O mundo visto pelos leitores: Argentina

Argentina · Depoimentos · 24/04/2008 - 09h19 - 77 Comentários

Por Mr X

Faz uns bons seis meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a primeira vez que estou efetivamente morando aqui.

A visão estereotipada da capital argentina é o tango, churrasco, cemitério da Recoleta e feira de San Telmo. A cidade vai além: Buenos Aires é literária como poucas. Jorge Luis Borges localizou vários de seus contos na sua topografia e escreveu em um poema: A mi se me hace cuento que empezó Buenos Aires / La juzgo tan eterna cuanto el agua y el aire. Cortázar marcou o encontro dos personagens de ‘Los Premios’ no café London City, na esquina de Perú e Avenida de Mayo. Isaac Bahevis Singer visitou Buenos Aires e escreveu uma novela, ‘Escória’, que se passa em parte aqui. Não li o romance, não sei se o título foi inspirado na população local. O escritor vanguardista polonês Withold Gombrowicz morou aqui por trinta anos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset também visitou e escreveu, ficou famoso, ‘Argentinos, a las cosas!’. Recomendava menos sonhos e mais ação. Italo Calvino também visitou e talvez tenha encontrado inspiração aqui para escrever o ótimo conto ‘A formiga argentina’.

Mas a visita mais famosa é a relatada pelo escritor portenho Marcos Aguinis no seu ótimo livro ‘O atroz encanto de ser argentino. É a visita do prêmio Nobel Jacinto Benavente. Contam que a todo momento o dramaturgo espanhol era incomodado com perguntas sobre o que achava da Argentina e dos argentinos. Não lhe davam sossego um único momento. E ele, calado, preferia não se pronunciar. Até que, do barco que o levou de volta à Europa, ele finalmente respondeu: ‘Formem a única outra palavra que pode ser formada com as letras de argentino.’ O barco já estava longe quando a multidão se deu conta que a única outra palavra que podia ser formada era ‘ignorante’.

Com o real alto, o dólar baixo e o peso irrisório, há muitos brasileiros hoje vindo de visita a Buenos Aires: escuta-se o português em qualquer esquina ou café. Na verdade, às vezes até parece que nem saí do Brasil. Tem brasileiro até demais. Xô, xô.

Buenos Aires recentemente também está virando a capital latino-americana do turismo gay. O que é curioso, pois, assim como ocorre no Irã, não existem homossexuais na Argentina. O que existem são só ‘muchachos medio alegres’.

As mulheres argentinas, em contrapartida, são muito bonitas, e de tipos quase tão variados quanto as brasileiras.

Teoricamente, os personagens recentes mais famosos da Argentina são Gardel, Perón e Evita. Mas um estrangeiro que julgasse apenas pela quantidade de imagens vendidas nas bancas de jornais em cartazes, pôsteres e calendários, acharia que os personagens mais famosos da história argentina recente são Che Guevara e Homer Simpson.


A Avenida Rivadavia divide a cidade em duas metades. Ao Norte, os bairros chiques de Palermo, Recoleta, Belgrano. Ao Sul, os bairros vão empobrecendo: Balvanera, La Boca, Barracas… Pegue o ônibus 60 e atravesse a cidade, observando as mudanças desde Recoleta a Barracas, o progressivo aumento da sujeira e a mudança da arquitetura do art nouveau para os blocos quadradões típicos dos anos 70.

Além dos tradicionais bairros de Recoleta, Palermo e San Telmo (o mais antigo, onde estão as milongas e sempre há um casal de dançarinos de tango se exibindo em plena rua), há outros bairros bastante característicos em Buenos Aires. Um deles, que você não encontrará em nenhum cartão postal, é o bairro de Once, que foi um dia o tradicional bairro judeu. Você não o encontra em nenhum mapa. O Once não existe. Oficialmente, só existe Balvanera, e o Once é um seu pedaço. Mas poucos usam o termo Balvanera. Todos sabem o que é o Once.

O Once é um bairro, a princípio, feio. Um bairro de compras. Lojinhas disputam a tapa os clientes. Ainda hoje fica ali a mais antiga e bonita sinagoga da cidade, e é possível ver judeus ortodoxos caminhando pelas suas ruas. É claro que o Once mudou muito. Antigamente, dizia-se que as lojas de tecidos eram todas dos judeus, as mercerias dos armênios, os bazares dos árabes. Hoje muitos judeus se mudaram para Villa Crespo e Belgrano, os árabes para Parque Patricios e outros, ao passo em que chineses, coreanos e peruanos com suas lojas de 1,99 é que estão tomando conta do mercado local. Um filme que mostra bem o espírito do Once é o ótimo ‘El Abrazo Partido’, de Daniel Burman.

