Pedro Doria | Weblog

um pouco do mundo, todos os dias

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Publicado em March 2008

Dalai Lama: ‘independência, não;’
O Tibete quer autonomia

25/March/2008 · 61 Comentários

O que diz Tenzin Gyatso, o 14o Dalai Lama, em sua entrevista à Newsweek desta semana:

O que o senhor acha que falta para que os líderes da China reconheçam sua sinceridade? O primeiro ministro Wen Jibao quer que o senhor aceite duas condições antes de o diálogo começar. Que renuncie à independência do Tibete e que renuncie à violência.

No ano passado, em Washington, estive com alguns professores chineses e alguns me perguntaram: ‘que garantia existe de que o Tibete não vai se separar da China no futuro?’ Eu respondi que minhas declarações não vão influenciar este processo, nem minha assinatura. A única garantia é a satisfação do povo tibetano. Eles precisam sentir que é seu benefício fazer parte da China. Quando sentirem isso, esta será a maior garantia para que o Tibete faça parte para sempre da República Popular Chinesa.

O governo da China quer que eu diga que por séculos o Tibete fez parte da China. Mesmo que eu diga isso, muitos vão rir. E minha declaração não mudará a história. História é história.

Não vale falar do passado. O passado ficou no passado e não importa se o Tibete fazia parte da China ou não. Devemos olhar para o futuro. Acredito sinceramente que uma nova realidade está nascendo. Os tempos são outros. Grupos étnicos diferentes e nações diferentes se reúnem porque faz sentido. Veja a União Européia… é fantástica. De que valem países pequenos lutando um contra o outro? É muito melhor para os tibetanos que se juntem à China. É isto que acredito.

Entre 1240 e 1913, o Tibete fez parte do Império Chinês. A dinastia do primeiro Dalai Lama foi imposta pelo imperador da China em 1578. (E o terceiro Dalai Lama era um dos netos deste imperador.) A China reconquistou o Tibete entre 1950 e 51.

Nos últimos anos, o Dalai Lama não pede a independência do Tibete. Sua proposta de um ‘Tibete Livre’ é um Tibete autônomo.

Tags: China

Churchill enquanto vilão:
Recontando a Segunda Guerra

24/March/2008 · 500 Comentários

A história da Segunda Guerra Mundial foi contada e recontada. É uma história clara – a última história de uma guerra clara onde havia herói, havia vilão e a alma da humanidade estava de fato em jogo. Uma guerra com um genocídio no meio, o uso de armamento atômico contra cidades, e um continente destruído. Há algo de novo para contar a respeito da Segunda Guerra? O romancista norte-americano Nicholson Baker acha que sim.

Seu livro se chama Human Smoke: The Beginnings of World War II, the End of Civilization. Fumaça humana: o início da Segunda Guerra Mundial, o fim da civilização.

É um livro pacifista. Mesmo quem não é pacifista deveria sempre prestar atenção ao que dizem os pacifistas. No fim, eles podem estar errados. Mas são eles que têm em mente os custos de uma guerra.

O livro evita adjetivos. Nada é heróico, nada é infame. Ele lista fatos colecionados em diários, jornais, revistas e memórias de época. Os fatos, às vezes anedotas, às vezes pequenos detalhes, compõem um mosaico que serve à ilustração do clima imediatamente anterior à Guerra. Um trecho da resenha publicada na New York Magazine:

O objetivo de livros de guerra é, naturalmente, chocar. Mas esta é uma característica particular do livro de Nicholson Baker, que traz consigo um pesado fardo revisionista. Fica claro de imediato que ele não é um curador de factóides: é um pacifista virulento. O espírito de Gandhi permeia todas as páginas de Human Smoke. Página após página ele repete a mensagem de que violência – até mesmo ‘boa’ violência – sempre distorce as intenções iniciais, aumenta o sofrimento, faz circular o mal. Nas anedotas relatadas por Baker, até os políticos mais admirados se mostram hipócritas da pior qualidade que todo argumento usam em nome da guerra. O retrato mais controverso é o de Winston Churchill, que aparece como um anti-semita beligerante, um supervilão alcoólatra. Churchill manipula a imprensa, aprisiona refugiados, recusa a paz sempre que pode, é um assassino que conta piadas de péssimo gosto: ‘vocês podem querer matar mulheres e crianças… eu, não; meu lema é o trabalho antes do prazer’. Churchill recusa alimento a uma Europa famita porque os alemães podem usá-lo como armas – ‘o material plástico usado para os aviões deles é derivado de leite’. O premiê britânico enfeita assassinatos em massa com aliterações retóricas – ‘Não conversaremos, não faremos tréguas com a gangue que leva suas intenções do mal; eles farão seu pior e, nós, o nosso melhor.’

