Publicado em March 2008
Hoje, blogs em todo o Brasil estarão publicando posts na corrente ‘blogagem inédita‘, lançada por Edney Souza. Inédito, nesta definição, quer dizer que a informação terá sido apurada pelos blogueiros por conta própria. Farão um trabalho jornalístico, não o mero repasse daquilo que está noutros cantos da Internet ou da imprensa.
Apurar informação não é difícil: basta ter uma dúvida, ir a quem sabe responder, perguntar e repassar a informação. Blogs têm condições de fazer impacto no cotidiano brasileiro. Para isso, no entanto, é preciso vontade de participar do diálogo.
É isto que fazem os veículos de comunicação: criam comunidades amplas de leitores. Quando selecionam aquilo que julgam importante esclarecer ou trazer à tona, deixam marcas e influenciam as conversas. É este trabalho que torna a democracia possível. Ela precisa de fontes amplas e inusitadas de informação sobre tantos assuntos quanto possível. E é neste serviço que uma boa trupe está se engajando hoje.
Cá este Weblog dá as boas vindas aos novos jornalistas da Internet brasileira.
Atualização – O Edney publicou uma lista dos posts inéditos.
Tags: Blogosfera · Mídia
Tags: Moças
Que protestos tibetanos eram esperados às vésperas das Olimpíadas de Beijing, não há dúvidas. Do governo chinês aos diplomatas estrangeiros, todos estavam esperando. Ted Plafker, correspondente da revista britânica The Economist era o único jornalista estrangeiro em Lhasa quando as manifestações tiveram início:
Vi grupos de pessoas jogando blocos de concreto contra várias lojas que pertencem a chineses no velho setor tibetano da cidade. Os próprios chineses, sempre que um era encontrado, não escapavam das pedras – um menino numa bicicleta, taxistas e mesmo um motorista de ônibus. A maioria dos chineses deixaram a região tão rápido quanto puderam, fechando suas lojas.
As passeatas pela cidade foram sendo formadas, pequenos grupos de jovens (alguns armados com espadas tibetanas tradicionais) aqui, grandes grupos de algumas dúzias incluindo mulheres e crianças ali, que foram circulando pelos becos estreitos do bairro. Jogavam coisas contra as portas das lojas, invadiam-nas e pegavam o que podiam, de pedaços de carne a botijões de gás e roupas. Alguns dos produtos eles levavam consigo – vi crianças saqueando uma loja de brinquedos – mas a maioria das coisas eram jogadas no meio da rua e incendiadas.
Após algumas horas, havia fogueiras altas pelas ruas de toda a cidade. Alguns prédios também pegaram fogo. Uma trilha de fumaça escureceu Lhasa, escondendo o antigo Potala – o mais famoso monumento da capital, que ocupa um monte sobre a cidade. É o tradicional palácio de inverno do Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, que viajou para o exílio na Índia após uma tentativa de levante, em 1959. Alguns dos manifestantes gritavam slogans como ‘longa vida ao Tibete’ e ‘longa vida ao Dalai Lama’.
Faz dois anos que abriu a principal linha de trem da China para o Tibete. Com a facilidade do transporte, vieram os chineses, com mais dinheiro, abrir negócios. É a política de Beijing: povoar o Tibete com gente de etnia chinesa para dissolver a população local. Com o trem, o dinheiro e os novos negócios, veio o turismo interno. Lhasa vive cheia de chineses. Com o trem, o dinheiro, os novos negócios e o turismo, entre chineses, a vida vai bem; não entre tibetanos, que dos novos tempos só sentiram o aumento do custo de vida. Para eles, a vida vai mal.
Nas contas da imprensa estrangeira são mais de 100 mortos. E os tanques estão chegando.
O governo chinês não tem como ganhar. Se não enviar o exército, perderá o controle da situação. O tumulto aumentará. Os chineses em Lhasa terminarão por ser expulsos. Um novo episódio como o da Praça da Paz Celestial ocorrerá. Se enviar o exército – e esta parece ter sido mesmo sua opção – um banho de sangue está ameaçado. Daí, o movimento levantado por aqueles que protestam contra a posição chinesa perante o genocídio em Darfur pode ganhar forças. Um boicote em grande escala às Olimpíadas terá sérias conseqüências para a China. Dependendo de como o país agir, o risco é presente.
