O Weblog, a democracia digital
e a Casa da Mãe Joana, coitada

Administrativas · 26/03/2008 - 00h47 - 168 Comentários

Às vezes, lendo comentários no Weblog, fico francamente horrorizado. Como é possível que boas pessoas cedam tão facilmente e com tanta rapidez a seus instintos mais bárbaros?

Bem: esta é a Internet. Não deveria me surpreender.

Mas surpreende. Tenho uma história na lida com gente em rede. Fui sysop de dois BBSs antes de haver Internet comercial no Brasil. Fui moderador de várias listas. O Weblog tem cinco anos e meio. No conjunto, tenho uns 15 anos de experiência com comunidades digitais. É um ano mais do que minha carreira de jornalista. Já li um bocado a respeito de psicologia de massas. E tenho estudado muito democracia nos últimos tempos. Quero entender como ela será viável neste nosso mundo em que a praça central é eletrônica.

Agressividade no nível que tenho lido nas caixas de comentários nos últimos meses já vi igual em vários cantos da rede. Em comunidade eletrônica sob minha responsabilidade, é uma experiência nova.

Sempre fui a favor do uso de apelidos. Sempre fui de todo avesso a qualquer forma de censura. Sempre estimulei o diálogo. Há alguns blogs mais visitados do que este na Internet. Nenhum fora de grande portal é tão comentado. O Weblog é o que sempre quis que ele fosse: uma área de diálogo, não de monólogo do blogueiro.

Já ouvi de muitos companheiros da blogosfera que o Weblog era legal mas a caixa de comentários, intransitável. Queriam dizer que tinha muita gente que defendia com ardor opiniões contrárias às deles. Sempre considerei, comigo mesmo, este tipo de coisa elogio.

Mas ultimamente, não de todo mundo, apenas de alguns, mas com cada vez mais freqüência, com cada vez mais constância, não vêm mais idéias e sim ofensas; não há mais ironia e sim indelicadeza. Ser delicado, ser gentil, ser cortês: isso a gente não ensina. Mas todo mundo aqui é alfabetizado e sabe como se faz quando queremos ser agradáveis.

Quero a ajuda de vocês.

A primeira ajuda é um exercício de cortesia. Não é o tipo de coisa que a gente exige. Só se pede. Peço, por favor, respeito. A mim, como anfitrião. E a todos. Antes de falar, não custa, pergunte-se: ‘ofendo?’ Se achar que sim, evite. Ver duas pessoas se esmurrando num botequim é desagradável.

Não somos bárbaros, somos civilizados. Isto aqui é uma democracia. Todos são bem-vindos não importa o credo, a cor, as convicções, a idade, o sexo. Numa democracia, aquele com quem não concordamos tem pleno direito de expressar suas idéias. Podemos discordar; podemos até discordar enfáticos, mas jamais fazer suposições a respeito de seu caráter. Quem considera mau caráter ou ingênuo aquele no campo ideológico oposto é apenas alguém que tem muito ainda a amadurecer socialmente.

A segunda ajuda é para o caso de o primeiro pedido não surtir efeito.

Não vou moderar comentário por comentário. Não tenho equipe para isso. Não tenho tempo. O Weblog é meu segundo emprego. No dia-a-dia tenho cartão para bater e patrão a quem servir, outros leitores para quem escrever. Pela primeira vez, de três ou quatro meses para cá, a falta de tempo me impede de ler todos os comentários publicados. É impossível.

Além do mais, não sou deste tipo que anda comum na Internet. Gosto de diálogo corrido. De gente para discordar. Não quero comentário que só confirme o que penso, que só tenha elogio.

O que posso fazer? Quero ouvir vocês.

Posso vir a impor registro de nome, sobrenome, email, com login e senha, para todos comentaristas. Proibir o uso de apelidos (nicks). Ou que outras medidas?

Estou aberto a propostas. Isto aqui, afinal, é uma democracia. Mais do que isso, é uma comunidade. É um ambiente de todos vocês também.

Eu disse 15 anos de experiência com comunidades digitais? É verdade. Mas jamais estive à frente de uma comunidade com o tamanho que o Weblog adquiriu nos últimos poucos meses. Talvez seja uma questão de escala. Talvez a Internet à qual fui apresentado como usuário quase duas décadas atrás, nos tempos da Usenet antes da web, jamais volte. Tinha pouca gente. Quando estamos todos na mesma sala, falando ao mesmo tempo, deixamos de nos ouvir. Talvez a nostalgia de um ambiente cordial, na selva da Internet, seja a nostalgia de algo que passou e nunca mais voltará.

Talvez eu tenha que me conformar com o fato de que é assim e será para sempre.

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