Recentemente, Baker disse que o tom austero de seu livro era, em parte, uma reação à retórica de Churchill. Diz o escritor: ‘A eloqüência interminável de Churchill ao longo da guerra me fez abandonar o uso de adjetivos.’ Ele escreve em Human Smoke: ‘Bombardear, para Churchill, era uma forma de pedagogia, uma maneira de mostrar aos moradores de uma cidade em primeira mão o inferno que ocorria nos campos de batalha.’

É uma guerra na qual os mocinhos produziram Dresden, Hiroshima, Nagasaki; uma guerra na qual, alguns historiadores afirmam, os aliados poderiam ter impedido o Holocausto mas não o fizeram para não distrair dos esforços táticos que a estratégia exigia. Mas não deixa de ser surpreendente a lenta transformação de Churchill em vilão. Num dos homens responsáveis pelo abandono da civilização.

No New York Times, a resenha é assinada por Colm Tóibín, gênio da literatura escocesa, eterno candidato ao Nobel. É Tóibín quem escreve:

Os personagens principais do livro são Churchill e Franklin Roosevelt; membros do movimento pacifista incluindo Gandhi; Hitler e sua laia; os autores de diários Victon Klemperer, em Dresden, e Mihail Sebastian, em Bucareste. Mas, muitas vezes, são fatos muito simples que nos abalam na leitura, fatos muito claros como este, bem no início do livro: ‘A Força Aérea Britânica jogou mais de 150 toneladas de bombas sobre a Índia. Isto foi em 1925.’ Isto vem logo após alguém levantar a idéia de bombardear alvos civis no Iraque, em 1920, ao que Churchill escreve: ’sou plenamente a favor de usar gás letal contra tribos incivilizadas’. Este é o tema do livro que Baker, que vai costurando histórias assim entre 1920 e 1942. Para ele, o bombardeamento de aldeias e cidades por aviões é o ‘fim da civilização’. […]

O problema, diz Baker, é que os bombardeamentos serviram à morte em massa da população civil mas os sobreviventes não culpavam a liderança nazista; estes, por sua vez, usavam os bombardeios como desculpa para infligir mais sofrimento à população judaica sugerindo, por exemplo, que expulsar judeus de suas casas era ‘justificado para oferecer teto aos arianos cujas casas foram destruídas’. Já em 1941, um dos ministros de Churchill escreveria: ‘Bombardeios NÃO afetam a moral alemã: vamos enfiar isto na cabeça e parar de gastar nossa artilharia nisto.’

Foi assim, no entanto, que a guerra foi conduzida até o fim.

Tags: História · Livros

Open thread

24/March/2008 · 402 Comentários

Para que a semana enfim comece.

Tags: Open thread

Uma moça às segundas

24/March/2008 · 81 Comentários

Anya

Tags: Moças

Na Rádio Eldorado, hoje

23/March/2008 · 65 Comentários

Quem estiver na área abarcada pela Rádio Eldorado FM pode sintonizar, hoje, às 21h. É quando começa o Link, programa semanal de música e tecnologia no qual sou comentarista.

Nesta edição de Páscoa a programação musical toda vai por conta deste blogueiro.

Tags: Administrativas

Uma entrevista aos sábados

22/March/2008 · 75 Comentários

Tags: EUA · Gente

Open thread de sábado

22/March/2008 · 342 Comentários

Simbora.

Tags: Open thread

A China como ela se vê 3: Hegemonia mundial

21/March/2008 · 46 Comentários

Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil – está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.