E daí a sinuca de bico: a China tem que interferir. Se não interfere, todas as minorias étnicas em seu território, várias pequenas crises eternamente abafadas, perigam estourar.
Tags: China
O roteiro tinha a sinopse conceitual. Tinha que ter um garoto, uma supergata, e eles viviam de biscate. Foi quando o Kadu foi chamado pra fazer uma novela das oito e marcou uma reunião com o Boni. Ele não tava a fim do papel, queria mais que nossa idéia desse certo. Eu disse: cara, quando abrir a porta do Boni, eu entro atrás e a gente fala o projeto. E levei uma cola numa agenda da Energia pra lembrar bem a idéia. Quando entramos na sala, ele só perguntou: o que o André tá fazendo aqui? Eu só disse que tinha um projeto pra mostrar jovem na TV, que meu filme Menino do Rio tinha dado o maior ibope. Aí ele me viu lendo a cola e tomou a agenda da minha mão. No fim estava escrito assim: se ele topar, ainda dou de gorjeta o slogan ‘entre nessa onda, entre na onda da Globo’. Ele me olhou com uma cara bizarra. Aí eu contei a história do Butch Cassidy, que eu sabia fazer. Aí ele me ofereceu para entrar na novela Partido alto, com o Kadu, e passar um ano no Havaí preparando a idéia da série.
Foi uma doideira. Mas o projeto que estava sendo escrito era muito infantil. O grande problema é sempre o roteirista. Ninguém sabia escrever como o jovem fala. A coisa estava totalmente artificial. E, como o texto estava ruim, eu acabei convencendo o Daniel Filho de que tinha que chamar o Calmon. No fim das contas, ele e o Daniel ficaram amigos pra caramba, ele deu um jeito no roteiro, e gravamos o primeiro programa. Lembro que no dia seguinte eu fui na praia e todo mundo aplaudiu. O Armação ilimitada foi uma criação coletiva que abriu portas para muita coisa.
A vida era muito mais romântica. As gatas tu tinha que conquistar, as mulheres eram diferentes. Usar drogas tinha um conceito diferente. As músicas eram mais ricas. Hoje é tudo muito mega, muito comercial, com uma batida forte. Eu acho mesmo que tinha uma coisa mais simples, no Rio de Janeiro pelo menos. Tem a ver com a perda do sonho. Hoje em dia não se sonha tanto. Tudo parecia mais ingênuo. Pensa no funk que toca hoje na rua. Nas letras, na batida, na violência. Mesmo a polícia era mais light até o fim dos anos 80. Era uma coisa muito mais ingênua. Acho que a violência em todos os níveis começou a crescer com a droga. Foi a cocaína que mudou e acabou com o Rio de Janeiro. Nos anos 90 a coisa piorou mesmo. E tem o descaso da política em deixar isso tomar o nível que tomou. Deixaram as favelas e o tráfico crescerem sem limites.
André de Biase
Tags: Gente · TV
…nesta madrugada de trabalho, neste fim de semana de trabalho.
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Em meus primeiros anos de Internet, um dos sites que eu curtia freqüentar era 0sil8. Naquele tempo de há muito, o design de web às vezes era ousado, diferente. Tudo servia à experimentação.
Jason Kottke fazia dessas coisas.
Em 14 de março de 1998, ele levou ao ar kottke.org. Aos 10 anos é um dos blogs mais antigos ainda em operação.
Tags: Blogosfera
No dia 14 de março de 1883, o filósofo prussiano Karl Heinrich Marx morreu após 14 meses de gripe que evoluíram para uma pneumonia. Há 125 anos, hoje.
(O Ricardo Cabral mui gentilmente lembrou-me da data.)
