Pedro Doria | Weblog

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Em que o mundo está mudando
entre o novo e o velho jornalismo

April 3rd, 2008 · · 36 Comentários

O futuro da imprensa, a maneira como vamos nos informar ao longo dos próximos anos – a maneira como muitos já nos informamos hoje – não é assunto que deveria interessar apenas a jornalistas. Em alguns setores das redações, esta semana, o assunto é a reflexão publicada pelo veterano repórter Eric Alterman na última New Yorker.

Ela tem muito a ver com a conversa que temos tido continuamente aqui neste Weblog nos últimos tempos.

Hoje, quase todos os jornais sérios estão lutando para se adaptar às novas tecnologias e às oportunidades de criação de comunidades oferecidas pela distribuição digital de notícias. Isto inclui blogs de jornalistas, uso de vídeos e chats públicos com os repórteres e editores. Alguns, como o New York Times e o Washington Post, certamente sobreviverão a este momento de transformação tecnológica. Mas vão mudar. Cortarão o número de repórteres e aprofundarão sua presença online. Outros jornais escolherão aumentar o foco no noticiário local. Editores em toda parte estão dizendo que entenderam o recado.

Ainda assim, jornalistas por todo lado ainda estão envolvidos demais com seus status de insiders com acesso ao núcleo do poder. Eles costumam ignorar não apenas a maioria das críticas feitas na blogosfera mas também o fermento democrático meio desorganizado da Internet. Recentemente, o Chicago Tribune decidiu fechar suas caixas de comentários no noticiário político. O ombudsman, Timothy J. McNulty reclamou, e com razão, ‘que os comentários cada vez mais pareciam oriundos de uma comunidade de bestas-feras’. […]

E, assim, estamos para entrar num mundo onde a notícia é fragmentada e caótica. Sua principal característica é que a conversa, a comunidade de leitores, estará mais presente. A reportagem de primeira linha perderá espaço. Jornais eram devotados à reportagem objetiva. Agora, o jornalismo se dará através de comunidades, cada uma dedicada a seu próprio tipo de ‘notícia’ – cada uma com suas próprias ‘verdades’ nas quais baseiam seu debate, sua conversa. Ao perder o jornalismo objetivo, perdemos uma narrativa comum com a qual concordamos, um grupo de ‘fatos’ nos quais nos baseamos para a compreensão política. O noticiário ficará cada vez mais ‘democrata’ ou ‘republicano’.

Não é um fenômeno inédito. Antes de Adolph Ochs assumir o comando do New York Times, em 1896, garantindo que ia conduzir o jornal ’sem medo ou prestação de favores’, os EUA eram dominados por jornais nitidamente partidários. Em muitos países da Europa, a cultura jornalística há muito optou pelo caminho de narrativas concorrentes para comunidades políticas diferentes. Cada jornal reflete uma visão. Talvez não seja coincidência que o engajamento político nestes países seja muito maior do que aquele nos EUA.

O artigo de Alterman às vezes parece um lamento pelo tipo de jornalismo perdido. Mas aí repentinamente dá uma virada. Há qualidades e há defeitos e ambos os modelos. Apenas são diferentes.

Ontem, tivemos um bom debate a respeito dos resultados das políticas sociais do governo Chávez, na Venezuela. Bons dados foram levantados em ambos os lados. Mas são versões partidárias. O que dizem os melhores governistas e o que dizem os melhores na oposição. Ficou faltando o que, objetivamente, aconteceu. Antigamente, uma redação mandaria um repórter absolutamente desinteressado, sem compromissos com um lado ou com o outro, disposto apenas a compreender e ouvir e transmitir o que ouviu. Além de autoridades em ambos os lados, e professores, e economistas, ele também visitaria as favelas e conversaria com as pessoas sobre suas vidas hoje e antes. Uma narrativa isenta não é necessariamente uma narrativa correta. Mas ela é descompromissada. Não é nem pró-governo, nem pró-oposição.