Este é o terceiro e último post baseado no artigo de Mark Leonard na Prospect. Leonard é autor de What does China think?, à venda na Amazon dos EUA e do Reino Unido. O assunto de hoje é a relação da China com o resto do mundo.

Hoje, o pensamento hegemônico – embora não unitário – na China passa ao largo das opiniões de Yi. A palavra de ordem é quanli, equivalente ao soft power norte-americano. A diplomacia do país busca ações que vendam a idéia do ’sonho chinês’ em oposição ao americano. Daí que, enquanto os EUA falam de mudança de regime pelo mundo, Beijing defende o respeito à soberania dos países. A mensagem que querem passar é que a China representa crescimento econômico, soberania política e respeito às leis internacionais. A idéia é: a China ouve outros países. E é esta China que aceita o papel de mediadora em conversas com a Coréia do Norte ou o Irã.

Este é um ponto de vista particularmente defendido pela ‘nova esquerda’ do país. Gente como Yi representa o equivalente aos neo-conservadores e estes recorrem aos antigos pensadores da terra propondo um novo projeto. Há, dizem eles, dois tipos de influência. Wang é a influência do rei. O rei lança uma influência benigna ao longe; no outro lado está Ba, o ’senhor feudal’. Ele impõe pela força seu comando. Na antiguidade, propõem Yi e Yan Xuetong, a China aplicava tanto um quanto o outro. Para os vizinhos imediatos, Ba; para os países mais distantes, Wang.

Por enquanto, a China está empenhada em parecer conciliadora. Enquanto a Rússia não perde uma chance de provocar os EUA, a China se desvencilha de conflitos. Quando, na ONU, o Conselho de Segurança estava embrenhado na questão de ir ou não à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, os chineses se calaram, permitindo aos russos e franceses que vocalizassem a oposição. Na questão dos direitos humanos, a China permitiu que os países muçulmanos se levantassem contra regras mais rígidas. Conseguiu o resultado que queria sem se expor ao desgaste. O resultado desta política é o seguinte: Em 1995, os EUA venceram 50,6% das votações na Assembléia Geral da ONU; em 2006, apenas 23,5% delas. George W. Bush não ajuda, evidentemente. Mas para aproveitar a fraqueza do inimigo carece esperteza. Em 95, a China venceu 43% das votações; em 2006, 82%.

Habilidade no jogo diplomático não quer dizer que a China vença o jogo de percepção – e este é o centro do argumento do almirante Yi. Ao promover o respeito à soberania de todas as nações, o cada um faz o que achar melhor, lava cinicamente as mãos perante o genocídio de Darfur, no Sudão.

A África é muito importante para a China. Em 2007, o país criou uma Zona de Economia Especial que engloba o continente. Seu modelo de crescimento está sendo implantado em vários bolsões pelo continente. Com o dinheiro chinês, a África dá as costas para o FMI e o velho sistema internacional. Tem crescido a partir de investimentos maciços. Estradas de ferro e indústrias, obras de infra-estrutura, surgem onde antes só havia miséria. O agrado à África dá de volta à China petróleo, produtos, influência. Não vem sem custo: a impressão de que há um imperialismo em curso e, principalmente, de que a China não liga para as piores aberrações. À China, tudo vale.

Não é que com os EUA seja diferente. Apenas que o almirante Yi está certo. No jogo de percepções, ainda há um longo caminho a percorrer. A crise da última semana, no Tibete, só mostra duas coisas: o fato de ser uma ditadura e, portanto, simplesmente ignorar as questões de direitos humanos persistem sendo o maior obstáculo ao ingresso da China no universo das superpotências.

Tags: China

Open thread da Semana Santa

20/March/2008 · 409 Comentários

Para quem se mantém online mesmo no feriado.

Tags: Open thread

O Brasil como ele é

20/March/2008 · 514 Comentários

Às vezes, a conversa política fica difícil. Não era assim, passou a ser. Polarização não me incomoda pessoalmente. Mas polarização artificial, polarização inventada onde ela não existe, sim. E parte do público politizado, interessado em política, está sendo usado como massa de manobra.

