O que esperar das primárias da
Pensilvânia entre Hillary e Obama

EUA · 22/04/2008 - 09h32 - 26 Comentários

Depois de muitas semanas, cá está de volta a corrida pela candidatura democrata à presidência dos EUA. Faltam dez competições, incluindo a de hoje, na Pensilvânia. Importantes, mesmo, são os 158 delegados em disputa hoje e os 187 dos estados de Indiana e Carolina do Norte, que estarão em jogo no próximo dia 6, uma terça-feira daqui a duas semanas. O resto são concursos menores.

Ninguém espera uma vitória de Barack Obama, hoje. Ninguém achava que ele venceria bem mais de um mês atrás, quando em 11 de março ele ganhou no Mississippi a última primária realizada. A questão, hoje, é qual será o tamanho da diferença entre ele e Hillary.

Há um mês e meio, Hillary Clinton tinha uma vantagem de aproximadamente 15 pontos percentuais. A pesquisa mais recente do American Research Group sugere que ela abrirá uma distância de 13 pontos. Se isto se confirmar, será uma belíssima vitória. Survey USA, Mason-Dixon e Public Policy Polling sugerem que a diferença entre ambos os candidatos se dará entre 3 e 6%. Se terminar assim, não haverá analista que não interprete o resultado como uma derrota tremenda para Hillary. A maioria dos institutos, no entanto, aposta numa diferença nos arredores dos 10%.

Indiana e Carolina do Norte são estados nos quais Obama deve vencer.

Ele esteve sob um tiroteio pesado neste período entre Mississippi e Pensilvânia. Primeiro vazaram vídeos de seu pastor, Jeremiah Wright, no púlpito. ‘God damn America’, Que Deus condene a América, ele gritou. ‘As galinhas criadas pelos EUA voltaram para ciscar em casa’, disse a respeito da al-Qaeda. Muitas vezes, soava profundamente racista contra brancos. Tudo parecia que pegaria muito mal para Obama e, no entanto, o candidato se pôs perante as câmeras para fazer seu agora histórico discurso de 40 minutos sobre o conflito entre raças nos EUA. Um discurso longo que, no entanto, esteve por semanas entre os mais vistos no YouTube. Obama evitou a hipocrisia e falou de forma incrivelmente franca. Virou a mesa reconhecendo que racistas, entre negros e brancos, são quase todos, principalmente os mais velhos.

Da segunda controvérsia ele não se livrou. Falando para um público de financiadores endinheirados do Partido Democrata, na Califórnia, Obama disse que o conservadorismo do americano típico das regiões industriais empobrecidas pela globalização tem a ver com a amargura pela dureza da vida. Daí que se aferram a temas como a manutenção da legalidade das armas. Chamar seu eleitor de amargo ou de mal com a vida não é coisa que se recomende.

Hillary, por sua conta, teve momentos ruins – mas não tão ruins. Durante a campanha, algumas vezes citou a vez em que, primeira-dama, pousou na Bósnia sob tiroteio – neste caso, é litoral, conflito armado. O objetivo era mostrar-se preparada para o difícil cargo de presidente dos EUA. Quando as imagens da visita fatídica apareceram, ela toda sorridente, ficou evidente que, além de não ter havido qualquer tiro, a visita era protocolar e sem quaisquer riscos. Ser pego mentindo também não é coisa boa para candidato a presidência. Virou piada. Esta eleição norte-americana tem um termo novo que os candidatos – todos eles – têm usado. Hillary ‘misspoke’, dizem seus assessores. Falou errado, se atrapalhou, se confundiu. É impossível traduzir ao pé da letra. É o eufemismo da moda para mentira.

O único debate desta rodada entre ambos, na semana passada, foi um dos piores para Barack Obama desde o início da corrida presidencial. Ele estava na defensiva e os moderadores mantiveram o cerco a ele por quase todo o programa. É uma mudança e tanto – era Hillary quem costumava estar na berlinda nestes encontros.

Foram semanas duras para Obama, pois. E, hoje, vai ficar claro o que elas representaram.

Há um motivo para tantas pesquisas darem resultados tão diversos. Numa eleição em que o voto não é obrigatório, os estatísticos têm que medir mais do que a intenção de voto. Medem, também, a percepção que o povo tem de como vai a campanha. Alguém pode querer votar em Hillary e, no entanto, convicto de uma derrota, preferir ficar em casa. Como cada instituto avalia de formas diferentes quem votará de fato e quem não se dará ao trabalho, os resultados saem díspares.

Por maior que tenha sido o tiroteio verbal entre Hillary e Obama, nas últimas semanas não houve eleitores trocando de candidato. O número de indecisos também nunca foi muito grande. (E, se as últimas primárias servirem de regra, Hillary deve ganhar entre os poucos indecisos.) Os eleitores de Obama, em geral mais jovens e mais militantes, devem sair para votar. A questão é: os eleitores de Hillary, hoje, vão às urnas ou não? Ela conseguiu motivar a base ou não?

Se a diferença entre ambos terminar ali pelos 5% na Pensilvânia, as possibilidades de Hillary vencer a disputa final, que já é remota, despencarão. Se, por outro lado, ela terminar com mais do que 10%, aí ganhará um fôlego surpreendente. Pode não ser suficiente para uma vitória de Hillary, mas não traz bons agouros para Obama. E se ficar entre 5 e 10%? Neste caso, ambas as campanhas sairão em campo tentando convencer imprensa e eleitores de que se deram melhor do que o adversário.

No fim das contas, o desgaste da briga entre Hillary e Obama já teve pelo menos um resultado concreto. Nas pesquisas nacionais, ambos aparecem empatados na disputa contra John McCain. Há uns meses, venciam com razoável folga. A eleição de 2008 poderá terminar mais difícil para os democratas do que a maioria dos analistas previa em janeiro.

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