Há alguns meses, entrevistei para o caderno Aliás, Estadão, o professor sueco Goran Therborn, atual ocupante da cátedra de Sociologia da Universidade de Cambridge. Este é um trecho que não saiu publicado:
O senhor é marxista?
Não creio que marxismo faça mais sentido em nosso século. Eu poderia ser chamado de um marxiano. Marx pode ser uma fonte de inspiração importante para as ciências sociais, respeitando a idéia de que emancipação virá com o esforço dos explorados, não dos exploradores. Mas os parâmetros políticos são diferentes, hoje, do que eram nos séculos 19 e 20.
O que mudou?
A luta de classes não é mais o grande catalisador de mudanças sociais. Há outras forças no cenário atual além dos sindicatos. Por muito tempo, este conflito definiu a política. Na visão de Marx, a dinâmica do capitalismo levaria a uma classe trabalhadora cada vez maior e mais forte. Para isso ocorrer, seria necessário o surgimento de grandes corporações que empregassem essas massas. Durante o século 20, empresas para fornecimento de água, luz, transporte e tantos outros serviços nasceram em mãos privadas e foram lentamente sendo nacionalizadas ou municipalizadas, formando uma estrutura estatal que servia às nações e produzia uma grande classe sindicalizada. A partir das privatizações e inovações tecnológicas, essa dinâmica deixou de existir. A economia está mais complexa.
Tags: História
Os iranianos estão deixando suas casas, hoje, para votar. Em jogo estão as cadeiras na Majlis, o parlamento do país, órgão que além de legislar tem a função de sancionar acordos internacionais. Tem algum poder, mas não muito: o Conselho dos Guardiões, que não é eleito, misto de Senado e Supremo Tribunal, é que sanciona qualquer lei proposta pela Majlis.
Ainda assim, a eleição é importante. Os candidatos reformistas foram cassados – isto inclui até netos do falecido aiatolá Ruhollah Khomeini – mas o movimento reformista, liderado pelo ex-presidente Mohammad Khatami está incentivando seus eleitores a votarem assim mesmo. Se a eleição terminar por parecer uma derrota do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o impacto político interno será grande.
Os olhares estão voltados para um trio: Ali Larijani, que foi negociador em nome do Irã da questão nuclear, Mohsen Rezaii, ex-comandante da Guarda Revolucionária e Muhammad Qalibaf, atual prefeito de Teerã. A Economist os descreve como a ‘linha dura pragmática‘.
A política iraniana é um jogo sutil no qual o voto útil tem um papel mais importante do que nas democracias reais. O aiatolá Ali Khamenei apóia o presidente Ahmadinejad mas, além de líder religioso, é também um homem político atento aos recados do povo.
Qalibaf, que sucedeu Ahmadinejad na prefeitura da capital, pretende concorrer contra ele na disputa pela presidência em dois anos. Para ter chances, tem que ser bem votado agora. Se o grupo adversário de Ahmadinejad vencer mais cadeiras do que ele, gabaritando Qalibaf, Khamenei perceberá que é hora de deixar seu atual protegido.
Com os reformistas de fora, estes são os líderes conservadores que sobraram. A linha dura pragmática pode não representar o grupo dos sonhos de um bom naco da classe média urbana iraniana, mas sua eleição pode ser o início do fim de um governo Ahmadinejad. Sua derrota, por outro lado, fortalece o atual presidente. Não é à toa que ele passou as últimas semanas circulando pelo interior do país em campanha.
Há muito dinheiro petroleiro circulando no Irã mas, ainda assim, a inflação é alta e a condução da economia desastrosa. É o ponto fraco de Ahmadinejad perante os mais pobres no interior rural, embora estes sejam ainda seus eleitores mais fiéis.
E o que esperar de um futuro governo Qalibaf? As ambições nucleares iranianas permanecem. Mas a retórica anti-Israel vai embora.
Tags: Irã
Não estava nos planos deste Weblog se deter em mais um escândalo sexual da política norte-americana mas é preciso dizer: a moça de 4.300 dólares de sua Excelência o ex-governador de Nova York é uma graça. E, apenas na web, por 98 centavos de dólar é possível levar para casa uma música cantada por ela. (Um clique no play para ouvir trecho é de graça.)
