Não senti raiva por estar morrendo Raiva de quê? Raiva tem que ter um alvo. Sentiria raiva de mim mesmo? De um poder superior que decidiu que minha vida se acabava ali? E, mesmo que este poder existisse, que efeito teria minha raiva? Não senti raiva. Morrer, acabar, sentir raiva para quê? Em que acredita uma pessoa que sente raiva? Acredita que tem o direito de continuar vivendo? Talvez eu tenha sentido raiva. Admito isso. Mas o que me impressiona é a inutilidade da raiva nessas circunstâncias.
Não senti resignação. É mais como uma aceitação. São dois movimentos distintos. Você aceita porque não tem saída. A resignação é aceitação mas também uma desistência. Não pode haver desistência na aceitação.
Depois, de certa forma, foi uma ressurreição. Isso é o despertar de um corpo dormido e este corpo é seu. Os médicos estão fazendo seu trabalho e o seu é de ajudar a seu corpo neste processo que pode ser chamado de ressurreição. Mas prefiro chamar de regresso, que é menos dramático e mais claro. Está regressando a si mesmo. Fui reduzido a alguém que estava ali e que não tinha ânimo, força ou gana para escrever. A única parte do corpo que não sofreu perda, acho, foi o cérebro, que se mostrou extraordinariamente ativo, não posso explicar. Nunca caí na sonolência. Sempre estive muito desperto, com capacidade de observação e comentário. Fiz até piada!







34 Comentários até agora ↓
1 aiaiai // 26/April/2008 às 6:42
Um sábado dedicado a escritores portugueses…ambos dramáticos, cada um a seu jeito.
Adoro os dois.
2 josef mario // 26/April/2008 às 7:21
Companheiros de esquerda, maoístas e bolivarianos
Eu, josef mario, devo dizer que o companheiro jose saramago, sem dúvida alguma, não é somente o maior escritor de todos os tempos. É, também, um intelectual de esquerda combativo, participante e brilhante, um cidadão do mundo e, se não bastasse, é meu amigo particular há muitas décadas. A última vez que estivemos juntos foi em paris, há pouco mais de 2 anos, quando conversamos longamente e, como sempre, sobre o futuro da esquerda no mundo. Interessante dizer que, apesar de nossas idades avantajadas, nossas conversas são sempre voltadas para frente e para o amanhã. O passado e o ontem, para nós, só contarão depois que, como diria o companheiro nelson cavaquinho, “nos chamarmos saudade”. Naquela ocasião, o companheiro saramago mostrava-se, não inseguro, porque isto é coisa de viado, mas diria, curioso, com o resultado do que seria a adaptação do seu livro “ensaio sobre a cegueira” para o cinema. O companheiro fernando meirelles, lhe garanti eu, josef mario, sem qualquer dúvida, fará um filme à altura do texto inigualável do companheiro saramago.
Muito obrigado
3 aiaiai // 26/April/2008 às 7:55
Companheiro Josef,
Que história é essa de que estavas ontem no Jô??? Para mim, só o fato de sentar naquela poltrona já é uma atitude de viado…não acredito que você cometeu tal prática! aiaiai
4 josef mario // 26/April/2008 às 8:05
Companheira aiaiai
Eu, josef mario, devo dizer que não tenho a menor idéia do que se trata. Com certeza é mais um delírio de algum destes idiotas que vivem a me confundir com o 1º imbecil que lhes vem à cabeça.
Muito obrigado
5 Quasimodo. // 26/April/2008 às 8:14
Em homenagem ao JOSEF MARIO, fechando a trilogia lusa.
Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal?
Ou
Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida.
Estou farto de semi-deuses.
6 Jesus era comunista // 26/April/2008 às 8:33
Muito legal o texto.
A visão da morte.
O comportamento reflete a cultura humana, principalmente a ocidental.
A morte por pior que pareça é inevitável, logo natural.