É isto que está começando a rarear.

Se estamos perdendo objetividade, a contrapartida é que ganhamos em participação política. Há mais gente participando do diálogo. Há mais gente disposta a questionar e fazer seu ponto de vista ser ouvido. Há democracia em ebulição. E, quando há mais gente, o tom se eleva uns tantos decibéis. Deixou de haver uma narrativa comum, majoritária. A Segunda Guerra foi assim, estes eram os vilões, estas as vítimas, aqueles, os heróis. Agora há a narrativa palestina e a israelense; a narrativa petista e a tucana; a republicana e a democrata; a chinesa e a norte-americana. Em meio a argumentos em geral muito sofisticados e mesmo honestos, começa a ser difícil formar consenso. Ou mesmo formar opinião. Quais são os fatos incontestáveis? Ainda é possível encontrar fatos incontestáveis embaixo de tantas camadas de narrativa e interpretação muitas vezes desconexas?

O quanto a opinião não está virando, para muitos, uma decisão aleatória, como que a escolha do time pelo qual se torce?

Os problemas e as dúvidas que vivemos todos, aqui no Weblog, são os problemas e as dúvidas vividos em todo o mundo. Às vezes, a crescente falta de certezas é um tanto angustiante.

Atualização – Neste nosso mundo de diálogo ampliado, a ilusão corrente é de que quem falar mais alto ganhará a discussão. Na Internet, o ‘falar mais alto’ é traduzido às vezes em repetir ininterruptamente o mesmo argumento, em dar apelidos ao adversário, em ofender ou desqualificar. Mas este não é um jogo no qual uma narrativa, uma versão, sairá vitoriosa no final.

Ninguém vencerá a discussão. Nenhuma delas.

Tags: Blogosfera · Mídia

36 Comentários até agora ↓




  • 1 Tales // 3/April/2008 às 12:50

    Excelente!

  • 2 Mr X // 3/April/2008 às 12:50

    Tudo parte da tática gramsciana de dominação universal. ;-)

    os fatos são sempre iguais; são os petistas, palestinos, obamistas, chavistas e chineses que manipulam.

  • 3 Cristiano // 3/April/2008 às 12:53

    Oferta de emprego em um site de jornal: “precisa-se de jornalista ou blogueiro para trabalhar com conteúdo do site”

    Tá dominado, tá tudo dominado.

  • 4 Out of Print « nanomídia // 3/April/2008 às 12:59

    […] ler o texto completo, de Eric Alterman, aqui.  Para comentários a respeito, o ideal é visitar o blog de Pedro Dória (de onde peguei a dica sobre o […]

  • 5 Paulo Colacino // 3/April/2008 às 13:00

    Um dia o Jô Soares disse “eu leio o jornal assim que ele chega as 4h da manhã. Mas antes já tinha visto o jornal da Globo as 00h. O jornal parece que traz notícias de 1 dia atrás. Se eu leio ele mais tarde parece que ele já é mais velho ainda.”

    Será que dá para essa mídia continuar funcionando no formato impresso?

    Abços

    PR

  • 6 Darwinista // 3/April/2008 às 13:19

    Paulo Colacino,

    Acho que uma saída para a mídia impressa é investir na parte opinativa. Na tv as análises são muito superficiais, quando estão presentes. Para se aprofundar no tema, a mídia impressa ainda é a melhor solução.

  • 7 Paulo Roberto Silva // 3/April/2008 às 13:24

    O final do post diz tudo. Não se trata de uma mudança do jornalismo apenas, trata-se de uma revolução das percepções. Michel Foucault identificou dois fenômenos parecidos: a virada dos séculos XVI ao XVII e dos séculos XVIII ao XIX. Nestes momentos, a forma como se percebia o mundo de repente sofreu uma mudança. O conteúdo da última, curiosamente, é percebido da mesma maneira por Foucault, por Edmund Wilson e pelos cardeais Woytila e Ratzinger: as coisas passaram a ser definidas pela sua função ou utilidade, e não mais pela sua aparência. Foi o primeiro passo pelo qual a objetividade ganhou a face que se disseminou no século XIX, a mesma que costuma ser apontada pelo jornalismo: um olhar restrito aos fatos, que são tratados como coisas, e analisados de acordo com suas funções.

