Churchill enquanto vilão:
Recontando a Segunda Guerra

História · Livros · 24/03/2008 - 14h10 - 500 Comentários

A história da Segunda Guerra Mundial foi contada e recontada. É uma história clara – a última história de uma guerra clara onde havia herói, havia vilão e a alma da humanidade estava de fato em jogo. Uma guerra com um genocídio no meio, o uso de armamento atômico contra cidades, e um continente destruído. Há algo de novo para contar a respeito da Segunda Guerra? O romancista norte-americano Nicholson Baker acha que sim.

Seu livro se chama Human Smoke: The Beginnings of World War II, the End of Civilization. Fumaça humana: o início da Segunda Guerra Mundial, o fim da civilização.

É um livro pacifista. Mesmo quem não é pacifista deveria sempre prestar atenção ao que dizem os pacifistas. No fim, eles podem estar errados. Mas são eles que têm em mente os custos de uma guerra.

O livro evita adjetivos. Nada é heróico, nada é infame. Ele lista fatos colecionados em diários, jornais, revistas e memórias de época. Os fatos, às vezes anedotas, às vezes pequenos detalhes, compõem um mosaico que serve à ilustração do clima imediatamente anterior à Guerra. Um trecho da resenha publicada na New York Magazine:

O objetivo de livros de guerra é, naturalmente, chocar. Mas esta é uma característica particular do livro de Nicholson Baker, que traz consigo um pesado fardo revisionista. Fica claro de imediato que ele não é um curador de factóides: é um pacifista virulento. O espírito de Gandhi permeia todas as páginas de Human Smoke. Página após página ele repete a mensagem de que violência – até mesmo ‘boa’ violência – sempre distorce as intenções iniciais, aumenta o sofrimento, faz circular o mal. Nas anedotas relatadas por Baker, até os políticos mais admirados se mostram hipócritas da pior qualidade que todo argumento usam em nome da guerra. O retrato mais controverso é o de Winston Churchill, que aparece como um anti-semita beligerante, um supervilão alcoólatra. Churchill manipula a imprensa, aprisiona refugiados, recusa a paz sempre que pode, é um assassino que conta piadas de péssimo gosto: ‘vocês podem querer matar mulheres e crianças… eu, não; meu lema é o trabalho antes do prazer’. Churchill recusa alimento a uma Europa famita porque os alemães podem usá-lo como armas – ‘o material plástico usado para os aviões deles é derivado de leite’. O premiê britânico enfeita assassinatos em massa com aliterações retóricas – ‘Não conversaremos, não faremos tréguas com a gangue que leva suas intenções do mal; eles farão seu pior e, nós, o nosso melhor.’

Recentemente, Baker disse que o tom austero de seu livro era, em parte, uma reação à retórica de Churchill. Diz o escritor: ‘A eloqüência interminável de Churchill ao longo da guerra me fez abandonar o uso de adjetivos.’ Ele escreve em Human Smoke: ‘Bombardear, para Churchill, era uma forma de pedagogia, uma maneira de mostrar aos moradores de uma cidade em primeira mão o inferno que ocorria nos campos de batalha.’

É uma guerra na qual os mocinhos produziram Dresden, Hiroshima, Nagasaki; uma guerra na qual, alguns historiadores afirmam, os aliados poderiam ter impedido o Holocausto mas não o fizeram para não distrair dos esforços táticos que a estratégia exigia. Mas não deixa de ser surpreendente a lenta transformação de Churchill em vilão. Num dos homens responsáveis pelo abandono da civilização.

No New York Times, a resenha é assinada por Colm Tóibín, gênio da literatura escocesa, eterno candidato ao Nobel. É Tóibín quem escreve:

Os personagens principais do livro são Churchill e Franklin Roosevelt; membros do movimento pacifista incluindo Gandhi; Hitler e sua laia; os autores de diários Victon Klemperer, em Dresden, e Mihail Sebastian, em Bucareste. Mas, muitas vezes, são fatos muito simples que nos abalam na leitura, fatos muito claros como este, bem no início do livro: ‘A Força Aérea Britânica jogou mais de 150 toneladas de bombas sobre a Índia. Isto foi em 1925.’ Isto vem logo após alguém levantar a idéia de bombardear alvos civis no Iraque, em 1920, ao que Churchill escreve: ’sou plenamente a favor de usar gás letal contra tribos incivilizadas’. Este é o tema do livro que Baker, que vai costurando histórias assim entre 1920 e 1942. Para ele, o bombardeamento de aldeias e cidades por aviões é o ‘fim da civilização’. [...]

O problema, diz Baker, é que os bombardeamentos serviram à morte em massa da população civil mas os sobreviventes não culpavam a liderança nazista; estes, por sua vez, usavam os bombardeios como desculpa para infligir mais sofrimento à população judaica sugerindo, por exemplo, que expulsar judeus de suas casas era ‘justificado para oferecer teto aos arianos cujas casas foram destruídas’. Já em 1941, um dos ministros de Churchill escreveria: ‘Bombardeios NÃO afetam a moral alemã: vamos enfiar isto na cabeça e parar de gastar nossa artilharia nisto.’

Foi assim, no entanto, que a guerra foi conduzida até o fim.

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