Não há diferenças entre os planos de governo do PT e do PSDB. Ambos apostam na mesma política monetária. Ambos têm a mesma política social baseada em bolsas de renda mínima com contrapartidas. Ambos têm a mesma falta de projeto futuro para o Brasil.

Do ponto de vista de projeto de governo, a diferença entre PSDB e PT é mais ou menos como a diferença entre Hillary e Obama. Ou seja: quase nenhuma, de filigranas. Representam ambos, no Brasil, o mesmo que o New Labour inglês de Tony Blair representa, o que os New Democrats de Bill Clinton representaram. São as mesmas idéias.

PT e PSDB têm diferenças de história. Em seus núcleos duros, um dos partidos tem base sindical e o outro na elite de centro-esquerda paulista. Coisa equivalente existe dentro do Partido Democrata norte-americano. Há os democratas da Nova Inglaterra e há o poder interno das Unions. Não faz qualquer sentido que PSDB e PT sejam partidos diferentes. Mas são. Acaso o Brasil fosse lógico, faria sentido uma aliança PT-PSDB no governo e uma oposição DEM-PL. Ou vice-versa. Mas a lógica nós a abandonamos faz tempo.

O que realmente separa tucanos e petistas são os projetos pessoais de poder de seus líderes. Isso não enobrece ninguém. Há ódios, raivas, cálculo, esperteza – coisas da política. E parte da imprensa ingênua ou espertamente compra isso como se fosse diferença política de fato. Nesta toada, rusgas de alguns políticos, as várias brigas internas em governos, as histórias de corrupção que ambos têm, vão sendo alimentadas. O público é iludido. Usa-se a tática do inimigo externo – velha como a Sé de Braga. Para distrair o eleitor de meus problemas, que se jogue a culpa no outro, que fique bem disfarçado aquilo que realmente importa.

Enquanto isso, a imprensa tem um problema. Há uma mudança tecnológica em curso que dificulta a vida. Revistas vendem menos. A polarização, a incitação ao ódio, serve para vender revista. Serve para atrair leitores de blog. Mas que ninguém tenha dúvidas: imprensa ainda é um grande negócio que faz muita gente muito rica. E esta é uma segunda briga que rola em paralelo.

A Igreja Universal do Reino de Deus é o novo grande concorrente nesta disputa. Tem um canal de televisão que está crescendo. Terá um jornal diário. Tem um projeto político-partidário. Está mais influente na vida brasileira e quer seu espaço. Está preparada para um conflito. Do outro lado, os jogadores correntes deste mercado, nas tevês e jornais, também estão armados. Quem aumentará audiência? Quem perderá? Quem terá mais poder no final? Quem terá mais dinheiro?

Por causa da Internet, as grandes empresas de telecomunicação que emergiram da privatização de Sérgio Motta entraram no negócio da imprensa. Foi um movimento natural: a princípio, não havia nada em português na web e era preciso dar material de leitura para que as pessoas usassem o serviço. Hoje, virou negócio: há influência para exercer sobre um grande público e há dinheiro para ganhar.

A maneira como grandes negócios são conduzidos não é bonita. Há um emaranhado que envolve laços políticos, bancos, o peso que o governo tem por conta dos fundos de pensão. É muito dinheiro o que levantam as grandes telecoms. Ninguém envolvido neste jogo é inocente.

Empresas jornalísticas vivem de venda direta aos leitores e, principalmente, publicidade. O governo – qualquer governo – usa a verba que tem para beneficiar quem lhe interessa. Grupos com interesses próprios usam a imprensa para melhorar suas chances na política. Alguns veículos, em troca de gordas verbas publicitárias, se dispõem a atacar o inimigo de seu amigo. É uma máquina complexa com muitas variáveis, um jogo muitas vezes complicado de alcançar. As fidelidades de um dia no dia seguinte são outras. Mas não é jamais ideologia que está em jogo neste troca-troca de alianças e inimizades. É poder e é dinheiro.