    Foucault, quando analisa esta percepção de maneira concreta, no caso dos hospícios e das prisões, descobre que o que se apresentou como libertação das superstições revelou-se, na prática, uma nova forma de discriminação e aprisionamento. No caso dos presídios, ele conclui que, mais do que combater o crime, eles o organizaram de modo a colocá-lo a serviço do interesse econômico.

    Algo semelhante aconteceu com o jornalismo. Ao se pautar pela objetividade “científica”, transformou a forma pela qual os diversos interesses políticos e sociais instrumentalizaram-no. Passou a fazer parte da disputa a construção de um discurso competente, capaz de parecer objetivo e apontar ao ponto que interessaria ao grupo de pressão. Ao final do século XX, a objetividade jornalística tornou-se vulnerável aos dossiês.

    O que vemos hoje é a conclusão deste processo, com a objetividade “científica” perdendo espaço para uma nova forma de fé: a fé em valores de grupo. As pessoas passam a impor a si mesmas uma orientação política, religiosa, esportiva, ou até de alimentação, e filtram os fatos pela lente desta orientação. É o resultado direto da forma como a objetividade foi instrumentalizada durante o século XX.

    Uma nova percepção impõe novos desafios. E provavelmente resultará em novos mecanismos de instrumentalização.

  • 8 Jåµë§ ßønd™ // 3/April/2008 às 13:25

    -= Isso significa que caminhamos para um futuro onde os jornalistas podem ser punidos - quiçá tirados do ar! - caso suas opiniões venham a divergir do modelo político da comunidade virtual a qual pertence?

    Espero que este dia nunca chegue, pois aqui onde estou, no ano de nossa graça de 1995, isto ainda não acontece.

    Como estão as coisas aí em 2008?!

  • 9 Jimmy Page // 3/April/2008 às 13:26

    Bota angustiante nisso!!

    Nessa ziquizira toda entre o Paulo Henrique Amorim e o IG, por exemplo, vi você expor que tanto o Mino Carta quanto o PHA apenas defendem um grupo de poder.

    Entretanto, não consigo imaginar o Mino fazendo algo que não seja defender seus princípios jornalísticos.

    E agora?

  • 10 e. s. // 3/April/2008 às 13:52

    Há outras interpretações possíveis para o fenômeno, embora não menos angustiantes.

    Uma delas é que os horizontes de compreensão (Gadamer) realmente se afirmam no tempo, então o ocaso da ‘objetividade’ é reflexo do ocaso do ‘objeto’ moderno. Para o jornalismo pode ser o fim da verdade-do-autor e o início do consenso-segundo-A-B-e-C.

    Angustia? Claro que sim, desamparo é desamparo, mas a janela de autonomia - simbólica, hermenêutica e, por que não dizer, jornalística? - que se abre agora e JÁ se molda em nossas comunidades não conta por si como grande (e desejada) novidade?

  • 11 Arara // 3/April/2008 às 13:54

    “Acho que uma saída para a mídia impressa é investir na parte opinativa.”
    Darwinista, #6

    É isso. Escrever é opinar. Mas quem se habilitaria? A maioria dos jornalistas parece orgulhar-se de não possuir opinião sobre coisa alguma…

  • 12 Pedro Doria // 3/April/2008 às 13:59

    Aí é que está… opinião é o que temos com fartura… há tanta opinião que os fatos estão se perdendo.

    Mas há fatos?