Tags: EUA · Sexo
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Existem algumas maneiras de me acompanhar e ao Weblog além das visitas diárias cá a este endereço: Twitter, Orkut, Facebook, LinkedIn e pelos feeds de RSS.
Tags: Administrativas
Quais as reais chances de John McCain chegar à presidência? É verdade, como muitos vêm dizendo, que os democratas têm uma crise interna com a qual lidar. Mas esta ainda é uma eleição muito – muito difícil mesmo – para John McCain. Para entender por que é preciso, antes, compreender como McCain chegou à candidatura republicana.
Não foi com o típico voto republicano. Estado por estado, quando muito, McCain empatava com outros candidatos de seu partido entre os eleitores que são favoráveis a George W. Bush. Mitt Romney e Mike Huckabee, cada um em sua área, atraíam mais votos pró-Bush e pró-Guerra.
McCain jamais fez segredo de que acredita que deve manter as forças armadas no Iraque. Como diz seu biógrafo, Matt Welch, ele tem uma visão imperialista do papel dos EUA no mundo. Ainda assim, o naco do eleitorado que o levou à vitória são os eleitores anti-Bush e anti-Guerra – um grupo no qual ganhou sempre de 2 para 1. Não custa lembrar 70% dos eleitores norte-americanos são contra a guerra no Iraque. Também não custa lembrar que, nos estados em que a trupe anti-guerra é minoria, McCain perdeu.
Por que John McCain recebeu este tipo de voto? Por conta da memória da campanha de 2000. Naquele ano, ele foi o principal adversário de George W. Bush pela candidatura à presidência do Partido Republicano. McCain representa, para este tipo de eleitor, tudo o que Bush não foi. Mas há um limite para a manutenção desta imagem.
Enquanto o Partido Democrata luta para conseguir definir seu candidato, o que faz John McCain? Vai à Casa Branca ser recebido por George W. Bush. Vai ao sul aceitar o apoio de líderes religiosos e grupos ultra-conservadores. E, agora, prepara uma viagem ao Iraque. Quer coletar imagens com ar presidencial no cenário de guerra.
É possível argumentar com justiça que, sem o voto do típico eleitor de Bush, ele não terá chances de vitória. Mas a estratégia que adotou para alcançar este voto aliena justamente os eleitores que tem neste momento. Mais que isso: vai contra os desejos da maioria dos norte-americanos.
A divisão interna do Partido Democrata favorece em muito a situação de John McCain. Sua estratégia de campanha, não. Se é para fazer uma aposta, o próximo presidente norte-americano será um (ou uma) democrata.
Tags: EUA
100% de todos os presidentes norte-americanos foram homens brancos;
38 dos 43 presidentes tinham olhos azuis ou verdes.
Dos cinco com olhos castanhos, dois sofreram processos de impeachment e os outros três não alcançaram um segundo mandato.
Apenas 20% da população norte-americana tem olhos claros.
Tags: EUA · História
Numa quinta, e por que não?
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Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)
Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.
A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.
Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.
Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.
Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.
Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.
Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.
Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.
O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.
Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.
Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.
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Os ventos da campanha norte-americana parecem ter virado de um dia para o outro – e não foi por conta da vitória acachapante (porém esperada) de Barack Obama no Mississippi. A questão do racismo voltou à tona.
A responsável é Geraldine Ferraro, uma democrata histórica, importante, candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Walter Mondale e derrotada, em 1984, por Ronald Reagan. Ferraro, que apóia Clinton, vem batendo na tecla de que Obama só está onde está nas pesquisas porque é negro. Ontem, argumentou na tevê que só estão a chamando de racista porque ela é branca.
A campanha de Obama cobrou da campanha de Clinton que afaste a senhora Ferraro do comitê financeiro, onde ocupa um cargo simbólico. Cobrou que renegasse publicamente os comentários que explicitamente incitam a polarização racial na eleição. Mrs. Ferraro não foi afastada, tampouco a equipe de Clinton renego suas falas.