Antonio Carlos Magalhães costumava dizer que existem três tipos de jornalista. Um quer emprego. Outro quer dinheiro. O terceiro quer notícia. Assim, ele continuava, o político que souber diferenciar pelo olho um jornalista do outro sempre se dará bem. Ele tinha toda razão: é como somos. Controlava os três grupos como um mestre.

Não existe uma guerra ideológica na imprensa brasileira. Não existe uma guerra ideológica no Brasil. Não há polarização. Finge-se uma polarização para disfarçar empresas e grupos que têm interesses. E ainda existem os mesmos três tipos de jornalistas. Diferenciar um do outro requer bom olho.

Enquanto a disputa pelo poder de fato no Brasil rola, o leitor é ludibriado com uma briga ideológica inexistente.

Tags: Brasil

A China como ela se vê 2: Direita e esquerda

20/March/2008 · 96 Comentários

Este segundo post baseado no longo ensaio assinado por Mark Leonard na Prospect trata de o que se entende por pensamento de direita e de esquerda na China. Não há de ser surpresa que, mesmo num país comunista, muito pouco muda. Leonard é autor de What does China think? – O que pensa a China? (na Amazon dos EUA e na do Reino Unido.) O terceiro e final sai amanhã.

O pai da revolução econômica chinesa é o professor Zhang Weiying. A partir de meados dos anos 80, ele desenvolveu o processo que implantou uma ‘economia de mercado’ na China. Como seu objetivo não era promover um choque de capitalismo, que poderia destruir o país, Weiying propôs que o governo continuaria a controlar os preços da maioria dos produtos enquanto que o de outros poderiam flutuar de acordo com o mercado. Durante os quinze anos seguintes, mais e mais produtos foram incluídos à cesta até que o governo já não controlava mais nada.

Perante o público, o governo continuou a chamar tudo de ‘comunismo’. Na China é assim: não importa muito como as coisas funcionam, o que importa é que tenham o nome certo. Weiying é um dos principais nomes do pensamento da ‘direita’ do Partido Comunista.

Seu projeto de permitir que os preços encontrados na feira ou na loja de eletrônicos fossem ajustados de acordo com o mercado foi possível por conta das reformas implantadas pelo sucessor de Mão Zedong, Deng Xiaoping. Foi Deng que, em 1979, permitiu à pequena cidade de Shenzen que se tornasse uma ‘zona econômica especial’. Quer dizer: o governo não regularia aquilo que os empresários locais decidissem produzir e ainda concederia generosos abatimentos nos impostos. Partiram para os produtos eletrônicos de consumo.

Deng defendia que alguma regiões deveriam enriquecer primeiro – a história do dividir o bolo depois circulava também o mundo comunista naqueles tempos. Weiying defende ainda hoje que a China precisa continuar no processo que concede mais liberdade de mercado, não menos.

Hoje em dia, no entanto, o governo já não lhe concede mais ouvidos tão generosos como fez no passado. Há uma ascensão dos intelectuais de ‘esquerda’. O principal representante deste grupo é Wang Hui, um dos líderes dos estudantes que se levantaram em 1989, na Praça da Paz Celestial. À época, como o típico revolucionário estudantil chinês, ele queria abertura plena de mercado. Mas após as tropas marcharem contra os revoltosos, Hui caiu na clandestinidade. Primeiro, por dois anos, viveu escondido no interior, onde conheceu a desigualdade e a pobreza de seu país. Depois, exilou-se nos EUA, onde estudou. Hoje, é benquisto, um dos pensadores mais influentes.

Ele pertence à ‘nova esquerda’, não aos velhos comunistas. Defende que reformas econômicas são necessárias e não tem ojeriza ao mercado. Mas acha também que, ao promover uma política econômica que valoriza apenas o crescimento desenfreado do PIB, o governo acaba por impor sofrimento a trabalhadores e meio-ambiente.