  • 13 Darwinista // 3/April/2008 às 14:08

    Eu assisti ao lançamento de uma Piauí na Livraria Cultura com participação do Paulo Vinícius Coelho. Em determinado momento ele comentou, se me recordo bem, que hoje em dia surgem muitas pessoas em criar blogs e emitir suas opiniões, mas são poucas as que querem correr atrás dos fatos, investigar, esmiuçar o que está acontecendo, onde quer que esteja acontecendo.

  • 14 Paulo Roberto Silva // 3/April/2008 às 14:11

    Sim, Pedro, os fatos existem. O problema é como nós os percebemos. Quem observa um fato o observa de um determinado lugar, através de uma determinada lente. Pode ser a lente a objetividade tal e qual foi definida pelo século XIX, ou pode ser a lente dos diversos agrupamentos que ganham força neste século XXI. O fato continua em seu lugar, a forma de contá-lo é que está mudando.

  • 15 Darwinista // 3/April/2008 às 14:11

    “surgem muitas pessoas interessadas em criar blogs…”

  • 16 Guilherme // 3/April/2008 às 14:42

    Há muito deixei de ler jornais impressos. Só os compro quando estou num aeroporto esperando embarque. Assim como revistas. Mas tanto um quanto a outra, sempre trazem várias matérias mais ou menos atemporais, algumas que valem a pena . Mas em se tratando de notícia, hoje só a TV e a Internet me satisfazem.

    Não tenho qualificação para entrar nesse debate técnico que se desenrola aí em cima, mas constato que esse meu comportamento é o mesmo da maioria das pessoas que conheço.

  • 17 Ricardo Cabral // 3/April/2008 às 15:34

    Paulo Roberto Silva (# 14), todas as questões que vc levanta me levam na direção oposta: não, não há fatos, apenas pontos de vista sobre estes. Há alguma objetividade — precária — decorrente da intersubjetividade, e só.

  • 18 Brancaleone // 3/April/2008 às 15:36

    O maior problema de qualquer tipo de imprensa é credibilidade.
    Por várias vêzes insisti aqui na imparcialidade e credibilidade impossíveis de qualquer forma de imprensa e por extenção dos repórteres.
    Hoje a internet bombardeia as pessoas com zilhões de informações, vindas das mais diversas fontes e com os mais diversos pontos de vista e quase tudo tendencioso por intenção ou ignorância.
    No fim nós, os leitores ou ouvintes desta orgia informativa temos é que nos virar para filtrar e separar o que presta e o que não presta.
    Informar-se hoje em dia é como as minas de diamantes da Africa do Sul : Milhares de toneladas de escória rochosa à trôco de ínfimas gramas de diamantes…

  • 19 tiagón // 3/April/2008 às 15:51

    a ‘atualização’ é pra pendurar como quadro nas paredes dos blogs afora. excelente.

  • 20 Ricardo Cabral // 3/April/2008 às 16:02

    PD, a propósito da sua atualização, anteontem publiquei num post um artigo simpático, onde o autor fala de dois cidadãos: o “da sociedade globalizada” e o “da filosofia”, e apresenta suas sete teses sobre cada um. Uma das teses sobre o “cidadão da sociedade globalizada” é justamente a de que “ser cidadão é falar alto“. Diz o autor:

    “em nossas sociedades muito se fala. Promove-se o gosto das pessoas por falar. São estimuladas. Certamente, falar e dizer não são a mesma coisa. Abre-se muito espaço para falar e muito pouco para dizer. Fala-se muito, e diz-se muito pouco. Mas tem-se de falar, de qualquer forma. Quem cala pouco obtém. Como lógica conseqüência, as pessoas não gostam de ouvir os outros: adoram ser ouvidas mas não obtêm nenhum rédito visível de escutar os outros. Assim, nestas sociedades nas quais tudo se obtém falando, importa falar bem alto. O cidadão é aquele que fala bem alto.”

    Vai bem na toada do seu texto, né?

