Francisco Rodríguez, um economista formado nos EUA, foi deputado federal da base de apoio de Hugo Chávez no início de seu primeiro mandato. Na Assembléia Nacional, serviu como economista-chefe, e tinha a responsabilidade de acompanhar os números do país. O governo não gostou daquilo que Rodríguez dizia e seu cargo terminou extinto. Aquilo que viu está publicado num artigo na edição corrente da Foreign Affairs. Se resume a uma idéia básica: o governo Chávez está agravando a pobreza no país.
Um trecho:
Uma das estatísticas mais citadas [pelo governo de Hugo Chávez] é o declínio da pobreza de um pico de 54% no auge da greve geral de 2003 para 27,5% na primeira metade de 2007. Embora a mudança impressione, também é conhecido o fato de que a pobreza diminui quando há crescimento econômico. O PIB per capita da Venezuela cresceu em 50% neste mesmo período graças, principalmente, ao fato de que o preço do petróleo triplicou. A questão, no caso, não é se a pobreza diminuiu mas se o governo foi eficiente na conversão deste período de crescimento econômico em redução de pobreza.
Uma das maneiras de avaliar é comparar a redução de pobreza com cada aumento percentual da renda per capita. É o que nós economistas chamamos de elasticidade da renda na redução de pobreza. O cálculo mostra que para cada ponto percentual do aumento do PIB per capita houve a redução de um ponto percentual da pobreza. Esta razão não se compara bem com a de outros países em desenvolvimento, no quais costuma estar por volta de 2 para 1.
Da mesma forma, seria esperado que o crescimento econômico dos mais pobres viria acompanhado de uma redução da desigualdade de renda. Mas, de acordo com o próprio Banco Central Venezuelano, a desigualdade aumentou durante o governo Chávez, com o coeficiente de Gini (que mede desigualdade e onde zero é o ideal) tendo subido de 0,44 em 2000 para 0,48 em 2005.
É evidente que estatísticas a respeito de pobreza e desigualdade contam apenas parte da história. Há muitos aspectos a respeito do bem-estar dos pobres que não são percebidos pelas estatísticas de renda e é aí que o governo Chávez diz ter feito mais sucesso: através de suas misiones, que concentraram dinheiro para prover saúde, educação e outros serviços públicos básicos diretamente às comunidades mais pobres. Mas, sempre usando estatísticas oficiais, não há sinais de melhora de vida dos venezuelanos comuns. Em alguns casos, a piora é preocupante. O percentual de bebês subnutridos, por exemplo, saiu de 8,4% para 9,1% entre 1999 e 2006. O percentual de casas sem acesso a água corrente saiu de 7,2% para 9,4%. O de famílias que vivem em casas com chão de terra quase triplicou, de 2,5% para 6,8%.
Na Venezuela, as misiones estão por toda parte: nos pôsteres do governo, nas camisetas vermelhas usadas em passeatas, nas gordas alocações de verba governamental. O único lugar no qual é difícil encontrá-las é nas estatísticas de desenvolvimento humano.
Atualização – O Center for Economic and Policy Research publicou uma resposta ao artigo de Rodríguez. Questiona os números citados por ele na escala Gini e apresenta outros; indica que os gastos per capita com a pobreza cresceram 314% entre 1998 e 2006; e diz que dados estatísticos como o número de casas com chão de terra e a subnutrição de bebês, embora corretos, são anomalias num bojo de estatísticas que indicam, em sua maioria, melhorias nas condições de vida da população. dica do Dino, nos comentários
Atualização 2 – Rodríguez e sua tréplica (link em PDF): ‘Weisbrot infla a estimativa de gastos sociais incluindo o gasto com grandes obras de infra-estrutura, refinanciamento da dívida e até gastos militares; seus dados a respeito de desigualdade são distorcidos pela inexplicável exclusão das famílias que não receberam qualquer salário.’ dica do Bruno Mota, nos comentários