Tanto Hui quanto outros pensadores de seu grupo – Cui Zhiyuan, Hu Angang – buscam um modelo de social democracia. Num país do tamanho da China, no entanto, e com o grau de desigualdade social que ainda há, o modelo nórdico é impossível. O resultado, no entanto, é que serviços básicos de saúde no interior, por exemplo, é inexistente. Daí que cogitam a possibilidade de, nos bolsões de riqueza, cobrar (ainda que pouco) por seguros de saúde. Seus outros projetos envolvem novas leis sobre os direitos de propriedade, que dêem voz aos trabalhadores das fábricas várias. Não é que eles se tornariam sócios. Apenas que teriam voz.

Em 2005, influenciado pela ‘nova esquerda’, o presidente Hu Jintao editou o 11º Plano Qüinqüenal chinês que, pela primeira vez desde 1978, não punha como projeto prioritário o crescimento econômico. Para 2010, o objetivo do governo passou a ser a ampliação dos fundos de pensão públicos – que são minguados, hoje –, a criação do seguro desemprego, a implementação de licença maternidade e uma redução de 20% do consumo de energia. Há um enfoque também em melhorar as condições da China rural, suspendendo vários impostos pesados, melhorando as condições dos sistemas de saúde e de educação.

Na China, qualquer transformação é feita sempre com muita lentidão. Mas o governo tem consciência de que, no exterior, as condições de vida no país são vistas como selvagens. A queda à esquerda tem a ver com a percepção de que a economia de mercado ampliou a desigualdade ao mesmo tempo em que enriqueceu o país. Mas também tem a ver com a questão da imagem. Os chineses querem mais poder no mundo e, neste jogo de influência, imagem conta.

Este tema, o da crescente influência chinesa no mundo, é o tema do último post, amanhã.

Tags: China

Uma estante às quintas

20/March/2008 · 41 Comentários

Cora Rónai

Tags: Blogosfera · Estantes

Mino Carta deixa iG

19/March/2008 · 318 Comentários

Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada.

É jogo para a platéia. Faz parte.

Tags: Blogosfera

A China como ela se vê 1: Democracia

19/March/2008 · 101 Comentários

A última edição da revista britânica Prospect traz na capa um longo ensaio assinado por Mark Leonard a respeito da atual geração de pensadores chineses. O estereótipo de um país fechado às vezes complica a compreensão da China. Muitas coisas são, de fato, proibidas. Mas o regime permite que intelectuais pensem e até incentiva o debate. Acreditam que só assim idéias novas surgirão para determinar o governo, os objetivos e as estratégias da China nos próximos anos.

O resultado é que várias correntes de pensamento claramente inovadoras, embora ainda desconhecidas no Ocidente, estão surgindo. O artigo de Leonard é um resumo de seu livro que está para ser lançado, What does China think? – O que pensa a China? (na Amazon dos EUA e na do Reino Unido.) Este post, baseado no artigo, virá numa série de três a serem publicados nos próximos três dias. O primeiro trata de democracia.

Diz o senso comum ocidental que, onde chega o livre mercado, logo chega a democracia. Muitos pensadores chineses questionam a idéia – ao menos, no sentido que nós damos à palavra, de democracia liberal. Yu Keping, um professor que tende à esquerda chinesa e, hoje, é próximo ao presidente Hu Jintao, vem defendendo a posição que se tornou dominante no governo. Assim como a economia foi apenas muito lentamente sendo aberta, liberdade política deve caminhar com igual cautela. E assim como, no tempo de Deng Xioping algumas cidades da costa tiveram a permissão de fazer experimentos com um mercado livre, algumas regiões têm, hoje, a permissão de mexer com democracia.

Seguindo a idéia de Keping, não é democracia para o povo ainda. A democracia é para membros do Partido. Em algumas cidades, os membros têm direito a votar para escolher seus líderes. (E, para alguns cargos, as eleições vem se tornando concorridas, com campanha e tudo.) Parece pouco, uma democracia que virá apenas para o PC. Mas o Partido, com 70 milhões de membros, teria um eleitorado maior que o do Reino Unido e terminaria – segundo o projeto idealizado por Keping – tendo partidos internos que se digladiariam por ideais de China.

(Antes que alguém questione, há sim um movimento de direita e outro de esquerda dentro do governo da China. Se definem, assim como aqui fora, por aqueles que acreditam que as leis de mercado deve assumir as rédeas da política de Estado e os que, por outro lado, defendem que o governo deve garantir o bem estar da população em determinados setores.)

