A China como ela se vê 3: Hegemonia mundial

China · Coréia do Norte · 21/03/2008 - 08h08 - 48 Comentários

Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil – está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.

Este é o terceiro e último post baseado no artigo de Mark Leonard na Prospect. Leonard é autor de What does China think?, à venda na Amazon dos EUA e do Reino Unido. O assunto de hoje é a relação da China com o resto do mundo.

Hoje, o pensamento hegemônico – embora não unitário – na China passa ao largo das opiniões de Yi. A palavra de ordem é quanli, equivalente ao soft power norte-americano. A diplomacia do país busca ações que vendam a idéia do ’sonho chinês’ em oposição ao americano. Daí que, enquanto os EUA falam de mudança de regime pelo mundo, Beijing defende o respeito à soberania dos países. A mensagem que querem passar é que a China representa crescimento econômico, soberania política e respeito às leis internacionais. A idéia é: a China ouve outros países. E é esta China que aceita o papel de mediadora em conversas com a Coréia do Norte ou o Irã.

Este é um ponto de vista particularmente defendido pela ‘nova esquerda’ do país. Gente como Yi representa o equivalente aos neo-conservadores e estes recorrem aos antigos pensadores da terra propondo um novo projeto. Há, dizem eles, dois tipos de influência. Wang é a influência do rei. O rei lança uma influência benigna ao longe; no outro lado está Ba, o ’senhor feudal’. Ele impõe pela força seu comando. Na antiguidade, propõem Yi e Yan Xuetong, a China aplicava tanto um quanto o outro. Para os vizinhos imediatos, Ba; para os países mais distantes, Wang.

Por enquanto, a China está empenhada em parecer conciliadora. Enquanto a Rússia não perde uma chance de provocar os EUA, a China se desvencilha de conflitos. Quando, na ONU, o Conselho de Segurança estava embrenhado na questão de ir ou não à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, os chineses se calaram, permitindo aos russos e franceses que vocalizassem a oposição. Na questão dos direitos humanos, a China permitiu que os países muçulmanos se levantassem contra regras mais rígidas. Conseguiu o resultado que queria sem se expor ao desgaste. O resultado desta política é o seguinte: Em 1995, os EUA venceram 50,6% das votações na Assembléia Geral da ONU; em 2006, apenas 23,5% delas. George W. Bush não ajuda, evidentemente. Mas para aproveitar a fraqueza do inimigo carece esperteza. Em 95, a China venceu 43% das votações; em 2006, 82%.

Habilidade no jogo diplomático não quer dizer que a China vença o jogo de percepção – e este é o centro do argumento do almirante Yi. Ao promover o respeito à soberania de todas as nações, o cada um faz o que achar melhor, lava cinicamente as mãos perante o genocídio de Darfur, no Sudão.

A África é muito importante para a China. Em 2007, o país criou uma Zona de Economia Especial que engloba o continente. Seu modelo de crescimento está sendo implantado em vários bolsões pelo continente. Com o dinheiro chinês, a África dá as costas para o FMI e o velho sistema internacional. Tem crescido a partir de investimentos maciços. Estradas de ferro e indústrias, obras de infra-estrutura, surgem onde antes só havia miséria. O agrado à África dá de volta à China petróleo, produtos, influência. Não vem sem custo: a impressão de que há um imperialismo em curso e, principalmente, de que a China não liga para as piores aberrações. À China, tudo vale.

Não é que com os EUA seja diferente. Apenas que o almirante Yi está certo. No jogo de percepções, ainda há um longo caminho a percorrer. A crise da última semana, no Tibete, só mostra duas coisas: o fato de ser uma ditadura e, portanto, simplesmente ignorar as questões de direitos humanos persistem sendo o maior obstáculo ao ingresso da China no universo das superpotências.

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