7 confetti // 26/April/2008 às 9:09
josé saramago, o homem da virgula !!
quando ganhou o nobel em 1998 disse ” é como ganhar a coroa de miss portugal” ! um dominio da palavra que da nojo, o cara é alter mondialista, assinou o “manifesto de porto alegre”…. tem minha admiraçao incondicional ! ))
8 confetti // 26/April/2008 às 9:10
total e irrestrita ! kk
9 confetti // 26/April/2008 às 9:24
tenho preguiça de ler em espanhol, lingua que entendo mas nao falo….vou esperar alguém traduzir a entrevista….))
enquanto isso, recomendo pra quem nao leu ” ensaio sobre a cegueira”…uma cidade, depois um pais, onde todos ficam cegos, menos 1 pessoa….alegoria maléfica de nosso tempo
ah, se falarem em seu anti semitismo é inveja ! ))
10 Prøftël // 26/April/2008 às 9:49
Bom, o Pedro Doria colocou português na entrevista e no Open, provavelmente amanhã (ou hoje) traçará um belo Bacalhau, se bobear uma portuguesa também.
hehe.
Saio com Fernando Pessoa:
Navegar é preciso, viver não é preciso…
E com a música de Chico Buarque na cabeça.
Aos puristas: “”Navigare necesse; vivere non est necesse” - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu”
Tenho muito a navegar no site do Bolsa Escola, uma pilha enorme de relatórios pra cadastrar. Vou nessa.
Bom fim-de-semana prôceis.
11 Dom Casmurro Patriarca // 26/April/2008 às 9:50
Na onda do Quasímodo, vou fazer uma trovinha.
Português é bicho danado
Sabe das coisas como ninguém
Desfia um rosário de penas,
Tem sede de ter sede também.
12 Dom Casmurro Patriarca // 26/April/2008 às 9:59
Para mim, melhor que o Saramago, quem melhor representa a “Alma de Portugal” é esta canção.
Foi Deus
Não sei, não sabe ninguém
Por que canto fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto
E neste tormento
Todo sofrimento
Que eu sinto na alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto
Foi Deus, que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas
Deu ouro ao Sol
E prata ao luar
Foi Deus que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
Que pôs estrelas no Céu
E fez o espaço sem fim
Deu luto às andorinhas
Ai deu-me esta voz a mim
Se canto, não sei o que canto
Misto de ternura
Saudade, ventura
E talvez de amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor
Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E pôs o azul nas ondas do mar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
Pôs no campo o alecrim
Deu flores à primavera
Ai deu-me esta voz a mim.
13 Dom Casmurro Patriarca // 26/April/2008 às 10:29
Essa então, só português faria:
Sede
Há muito que tenho sede
Sede que me faz gritar
A esmola da gota d’água
Que ninguém tem p’ra me dar
Há em mim sede de Agosto
Da água que não correu,
das flores que secam nos vales
Sede que a sede me deu
Tenho a sede das searas
E das crianças sem mãe
Tenho sede (tanta sede)
Da água que nunca vem
Eu tenho as sedes das fontes
Que correm para ninguém
Tenho sede de outras sedes
Da sede que a sede tem.
14 Cristiano, direto do Arpex // 26/April/2008 às 13:22
Josef, francamente, és uma farsa.
Tudo bem que tenha preguiça de compreender Glauber, mas jogar pelada com o Chico Buarque e confiar no publicitário encinerasta Fernando Meireles para adaptar a cegueira é, no mínimo, babaca. Saramago, vai sentir raiva quando assistir “blindness”. Morrer de raiva.
Quanto ao Josef ontem no Jô Soares, era mesmo ele. Sem a capa bolivariana e a Pampers geriátrica vermelha made in China, popularmente conhecido como a domadora de chazinhos Nélida Piñon.
15 Cristiano, direto do Arpex // 26/April/2008 às 13:26
Bom sábado, colegas..
Vou dar um tchibum da Pedra do Arpoador e já volto.
16 H.Romeu Pinto Reloaded // 26/April/2008 às 13:42
saramago….se aproxima tanto do homem bom que a admiração que tenho por ele chega a me perturbar……
Esses nossos tempos nos tiram a capacidade de ter idolos…..fica-se sempre na expectativa dele “pisar na bola”…..
Para alguns é melhor “não ter ídolos”…..é sempre mais conveniente……nesses nossos tempos de falso moralismo…..
17 \o/ Hey Ho, Lets Go \o/ // 26/April/2008 às 14:18
Coisa mais linda!
18 Guilherme // 26/April/2008 às 16:18
Saramago é o maior escritor da língua portuguesa. E quem disser o contrário, não sabe o que diz.