  • 21 Bárbara // 3/April/2008 às 16:05

    Eu acho que existe uma certa confusão entre “ser isento” e “ficar em cima do muro”. Esse hipotético repórter isento que iria à Venezuela e traria a Verdade, por exemplo. Ele é possível? Um ser humano que não teve nenhuma experiência intelectual ou emocional que de alguma forma o influenciasse? Mais ainda: ele conseguiria saber TUDO sobre a Venezuela?
    Por outro lado, repórteres intelectualmente honestos, mas com crenças fortes, podem produzir coberturas isentas que tomam partido. Uma das grandes reportagens mais importantes do Brasil foi feita por um repórter que teve uma formação ideológica muito forte, viu uma realidade que contrastava com essa formação e produziu uma obra prima, chamada Os Sertões.

  • 22 Pedro Doria // 3/April/2008 às 16:11

    Bárbara: o repórter isento chega a uma conclusão. Sua conclusão tem valor porque ele chegou a ela por conta própria sem estar ligado a nenhum dos grupos interessados. E, importante, a vitória de um dos grupos não vai favorecê-lo pessoalmente.

    Isso também não quer dizer que o repórter isento e preparado não erra. O importante é que ele seja honesto, um observador imparcial e franco.

  • 23 emp // 3/April/2008 às 16:17

    O problema maior é que blogs continuam sendo altamente centrados na figura do dono. Em uma redação, por mais parcial que seja o jornal ou revista, ainda é um grupo de pessoas, com um determinado grau de qualificação, que tem de decidir como cada assunto vai ser abordado. Isso é algo mais equilibrado do que qualquer blog pode ser (porque a decisão é compartilhada).

    Não sei se existem “narrativas” diferentes. É como se não existissem fatos. Mas eles existem.
    É um fato que o PT utilizou de caixa 2, sonegando impostos, em sua campanha presidencial. Incontestável. O que há por discutir nisso? O PSDB comprou votos no congresso para o segundo mandato do FHC. Isso é um fato também.
    O que há é a velha e boa discussão política.

  • 24 Renato // 3/April/2008 às 16:19

    No caso de blogs eu confesso que certas vezes me guio pelos comentários. Tenho uma particular preferência por blogs em que os autores são atacados por comentaristas radicais ensandecidos de opiniões opostas. Motivo pelo qual considero o blog do Noblat ou este mesmo interessantes.

    Por exemplo, essa história do dossiê é engraçadíssima ao se ler os comentários no blog do Noblat. Governistas histéricos o acusam de golpista enquanto oposicionistas em faniquitos o acusam de vendido ao governo. Logo há uma boa chance que ele esteja apenas fazendo seu trabalho sem se preocupar em desagradar/agradar alguém.

  • 25 Pixotte // 3/April/2008 às 16:23

    Em pouco tempo os jornais servirão apenas pra ler no Ônibus ou no vaso santário.

    Até por isso os “meia hora” da vida têm feito tanto sucesso.

    Aliás, isto explica em parte porque as editoras/jornais investem tanto no culto às (sub) celebridades e outros assuntos desimportantes. Estas “notícias” demoram para ficar velhas.

  • 26 Ricardo Cabral // 3/April/2008 às 16:28

    Pedro, na tua defesa do processo de apuração — que me parece o mais adequado, por mais imperfeito que possa ser —, assim como na sua ênfase sobre a importância da isenção, você insiste muito na palavra “imparcial”. Infelizmente ela sofreu um brutal desgaste, e acaba soando a “ingenuidade” diante da inexistência desse “lugar”. Creio que bastaria a defesa do próprio método de apuração, aproximando-o (por analogia) do método científico, no sentido de pôr à disposição do leitor não só o leque mais amplo possível de dados sobre a informação/notícia, como também a possibilidade de revisão, tanto pelos seus pares — na forma de outras reportagens feitas por outros repórteres, profissionais ou não —, quanto pelo próprio leitor — que com a web 2.0 se mostra mais atuante, e não apenas com berros.

  • 27 Radical Livre // 3/April/2008 às 16:42

    Eu acompanhei de longe a redação do JB na década de 80 - namorava uma réporter de lá.

