Nas últimas semanas, alimento em falta ou caro demais levou muita gente às ruas em protestos. Já aconteceu no Egito, nos Camarões, no Haiti e em Burkina Faso. Não vai terminar aí. Em 2007, o alimento aumentou de preço 57% no mundo todo. Nos países que importam quase toda sua comida, a inflação alimentar foi de 74%.
Estes são países pobres.
Grãos – trigo, soja, arroz etc. – são o principal e mais barato alimento do planeta. Eritrea, Serra Leoa, Níger, Libéria, Botswana, Haiti e Bangladesh importam pelo menos 65% dos cereais que consomem. O percentual é alto demais. Intolerável. É aí que haverá fome primeiro. Pelo menos 100 milhões de pessoas correm risco sério.
A possibilidade de uma fome global é concreta. De Fidel Castro aos neoconservadores dos EUA, logo aparece gente acusando o biocombustível. (Em ao menos algumas coisas eles têm que concordar.) O problema é que não é tão simples. As causas do aumento de preços e escassez de alimentos são tão amplas que é difícil atacar todas ao mesmo tempo. O plantio de grãos para produção de biodiesel e etanol é apenas uma delas.
Começa com o enriquecimento de chineses e indianos. A renda média em ambos os países aumentou um bocado nas últimas duas décadas. Por conta, o gasto per capita com comida na Índia dobrou; na China, triplicou. Gastando mais, estão comendo melhor. O chinês comia 20 quilos de carne por ano em 1980. Hoje, como 50. Os rebanhos – de porcos, de cabras, de gado, de bicho que dá carne – aumentaram nos dois países. São bichos que têm que ser alimentados até que cresçam e engordem para o abate. Comem ração de soja brasileira.
A questão é aritmética, quase. A soja que o bicho come até sua morte não rende, em carne, a quantidade de calorias que renderia para um homem. Mas a carne é melhor alimento. Os chineses e indianos estão mais fortes e têm dinheiro para pagar por essa comida. O problema é que sobra menos soja. Oferta e demanda. Quem pode, paga pelo que há.
Quase. É bem mais complicado. Neste mesmo período de duas décadas, os mercados se expandiram. É aquilo que chamamos de globalização. Quer dizer que o Brasil vende com facilidade para a China. Os negócios são acertados pela Internet e lá se vão nossos grãos em troca de dólares que alimentam nossas reservas – e o Brasil também cresce. Acontece que a China fica bem longe de Mato Grosso. Haja diesel de caminhão até o Rio ou Santos; haja mais diesel de navio até a China.
E o petróleo está um tanto mais que 100 dólares o barril.
Exportação para qualquer lugar dá dinheiro, acertos online instantâneos por sistemas sofisticados de leilões trazem mais dinheiro e ainda eficiência. Mas, a partir daí, é preciso queimar combustível fóssil em quantidade para transportar as várias toneladas. O combustível é caro e joga carbono na atmosfera. O preço do alimento transportado sobe.
Se os chineses produzissem sua soja ou se estimulassem alguns vizinhos a fazê-lo, queimava-se menos dinheiro e menos petróleo, a soja ficava mais barata. Dá menos dinheiro para o Brasil, mas este é um detalhe. Consumir o que é produzido localmente é a melhor solução econômica e ecológica.
Evidentemente que há mais nesta conta. Acontece que o mercado global traçado via Internet transforma tudo em commodities. Um fundo de pensões na Suécia pode apostar no preço futuro da soja brasileira. (Ou do milho norte-americano.) É um dinheiro que entra na produção agrícola e, portanto, poderia ser investido no plantio de mais soja. Só que há limites físicos para a quantidade de grãos que se pode colher. A especulação tem puxado o preço para cima sem gerar um aumento de produção que o equilibre.
Queima de combustível e aquecimento global não entram nesta equação apenas no custo de transporte. Um dos motivos que derrubaram o volume de produção de cereais no mundo são as secas que atingiram Austrália e Estados Unidos e o inverno particularmente rigoroso que pegou de surpresa Rússia e Ucrânia. Estão, os quatro, entre os maiores produtores mundiais de grãos. Rússia e Ucrânia, hoje, produzem 12% menos de alimentos do que produziam nos tempos da União Soviética. Um dos motivos são as adversidades climáticas. Secas repentinas e invernos mais rigorosos do que os de hábito, ao que parece, continuarão comuns. Outro motivo é que o Estado deixou o setor na certeza de que o setor privado o assumisse. Não aconteceu.
O capitalismo da globalização, pois é.
Foi igualzinho na África. Quando o atual presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, era o principal negociador norte-americano de tratados comerciais, ele apresentava um pacote completo ao país que quisesse ouvir. As nações deveriam derrubar tarifas alfandegárias para alimentos, suspender subsídios agrícolas e – aqui é importante – evitar o estoque de grãos. Em troca teriam acesso facilitado ao mercado norte-americano. Grão estocado, segue o argumento, derruba o preço do produto no mercado externo e interfere no livre mercado. Os acordos de comércio bilateral assinados com os EUA trouxeram alguns países da África ao ponto em que estão hoje. No momento em que uma penca de fatores contribui para o aumento internacional de grãos, é nas costas deles que a bomba explode.
Não é só – as causas nunca acabam. Faz dois anos que a população urbana do mundo é maior do que a rural. Tem menos gente trabalhando no campo. Tem mais cidades ocupando espaço de terra outrora agricultável. (É particularmente verdade na África.)
E há, sim, o biocombustível. Os EUA são os maiores produtores mundiais de milho. 18% de seus grãos, 70 milhões de toneladas, serão usadas este ano para a produção de etanol. O objetivo é que 45% do milho seja destinado ao etanol até 2015. O ganho, como combustível, é mínimo. O equivalente em etanol de milho ao barril de petróleo vai a quase 80 dólares, uma economia pequena. (Em etanol de cana brasileiro não chega a 40.) Cana é só açúcar. Milho, como outros grãos, têm proteína. É alimento jogado fora.
O arroz chegou a seu preço mais alto em 19 anos. O trigo, em 28 anos.