Hugo Chávez e a pobreza que
aumenta na Venezuela

Venezuela · 2/04/2008 - 11h13 - 184 Comentários

Francisco Rodríguez, um economista formado nos EUA, foi deputado federal da base de apoio de Hugo Chávez no início de seu primeiro mandato. Na Assembléia Nacional, serviu como economista-chefe, e tinha a responsabilidade de acompanhar os números do país. O governo não gostou daquilo que Rodríguez dizia e seu cargo terminou extinto. Aquilo que viu está publicado num artigo na edição corrente da Foreign Affairs. Se resume a uma idéia básica: o governo Chávez está agravando a pobreza no país.

Um trecho:

Uma das estatísticas mais citadas [pelo governo de Hugo Chávez] é o declínio da pobreza de um pico de 54% no auge da greve geral de 2003 para 27,5% na primeira metade de 2007. Embora a mudança impressione, também é conhecido o fato de que a pobreza diminui quando há crescimento econômico. O PIB per capita da Venezuela cresceu em 50% neste mesmo período graças, principalmente, ao fato de que o preço do petróleo triplicou. A questão, no caso, não é se a pobreza diminuiu mas se o governo foi eficiente na conversão deste período de crescimento econômico em redução de pobreza.

Uma das maneiras de avaliar é comparar a redução de pobreza com cada aumento percentual da renda per capita. É o que nós economistas chamamos de elasticidade da renda na redução de pobreza. O cálculo mostra que para cada ponto percentual do aumento do PIB per capita houve a redução de um ponto percentual da pobreza. Esta razão não se compara bem com a de outros países em desenvolvimento, no quais costuma estar por volta de 2 para 1.

Da mesma forma, seria esperado que o crescimento econômico dos mais pobres viria acompanhado de uma redução da desigualdade de renda. Mas, de acordo com o próprio Banco Central Venezuelano, a desigualdade aumentou durante o governo Chávez, com o coeficiente de Gini (que mede desigualdade e onde zero é o ideal) tendo subido de 0,44 em 2000 para 0,48 em 2005.

É evidente que estatísticas a respeito de pobreza e desigualdade contam apenas parte da história. Há muitos aspectos a respeito do bem-estar dos pobres que não são percebidos pelas estatísticas de renda e é aí que o governo Chávez diz ter feito mais sucesso: através de suas misiones, que concentraram dinheiro para prover saúde, educação e outros serviços públicos básicos diretamente às comunidades mais pobres. Mas, sempre usando estatísticas oficiais, não há sinais de melhora de vida dos venezuelanos comuns. Em alguns casos, a piora é preocupante. O percentual de bebês subnutridos, por exemplo, saiu de 8,4% para 9,1% entre 1999 e 2006. O percentual de casas sem acesso a água corrente saiu de 7,2% para 9,4%. O de famílias que vivem em casas com chão de terra quase triplicou, de 2,5% para 6,8%.

Na Venezuela, as misiones estão por toda parte: nos pôsteres do governo, nas camisetas vermelhas usadas em passeatas, nas gordas alocações de verba governamental. O único lugar no qual é difícil encontrá-las é nas estatísticas de desenvolvimento humano.

Atualização – O Center for Economic and Policy Research publicou uma resposta ao artigo de Rodríguez. Questiona os números citados por ele na escala Gini e apresenta outros; indica que os gastos per capita com a pobreza cresceram 314% entre 1998 e 2006; e diz que dados estatísticos como o número de casas com chão de terra e a subnutrição de bebês, embora corretos, são anomalias num bojo de estatísticas que indicam, em sua maioria, melhorias nas condições de vida da população. dica do Dino, nos comentários

Atualização 2 – Rodríguez e sua tréplica (link em PDF): ‘Weisbrot infla a estimativa de gastos sociais incluindo o gasto com grandes obras de infra-estrutura, refinanciamento da dívida e até gastos militares; seus dados a respeito de desigualdade são distorcidos pela inexplicável exclusão das famílias que não receberam qualquer salário.’ dica do Bruno Mota, nos comentários

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