    Vou te dizer, aquilo parecia o máximo. tinha gente com duas, três semanas para apurar e desenvolver uma matéria. Afora o dia-a-dia da redação, era possível propor pautas e receber apoio para reportagens que depois sairiam em três, quatro páginas no dominical.

    Hoje em dia, repórter apura pela internet, utilizando como fontes um blog que leu uma matéria noutro blog que finalmente descobriu um site que tinha um documento que fora vazado por uma fonte anônima de uma instituição etc etc.

    ninguém mais apura nada, ninguém parte para checar nada. É um tal de “li que”, “fui informado que”, “fulano afirmou que”.

    E tome jornalista sendo instrumentalizado por suas fontes, pautado por press-releases.

    O maior problema da imprensa hoje em dia - impressa ou virtual - é a falta de compromisso com a apuração independente. Você fica vendo “Todos os homens do presidente” e pensa: quando é que hoje em dia um repórter teria tal cuidado em apurar ou confirmar com duas ou mais fontes uma informação? quando é que você vai ver um editor dizendo para um repórter: falta mais coisa aí, isto assim-assim está mal articulado…?

    Tá dominado, tá tudo dominado.

  • 28 Ricardo Cabral // 3/April/2008 às 16:45

    Culpa da velocidade como exigência geral, Radical Livre. Quero notícia nova, “em tempo real”. Se é boa ou não, profunda ou não, isenta ou não, depois a gente vê. (Depois?!? Depois eu já esqueci!!!)

  • 29 Antonio // 3/April/2008 às 18:18

    Concordo com o Ricardo Cabral quanto à impossibilidade de se falar na existência de “fatos” — isto é, uma suposta Verdade que é evidente por si mesma, e que portanto é passível de ser apontada com tanta objetividade como quando dizemos “olha lá a pedra na beira do rio”.

    (Nesta altura, haverá certamente quem me acuse de “relativista”. Mas não vou entrar nesse mérito pela enésima vez.)

    A questão é filosófica. E o ponto é o seguinte: a Verdade não está “dada” no mundo; não é uma propriedade dos “fatos” em si mesmos. Isto porque a Verdade não é uma propriedade do mundo: ela é propriedade de frases, e frases são componentes das línguas humanas — e línguas humanas são criações humanas. A Verdade não tem uma existência independente da mente humana porque as frases não podem existir dessa maneira: são produtos dos estados mentais do homem.

    Como diz Rorty, “O mundo existe, mas não as descrições do mundo. Só as descrições do mundo podem ser “verdadeiras” ou falsas. O mundo em si — sem o auxílio das atividades descritivas dos seres humanos — não pode sê-lo.”

    E no entanto, apesar de não acreditar em imparcialidade, eu acredito no bom jornalismo. E isso pelos mesmos motivos que o Ricardo Cabral apontou — numa metáfora, eu resumiria a questão do seguinte modo: não é porque um ambiente hospitalar 100% asséptico é uma impossibilidade que nós vamos começar a operar pacientes no esgoto.

    Abraços a todos,

    ACT

  • 30 e. s. // 3/April/2008 às 20:40

    (Cabral e Antônio)

    C.Q.D.

  • 31 Prøftël // 3/April/2008 às 21:42

    Creio que os melhores comentários num blog são dos que vivenciam o fato, tipo o que ocorre aqui com o pessoal que vive no exterior e coloca suas impressões.
    O difícil é encontrar um blog com essa diversidade (aqui é um dos “hot point”), tá na cara.
    Jogando um pouco mais à frente essa discussão sobre imprensa escrita/virtual, me preocupa isso: “os comentários cada vez mais pareciam oriundos de uma comunidade de bestas-feras”.
    Seguinte, cada vez mais há pessoas que só ficam no mundo virtual, direto e reto inclusive sem sair de casa para trabalhar, é tudo on-line.
    Essas pessoas não tem convívio social, tornam-se antisociais e descarregam isso nos comentários.
    Fico imaginando uma turma assim numa manifestação de rua, colocando em prática toda essa ira, a coisa não ficaria muito boa.
    Não é uma hipótese tão remota assim, tá cheio de garotos malucos passando fogo em colegas nas escolas, daí essa geração em fase adulta sair do teclado ao gatilho é um pulo.
    Dá medo.

