Em que o mundo está mudando
entre o novo e o velho jornalismo

Blogs · Mídia · 3/04/2008 - 12h31 - 36 Comentários

O futuro da imprensa, a maneira como vamos nos informar ao longo dos próximos anos – a maneira como muitos já nos informamos hoje – não é assunto que deveria interessar apenas a jornalistas. Em alguns setores das redações, esta semana, o assunto é a reflexão publicada pelo veterano repórter Eric Alterman na última New Yorker.

Ela tem muito a ver com a conversa que temos tido continuamente aqui neste Weblog nos últimos tempos.

Hoje, quase todos os jornais sérios estão lutando para se adaptar às novas tecnologias e às oportunidades de criação de comunidades oferecidas pela distribuição digital de notícias. Isto inclui blogs de jornalistas, uso de vídeos e chats públicos com os repórteres e editores. Alguns, como o New York Times e o Washington Post, certamente sobreviverão a este momento de transformação tecnológica. Mas vão mudar. Cortarão o número de repórteres e aprofundarão sua presença online. Outros jornais escolherão aumentar o foco no noticiário local. Editores em toda parte estão dizendo que entenderam o recado.

Ainda assim, jornalistas por todo lado ainda estão envolvidos demais com seus status de insiders com acesso ao núcleo do poder. Eles costumam ignorar não apenas a maioria das críticas feitas na blogosfera mas também o fermento democrático meio desorganizado da Internet. Recentemente, o Chicago Tribune decidiu fechar suas caixas de comentários no noticiário político. O ombudsman, Timothy J. McNulty reclamou, e com razão, ‘que os comentários cada vez mais pareciam oriundos de uma comunidade de bestas-feras’. [...]

E, assim, estamos para entrar num mundo onde a notícia é fragmentada e caótica. Sua principal característica é que a conversa, a comunidade de leitores, estará mais presente. A reportagem de primeira linha perderá espaço. Jornais eram devotados à reportagem objetiva. Agora, o jornalismo se dará através de comunidades, cada uma dedicada a seu próprio tipo de ‘notícia’ – cada uma com suas próprias ‘verdades’ nas quais baseiam seu debate, sua conversa. Ao perder o jornalismo objetivo, perdemos uma narrativa comum com a qual concordamos, um grupo de ‘fatos’ nos quais nos baseamos para a compreensão política. O noticiário ficará cada vez mais ‘democrata’ ou ‘republicano’.

Não é um fenômeno inédito. Antes de Adolph Ochs assumir o comando do New York Times, em 1896, garantindo que ia conduzir o jornal ’sem medo ou prestação de favores’, os EUA eram dominados por jornais nitidamente partidários. Em muitos países da Europa, a cultura jornalística há muito optou pelo caminho de narrativas concorrentes para comunidades políticas diferentes. Cada jornal reflete uma visão. Talvez não seja coincidência que o engajamento político nestes países seja muito maior do que aquele nos EUA.

O artigo de Alterman às vezes parece um lamento pelo tipo de jornalismo perdido. Mas aí repentinamente dá uma virada. Há qualidades e há defeitos e ambos os modelos. Apenas são diferentes.

Ontem, tivemos um bom debate a respeito dos resultados das políticas sociais do governo Chávez, na Venezuela. Bons dados foram levantados em ambos os lados. Mas são versões partidárias. O que dizem os melhores governistas e o que dizem os melhores na oposição. Ficou faltando o que, objetivamente, aconteceu. Antigamente, uma redação mandaria um repórter absolutamente desinteressado, sem compromissos com um lado ou com o outro, disposto apenas a compreender e ouvir e transmitir o que ouviu. Além de autoridades em ambos os lados, e professores, e economistas, ele também visitaria as favelas e conversaria com as pessoas sobre suas vidas hoje e antes. Uma narrativa isenta não é necessariamente uma narrativa correta. Mas ela é descompromissada. Não é nem pró-governo, nem pró-oposição.

É isto que está começando a rarear.

Se estamos perdendo objetividade, a contrapartida é que ganhamos em participação política. Há mais gente participando do diálogo. Há mais gente disposta a questionar e fazer seu ponto de vista ser ouvido. Há democracia em ebulição. E, quando há mais gente, o tom se eleva uns tantos decibéis. Deixou de haver uma narrativa comum, majoritária. A Segunda Guerra foi assim, estes eram os vilões, estas as vítimas, aqueles, os heróis. Agora há a narrativa palestina e a israelense; a narrativa petista e a tucana; a republicana e a democrata; a chinesa e a norte-americana. Em meio a argumentos em geral muito sofisticados e mesmo honestos, começa a ser difícil formar consenso. Ou mesmo formar opinião. Quais são os fatos incontestáveis? Ainda é possível encontrar fatos incontestáveis embaixo de tantas camadas de narrativa e interpretação muitas vezes desconexas?

O quanto a opinião não está virando, para muitos, uma decisão aleatória, como que a escolha do time pelo qual se torce?

Os problemas e as dúvidas que vivemos todos, aqui no Weblog, são os problemas e as dúvidas vividos em todo o mundo. Às vezes, a crescente falta de certezas é um tanto angustiante.

Atualização – Neste nosso mundo de diálogo ampliado, a ilusão corrente é de que quem falar mais alto ganhará a discussão. Na Internet, o ‘falar mais alto’ é traduzido às vezes em repetir ininterruptamente o mesmo argumento, em dar apelidos ao adversário, em ofender ou desqualificar. Mas este não é um jogo no qual uma narrativa, uma versão, sairá vitoriosa no final.

Ninguém vencerá a discussão. Nenhuma delas.

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