O Iraque espatifado

EUA · Iraque · 14/04/2008 - 11h35 - 177 Comentários

Na semana passada, incontáveis especialistas testemunharam perante o Senado norte-americano a respeito do Iraque. O argumento defendido pelo presidente George W. Bush e o candidato republicano John McCain é conhecido: o aumento de soldados no Iraque fez, nos últimos meses, com que a violência diminuísse. Esta trégua, se persistente, permitirá ao governo do Iraque que se consolide e que um Estado nacional estável nasça das cinzas do regime de Saddam Hussein.

Há muita gente que diz o contrário. Mas seu argumento é menos agradável de ouvir. O general da reserva William Odom, que comandou os serviços de inteligência militar no governo Ronald Reagan e atualmente é professor da Universidade de Yale, foi um dos que o apresentou.

O maior sucesso alegado pelo governo é a pacificação de várias províncias no centro-norte do país, de origem árabe sunita. É a turma da etnia e religião de Saddam.

No primeiro momento após a invasão, sentindo-se derrotada, esta trupe convidou ao país quem estivesse disposto a lutar contra os estrangeiros. A al-Qaeda – um grupo sunita e, em geral, árabe – veio por conta. Mas o racha entre os clãs sunitas iraquianos e a al-Qaeda veio antes do aumento do número de soldados dos EUA. Entraram em conflito pelo poder e os chefes locais os puseram para fora. Hoje, como segue a tradição milenar árabe, cada chefe local tem o controle de sua região. O Iraque árabe-sunita, que fora unificado por Saddam Hussein a base de violência extrema, está fragmentado.

A ‘paz’ trazida pelos EUA tem a ver com várias questões. A primeira é que, após um período inicial de conflito, o Iraque sunita voltou ao seu ‘estágio natural’. Os clãs tradicionais diversos assumiram o controle de sua região. A violência que existe se dá pela disputa entre clãs. E eles mantém uma certa estabilidade porque são pagos pelos EUA para isso. Em algumas regiões, informa o general Odom, a lealdade vem ao custo de 250.000 dólares por dia em ‘taxas’ que os norte-americanos pagam.

Os resultados são dois. Primeiro, a al-Qaeda não tem chances de se firmar no Iraque. Estrangeiros não disputarão poder que é dos locais. Segundo, o conflito entre clãs é inevitável. Cada um está montando seu exército particular. Há séculos que é assim na Mesopotâmia. O choque entre eles virá com os EUA lá ou sem. Até que, sugerem os pessimistas, um novo Saddam Hussein surja com mão de ferro.

O Iraque é composto de uma maioria árabe-xiita, os árabes-sunitas e os curdos-sunitas. Estes últimos, principais vítimas do governo Saddam, eram os maiores parceiros norte-americanos. Mas os desejos de independência curda não são um problema apenas no Iraque. Também o são na Síria, no Irã e na Turquia. Quando a Turquia fez sua ofensiva militar dentro do território iraquiano contra os curdos os EUA tiveram que fazer uma escolha. Ou traíam o governo turco, parceiro militar na OTAN. Ou traíam os curdos. No jogo geopolítico, a Turquia era mais importante. Mas ao fechar os olhos dos curdos, deixou clara uma mensagem: os EUA não apóiam os desejos de independência curda e não lhe serão fiéis em qualquer disputa na região. Assim, os EUA perderam o apoio de curdos.

Por fim, restam os xiitas do sul. Não custa lembrar que, embora dividam a religião com o Irã, no Irã a etnia é persa e, no Iraque, árabe. Se há aquilo que aproxima os dois, também há muito que os separa.

Jawad al-Maliki, o premiê iraquiano, é árabe-xiita. Ao longo de seu governo, tem usado a proximidade com os EUA para fazer do exército norte-americano o seu exército nas disputas de poder que também existem entre os xiitas. E é assim, na região xiita, que a Casa Branca é percebida: como a turma de Maliki.

A questão mais dolorosa de lidar está no centro de quem defende a permanência norte-americana no Iraque. Se os EUA saírem, o país implode. O problema, segundo o general Odom, é que o país já implodiu. Os EUA são responsáveis pela implosão? Sim. Os EUA podem fazer algo para desfazer o problema? Não lá dentro. Quando um país se fragmenta, as forças da história – ódios seculares, preconceitos, luta por poder e dinheiro – são irreversíveis. É verdade para os Balcãs na Europa, é verdade para o Afeganistão – é verdade para o Iraque.

Não há rigorosamente um único caso na história do mundo em que um emaranhado de feudos foi unificado sem doses extremas de violência. Uma solução só terá início no momento em que os EUA deixarem o país. E não será bonita de testemunhar.

(O argumento mais curioso do governo Bush é a necessidade de oferecer treinamento militar para o ‘exército nacional iraquiano’. Aquele é um país militar. Todo mundo sabe conduzir guerras, lá.)

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