Keping quer que a democracia, o poder de voto, chegue à população apenas após um bom tempo de experimentação. Seu argumento é que onde há eleição há confusão na rua, o povo reclama, há instabilidade. Outro professor, Pan Wei, questiona suas idéias e propõe um modelo diferente. A democracia chega ao povo mas não pelo voto. Seu argumento é que em todos os países em que há democracia com livre direito ao voto, cada vez menos os eleitores têm ido às urnas e a descrença geral nos líderes é evidente. Wei e um terceiro professor, Fang Ning, estão testando numa cidade de 30 milhões de habitantes chamada Chongqing as idéias de James Fishkin, um cientista político norte-americano ligado à Universidade de Stanford.

É uma tentativa de reaplicar, com ferramentas modernas, o modelo ateniense. Um grupo de cidadãos é escolhido aleatoriamente e passam por workshops com técnicos do funcionalismo público. Eles são apresentados aos problemas da cidade, às soluções possíveis, fazem perguntas. Ao fim do processo, este grupo de cidadãos escolhe como deve ser empregado o orçamento da cidade para aquele ano. Chamam o processo de democracia deliberativa.

Numa terceira cidade, grupos de foco – como aqueles das pesquisas de opinião – são consultados a respeito daquilo que gostariam de ver resolvido na cidade.

Essencialmente, a China é tão vasta e tão populosa que o governo decidiu que pode fazer experiências até encontrar um modelo que considere ideal. Seus cientistas políticos debatem na imprensa, via Internet, nas revistas especializadas mas, além disto, têm algo que intelectuais não têm em qualquer outro país. A oportunidade de botar em teste suas idéias no campo.

Não é de forma alguma esquisito flertar com outros modelos para democracia. Há muitos problemas nas democracias ocidentais e uma certa falta de idéias e vontade de resolvê-los. Na opinião deste blogueiro, as dificuldades atuais das democracias compõem o tema mais fascinante que existe. O que chama atenção aos olhos, no caso chinês, não é a coragem de buscar novos conceitos. É o fato de que estas experiências controladas com um laboratório de cidades que realmente existem e na qual vivem pessoas de verdade só seria possível numa ditadura.

Tags: China

Paulo Henrique Amorim demitido do iG

18/March/2008 · 239 Comentários

O jornalista Paulo Henrique Amorim saiu do iG nesta terça-feira (18), após um contrato exclusivo assinado desde maio de 2006. Já na parte desta tarde, o blog do jornalista não estava no ar.

De acordo com apuração exclusiva do Portal IMPRENSA , o iG recindiu contrato com Amorim, respeitando todas as cláusulas do contrato. Segundo fontes do Portal, o blog do jornalista era ‘altamente desvantajoso para o provedor de internet, já que tinha baixa audiência e não rendia boa receita’.

A informação é do site da Revista Imprensa. Paulo Henrique Amorim tinha um salário alto no iG – bem lá para cima das dezenas de milhares de reais. Devia ser o blogueiro mais bem pago do país. Mas, para tentar imaginar os motivos de sua demissão, ninguém deve pensar apenas no valor de seu salário. Há mais aí no meio além de sua conhecida baixa audiência.

Segundo informa o blog Vi o Mundo, Paulo Henrique voltará ao ar no endereço paulohenriqueamorim.com.br.

Tags: Blogosfera · Brasil

Open thread do dia em que
Arthur C. Clarke se foi

18/March/2008 · 334 Comentários

… a semana é curta mas não pára.

Tags: Open thread

‘A Alemanha se curva perante Israel’

18/March/2008 · 256 Comentários

Estar perante vocês é uma grande honra. O Holocausto enche a nós, alemães, de vergonha. Me curvo perante as vítimas. Me curvo perante os sobreviventes e todos aqueles que os ajudaram a sobreviver.

