O pesadelo olímpico chinês

China · EUA · Esportes · 8/04/2008 - 09h51 - 113 Comentários

Quando Hillary Clinton cobrou do presidente George W. Bush o boicote dos EUA à cerimônia de abertura dos Jogos de Beijing, aquilo era esperteza política. A campanha de Hillary está por um fio e ela acabara de demitir Mark Penn, seu número dois. Um pedido ao boicote fez os jornais mudarem de assunto.

Mas as vaias, primeiro nas ruas de Londres, depois num tom mais alto em Paris, o símbolo da tocha três vezes apagada e dos atletas carregando a chama olímpica circundados de policiais não têm nada de planejamento político.

São várias as ONGs, incluindo os Repórteres Sem Fronteiras, que estão planejando criar alarde no mundo a respeito das ações internacionais da China. Essas coisas colam ou não colam. Neste caso, agora está claro, colou.

As Olimpíadas serão um pesadelo incontrolável para o governo chinês.

O Comitê Olímpico Internacional tinha uma experiência de sucesso em mente quando escolheu Beijing para sediar os jogos: Seul, 1988. Quando a Coréia do Sul foi escolhida, o país vivia uma ditadura. Com a oportunidade de reapresentar sua imagem ao mundo, houve pressão popular e política para maior abertura. Os estudantes foram às ruas – um terminou torturado e morto. As eleições diretas foram marcadas para o ano das Olimpíadas.

Ninguém achava que o Partido Comunista Chinês deixaria em poder como fizeram os generais sul-coreanos. Mas havia uma clara esperança de que o holofote dos jogos produzisse um clima interno favorável a abertura. Talvez, como no caso sul-coreano, isto envolvesse protestos e alguma violência. Mas, no mundo ideal do COI, o governo chinês não teria opção que não ceder.

De sua parte, o governo chinês também fez planos. A televisão local mostra tudo com delay – assim, há tempo para cortar uma imagem de protesto ou outra; há postos de acesso a Internet voltados especialmente para jornalistas. A rede deles não tem censura, mas não é aquela que os chineses vêem. O governo tinha esperanças, também, que os jornalistas, em geral especializados em esportes, estariam tão envolvidos com a cobertura que a ditadura não ficaria exposta demais. Com manhas tecnológicas e um brutal empenho em propaganda, achava que mostraria ao mundo uma ditadura, assim, mais humana.

Não é que daria para prever o que está começando a acontecer. A aposta do COI poderia dar certo. A do governo chinês, também. Só que os planos de ambos vazaram água.

Nos últimos anos, a imprensa internacional vem cobrindo a China como a grande potência do futuro. Este ano, um bocado por conta dos Jogos, isto acaba de mudar. A China é a potência do presente. A segunda maior depois dos EUA. E, assim como acontece com os EUA e como aconteceu noutros tempos com a URSS, sua política externa será vigiada. Haverá gente empenhada em mostrar ao mundo o que esta superpotência faz de mal. É, por assim dizer, uma benesse que acompanha o posto. Uma superpotência não pode fazer o que bem quiser e achar que ninguém vai reparar.

O curioso é que o governo chinês sempre reclamou que havia um duplo padrão, que os EUA podiam fazer o que bem quisessem mundo afora e eles, não. Os EUA descobriram com o Iraque que há limites: o desgaste de sua imagem nos últimos anos foi violentíssimo.

A China é uma ditadura. Seu governo está acostumado a fazer o que bem quer sem que o público interno ligue. Agora, há a pressão externa.

A tocha chega quarta-feira a San Francisco, na Califórnia. Os protestos estão armados. Esta volta ao mundo já virou um pesadelo.

Durante os jogos, será muito pior. Em metade das cerimônias de entrega de medalha, através de gestos diversos, de protestos nas arquibancadas, o mundo estará sendo lembrado dos desmandos chineses.

A ditadura não conseguirá controlar nenhum destes momentos. E não há marqueteiro que consiga restaurar depois.

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