    :-/

  • 32 Prøftël // 3/April/2008 às 21:51

    Quanto aos fatos em si, nada melhor por exemplo, que ler um comentário do Pax sobre como funcionam hospitais e natureza, um comentário do Brancaleone sobre replantio, um comentário do HRP sobre química, do Darwinista sobre biologia, do Surf sobre empresas, do Josef Mário sobre as gurias da Help ou saber como e onde estão os outros confrades e confreiras junto à nossa Gerente de Recursos Humanos e Relações Públicas Confetti.
    Ah, sobre religião com o Theo, Ricardo Cabral a patroa (Tia) e tantos outros.
    Sobre guerra com o Bitt.

    E por aí vai…

    :-)

  • 33 Francisco // 4/April/2008 às 9:36

    Essa diéia de um narrativa fragmentada me faz lembrar da “polifonia” que parte da antropologia norte americana reivindicava como forma de recuperação do trabalho etnográfico. Uma recuperação necessária, de acordo com esse grupo, pelo “totalitarismo” da figura do pesquisador, afinal era ele o unico a discorrer sobre a população observada. Daí a abertura de espaço para outras tantas vozes, o que leva - como bem mostra o post - a uma série de “representações objetivas” da realidade.
    Sem dúvida, há uma abertura para novos agentes com os inumeros blogs, o que não deixa de ser bom, por outro lado, este espaço também se oferece aos “bestas-feras” dos quais o jornalista norte americano se queixou.
    Será que ainda há espaço para a construção de um senso comum a partir do qual se discute e se pondera sobre seja lá o que for?
    Abs.

  • 34 Ricardo Cabral // 4/April/2008 às 10:43

    e.s., é que Gadamer é difícil pacas…
    :-)

    Abraços

  • 35 Ricardo Cabral // 4/April/2008 às 10:56

    Francisco (# 33), de certa forma, o senso comum continua presente. Polifônico, como vc bem disse, mas ainda assim bebendo de fontes próximas. Talvez não geograficamente, mas em relação aos seus sentidos (i.e., significados). O nosso olhar para o que é “próximo” e o que é “distante” de nós — no que se refere as nossas crenças, valores, experiências, inserção social etc. — continua estruturalmente o mesmo: por um lado, tendemos a buscar tudo aquilo que coincide com os nossos pontos de vista, pois isso “nos confirma”; e por outro, repudiamos o diferente, o “distante” de nós, seja por não sabermos como lidar com ele, seja por “por em risco” a solidez das nossas convicções…
    Enfim, muda o conteúdo mas não a dinâmica. Esta me parece a mesma.

  • 36 e. s. // 5/April/2008 às 11:28

    Prøftël (#31),

    concordo que a agressividade assusta (muito a dizer sobre isso em outro momento), mas discordo do “mundo virtual” e dos anti-sociais.

    Os murais ‘virtuais’ (em quê um mural em cortiça é mais real que outro no LCD?) são prato cheio para a agressão, não ver o ‘oponente’ dá coragem pro ataque, mas esse contato é também social (até socializante), porque um troll será questionado ou censurado e nos dois casos é uma relação (social) que se estabelece, onde ele, troll, se inclui espontaneamente. O verdadeiro misantropo nem se daria ao luxo de atacar. Entendo o “virtual” do termo corriqueiro, mas é algo temporário, é o costume com a ferramenta, e faz bem questionar desde já.

    Cabral (#35),

    além de plagiar o modelo de referência (#), concordo, Gadamer não é bolinho. Mas, quando levado a sério, quem é? =]

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