Por duas vezes nas últimas semanas, cobrou-se de Obama posições equivalentes. Na primeira, durante um debate, Hillary questionou o fato de Obama não rejeitar o apoio do ministro Louis Farrakhan, líder da Nação do Islã, um grupo religioso negro norte-americano de discurso racista. Obama não titubeou e o rejeitou. Na segunda vez, semana passada, após uma de uma de suas principais assessoras chamar Hillary de ‘monstro’, a campanha adversária pediu-lhe a cabeça numa bandeja. Foi devidamente entregue.
Campanhas são cruéis, muitas vezes. Hillary se recusou a tomar posição a respeito dos comentários que vêm sendo caracterizados de racistas. É só do que se fala na imprensa, incluindo tevê, internet e impressos. Não é pouco, dado que também está no cardápio noticioso uma história que envolve sexo, prostitutas e o governador de Nova York – assunto que ouriça meus companheiros de profissão norte-americanos.
Campanhas são cruéis mas também pragmáticas, embora muitas vezes flertem com desvios éticos. A imprensa está convencida de que os comentários de Ferraro são racistas mas isto não quer dizer que o público não concorde com eles. Na Pensilvânia, que o estado mais importante por sobrar, há uma razoável quantidade de negros mas também um histórico de racismo entre brancos. Racismo, ainda que indireto, pode contar pontos.
Ou pode não. Quando Bill Clinton esboçou um comentário racista, veio na seqüência uma vitória violenta de Obama na Carolina do Sul. Lá, os negros votaram em massa para ele. Os brancos, também.
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Por conta de nossa discussão na semana passada, Idelber Avelar me convidou para um debate a respeito de The Ethnic Cleansing of Palestine (ou na Amazon UK, ou na edição francesa, ou a edição norte-americana via Submarino) – A limpeza étnica da Palestina – escrito pelo historiador israelense Ilan Pappé. Em seu blog, Idelber apresenta Pappé com adjetivos generosos.
Fundador do Partido Comunista de Israel, Pappé é parte de uma grande geração de novos historiadores israelenses que encararou de frente a história oficial para tentar descobrir o que exatamente aconteceu nas décadas anteriores à fundação de Israel e nos anos seguintes à criação do país.
Todos estão convidados a ler o livro e participar da conversa, numa série de posts e comentários publicados em 9 de junho, segunda-feira. Dá tempo para a Amazon entregar o livro e um tanto para a leitura.
Argumentos não nascem no ar e não é possível questionar o que Pappé diz sem contrapor com as descobertas e interpretações dos mesmos eventos de outros historiadores e analistas. Por isso, ao meu lado terei outros dois livros: The Birth of the Palestinian Refugee Problem (na Amazon UK, a edição inglesa via Livraria Cultura, mais barato comprar nos EUA) – O berço do problema dos refugiados palestinos, de Benny Morris – e The Case for Israel (na edição brasileira, na Amazon UK, em francês) – Uma defesa de Israel, de Alan Dershowitz.
Morris é um historiador da mesma geração de Pappé, de centro-esquerda, extremamente crítico da lida com a questão palestina. Mas não é contra Israel como seu colega.
Alan Dershowitz é professor de direito de Harvard, polemista, difícil de encaixar no espectro ideológico. De direita, a maioria das vezes, mas um defensor contumaz da pornografia e crítico freqüente do direito do cidadão de se armar.
Assim como Pappé, que hoje é professor da tradicional universidade britânica de Exeter, os outros dois têm um currículo acadêmico irretocável, trabalharam e estudaram em universidades de alto nível. Este é um dos critérios que determinaram estas escolhas. O outro é que representam facetas distintas do espectro ideológico.
Acho que esta será uma boa conversa.
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O rio Han fica na Coréia do Sul e lá aconteceu o primeiro campeonato mundial de equilíbrio no arame. Título da reportagem do Washington Post?
Skywalker in Korea Cross Han Solo.
Numa tradução literal, Aqueles que andam no ar cruzam sozinhos o Han.
A tradução, evidentemente, não tem a mínima graça.
via Jason Calacanis
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