Outra coisa que mudou a cara do bairro para pior foi o atentado à AMIA em 1994, realizado pelo Hizballah e encoberto pelo governo Menem. A partir de então, feios muros de cimento foram erguidos em frente a quase todas as instituições judaicas.

Buenos Aires é uma cidade bonita, mas ultimamente algo descuidada. Tem as calçadas esburacadas. O estado degradante de suas calçadas é tão terrível que se tornou uma das maiores queixas da população. Buenos Aires é também uma das cidades em que vi mais pessoas com probemas ortopédicos caminhando pela rua. Talvez os dois fatos estejam relacionados.

Desde a crise de 2001, dois novos personagens tornaram-se parte integrante da fauna: os cartoneros e os piqueteros. Os cartoneros são os nossos conhecidos papeleiros, que fazem do lixo seu negócio. Dizem que ganham mais do que muito profissional formado, até porque tem muito profissional formado que não encontra emprego (embora a economia tenha melhorado muito desde 2001). Já os piqueteros são manifestantes profissionais, a soldo do governo, da oposição ou de sindicatos, de acordo com as condições políticas. Argentino gosta de protestar. Não há dia em que não haja algum protesto, passeata ou bloqueio de ruas em Buenos Aires, complicando ainda mais o trânsito. Nos últimos protestos, devidos ao absurdo aumento de impostos sobre os produtos agrícolas, viu-se a lamentável cena de piqueteiros governistas dando porrada nos manifestantes espontâneos da população geral.

O novo prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, que também é o presidente do Boca Júniors, prometeu acabar com os piquetes. Alegou a existência de uma lei que exigia que toda manifestação deveria ser autorizada com antecedência pelas autoridades. No dia seguinte saíram os piqueteros à rua, para protestar porque não podiam mais protestar sem autorização. Assim é a política na Argentina.

Um dos grandes mistérios do país é justamente a sua política. Como é que um povo que nos deu Borges, Sábato, Sarmiento, Martin Fierro, bem como os dois únicos prêmios Nobel em ciências exatas da América Latina, tem uma política tão feia, corrupta, insana, com personagens tão lúgubres como Perón, Evita, Menem, Duhalde, Kirchner? Uma política na qual o partido quase único é o Partido Peronista, dividido entre suas diversas influências – os kirchneristas, os duhaldistas, os peronistas de direita, os peronistas de esquerda etc. O mistério se esvanece só quando você se dá conta que a Argentina culta e bem-educada é uma ilusão, provavelmente circunscrita a Buenos Aires. Há muita ignorância e pobreza ao redor. A compra de votos é política corrente.

Perón é um dos maiores culpados pelos desastres da Argentina atual. Um êmulo de Mussolini que abrigou nazistas e, anos antes do Lulismo, juntou muito roubo de dinheiro público com programas sociais assistencialistas para a população carente. Instituiu a cultura do assistencialismo em oposição à cultura do trabalho. Herdou uma Argentina que estava entre os países com maior PIB do mundo e a arrastou para a lama do populismo barato. A Argentina nunca se industrializou no mesmo nível do Brasil, ficou para trás em quase todos os quesitos. Hoje empresas brasileiras compram grande parte das indústrias nacionais. O peronismo e sua herança maléfica, disse o escritor Ezequiel Martínez Estrada, duraria 100 anos. Ainda faltam algumas décadas.

Come-se bem em Buenos Aires, embora a culinária argentina seja um pouco limitada. Vegetarianos ou pessoas com colesterol alto ficam com pouca opção. 90% do que se come é carne a la parrilla. Os outros 10% são as empanadas, as tartas, os vários derivados da culinária espanhola e italiana, e alguns pratos típicos do norte argentino a base do milho ou o feijão, como a humita, o locro ou os tamales. (O norte argentino é bem diferente de Buenos Aires, é quase outro país).

Buenos Aires é uma cidade de livrarias e cafés. Recentemente uma de suas livrarias, El Ateneo Grand Splendid, na rua Sanfa Fé, foi classificada em uma reportagem do Guardian entre as cinco mais bonitas do mundo. Ficou em segundo lugar. Uma das melhores coisas a se fazer em Buenos Aires é passear pelas suas várias livrarias e depois sentar em um café (pode ser desde o clássico Café Tortoni a qualquer café mais degringolado da Calle Corrientes), lendo ou observando as mulheres que passam. Vale a pena.

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