Este ano, Israel celebra seus 60 anos. São 60 anos lutando pela paz, 60 anos da construção de um país, 60 anos absorvendo imigrantes. Como já disse mais de uma vez, a Alemanha aprova a idéia de dois Estados com fronteiras pacíficas. A nação judaica de Israel e a nação palestina de nome Palestina. Temos consciência de que isto exigirá força e concessões dolorosas. Estabilidade na região não interessa apenas a vocês. Estabilidade também afeta a Alemanha e a Europa.

Não cabe ao mundo provar que o Irã busca uma arma nuclear. É ao Irã que cabe provar que não procura. Se o Irã não aceitar isto, a Alemanha apoiará novas sanções. Se o Irã obtiver armas nucleares, as conseqüências seriam perigosas.

É aqui, neste lugar, que quero enfatizar: todo governo alemão e todo chanceler anterior a mim teve um compromisso especial, uma responsabilidade particular alemã, pela segurança de Israel. Esta responsabilidade histórica é parte da política de meu país. Isto quer dizer que para mim, como chanceler da Alemanha, não há negociação possível que comprometa a segurança de Israel.

Angela Merkel, chanceler alemã, agora há pouco, no Knesset. É a primeira governante alemã a discursar perante o parlamento de Israel.

Tags: Europa · Irã · Israel e Palestina

Britney Spears, uma revista séria
e os brasileiros que a perseguem

18/March/2008 · 154 Comentários

atlantic_britney.jpg

Britney Spears está na capa da Atlantic Monthly. A maioria dos leitores, passando assim pela banca de jornal impunes, talvez nem o percebam. Os leitores da Atlantic, no entanto, que lembram sempre dos 150 anos da revista que publicou gente do quilate de Mark Twain para cima, sempre as melhores mentes, ficaram chocados.

Quando a Atlantic põe Britney Spears na capa parecendo assim querer vender revista mais fácil, é porque o mundo se perdeu de vez.

Mas é uma baita reportagem a que está lá dentro. Não sobre Britney, diga-se, mas sobre a turba cujo trabalho é segui-la 24 horas por dia. Sobre a cultura de paparazzi e como ela surgiu em Los Angeles. E também sobre como ela é dominada por brasileiros.

Sim.

Britney raspando a cabeça, Britney atacando um fotógrafo, Britney deixando o carro sem calcinha – todos os momentos do lento processo de loucura de Britney Spears foram registrados por brasileiros que têm por chefe um francês: François Navarre, o fotógrafo que chegou em Los Angeles em 1992 para cobrir o levante dos subúrbios negros após o espancamento de Rodney King para o prestigioso Le Monde.

Navarre tentou viver como fotógrafo na cidade. Por mais que fotografasse gangues, não vendia uma foto. Hoje é dono da X17, a agência de notícias que emplaca nove em cada dez fotos nas capas dos tablóides. Hoje, a X17 contrata algo entre 60 e 70 fotógrafos que ganham algo como 800 e 3.000 dólares por semana.

É fim da tarde e os paparazzi da Mulholland Drive esperam à entrada da garagem subterrânea do Hotel Four Seasons enquanto esperam por Britney. É uma cena já vista em todos os hotéis de Beverly Hills. ‘Ela ficava no Bel-Air, depois no Peninsula, agora vem muto ao Four Seasons’, conta Félix Filho, o líder do time da X17 que fica na cola de Britney. Eles são conhecidos no ramo como ‘os brasileiros’, o grupo de oito fotógrafos que, juntos, já passaram mais de 40.000 horas seguindo cada passo de Britney enquanto registravam algo como 6 milhões de dólares em imagens exclusivas. Quando Britney cumprir sua aparente sina e morrer numa batida de carro ou numa overdose de remédio, estes oito estarão lá e não perderão uma foto.

É um trabalho, eles dirão. Compram suas máquinas digitais em várias parcelas na mais barata das lojas americanas, têm uma vaga noção de como fotografar, estão prontos para o serviço.

Tags: Mídia · Pop

Open thread

17/March/2008 · 296 Comentários

A semana é curta.

Tags: Open thread

A diferença que blogs podem fazer

17/March/2008 · 108 Comentários

Dica do Marcelo Estraviz

Tags: Blogosfera