19 Clara // 26/April/2008 às 16:41
Não sabia que tinha estado doente.
20 Mr X // 26/April/2008 às 17:06
Pois eu digo o contrário, existem muitos escritores portugueses bem melhores do que o Saramargo. Eça, Lobo Antunes, Pessoa, Camões, etc.
21 Guilherme // 26/April/2008 às 17:43
Não
22 mila // 26/April/2008 às 18:06
Josef Mario, meu camarada, invejo no bom sentido, a juventude eterna que vc e Saramago possuem. Miro-me no exemplo dos dois. Que bela vida, bem vivida e usufruída. Tenho pena daqueles que já nascem velhos de mente e coração. Pior aqueles que nascem velhacos.
23 Zé Bush // 26/April/2008 às 18:39
well….atualmente é o Saramago, sem dúvida. No mesmo nível de Eça ,Machado, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e tantos outros…
24 Brancaleone // 26/April/2008 às 19:11
Foi minha mãe que apresentou-me livros do Saramago. Antes eu torcia o nariz para os livros dele. Agora leio não tanto pelos temas e assuntos que ele aborda mas sim pela forma como escreve.
Depois que ele mandou o Fidel prá PQoP então, minha admiração aumentou e alem do mais ele é ateu…
25 H.Romeu Pinto Reloaded // 26/April/2008 às 21:07
Pois é …mamazinha querida dá um trato nesse facista!
26 Brancaleone // 26/April/2008 às 23:11
HRP:
Difícil. A mamazinha é pior que eu. Minha avó era integralista - até livro do Plínio Salgado autografado a gente tem até hoje - Já mamãe alem de excelente sanfoneira é catolicaça, direitérrima e não duvido nada que tenha participado de alguma “marcha com deus pela família”…
Já meu avô paterno era grileiraço, invasor de pinheirais no Paraná ( não à moda Stédile, mas do jeito que macho faz) Winchester 44 na mão e S&W 45 na cintura e uns pistoleiros do lado. Coisa feia de se ver mas para ele foi bem rendosa…
Como vê, minha genética é excelente ou horrível, dependendo de quem analisa…
27 Cristiano, direto do Arpex // 27/April/2008 às 1:00
Eu sou sobrinho bisneto do Corisco e ainda não arranquei nem uma tirinha de couro de um cabra.
Por enquanto só amolando a peixeira…
28 confetti // 27/April/2008 às 2:48
branca maria, familia interessante sem duvida…faltou falar daquele seu tio avo que fugiu pro paraguai nos 70….)))
29 confetti // 27/April/2008 às 3:03
um poema de saramago pra camoes, começa assim :
“meu amigo, meu espanto, meu convivio
quem pudera dizer-te estas grandeza
que eu nao falo do mar,e o céu é nada
se nos olhos me cabe
a terra basta onde o caminho para
na figura do corpo està a escala do mundo…”
bonito né….chamar uma pessoa de “amigo, meu espanto e meu convivio”….sonoridade inigualavel da lingua portuguesa….
30 confetti // 27/April/2008 às 3:04
lingua popular brasileira….)))
31 confetti // 27/April/2008 às 3:08
cristiano, seu arpex é maneiro, digo, seu e-squina…gosta do france24 ?
32 Dino 5,4 % // 27/April/2008 às 11:02
Ainda como estudante na URSS, minha ex-esposa, portuguesa, alfacinha me presenteou com um livro do Saramago, memorial do convento, a descrição dos percevejos pulando para cortar caminho para a cama real… Foi paixão a primeira lida, seguiu-se jangada de pedra e o evangelho segundo Jesus e ensaio sobre a cegueira. Fiquei surpreso de não ler aqui imbecilidades dos anti-tudo-que-venha-da-esquerda.
É, talvez eles tenham salvação…
33 Cristiano, direto do Arpex // 27/April/2008 às 13:30
Que bom que gostou, confetti, obrigado. A birosca da e-squina fica aberta 24 horas.
Fiz um freelances pro France24. Apareço também como editor da America latina no ‘Observateurs’ do site, mas não tenho mandado material. Complicações…
34 Cristiano, direto do Arpex // 27/April/2008 às 13:43
Aliás, como é percebido o Fr24 por aí?
Não é muito boa fama, né?
Leave a Comment