

Tags: Brasil