A China como ela se vê 2: Direita e esquerda

China · 20/03/2008 - 06h54 - 96 Comentários

Este segundo post baseado no longo ensaio assinado por Mark Leonard na Prospect trata de o que se entende por pensamento de direita e de esquerda na China. Não há de ser surpresa que, mesmo num país comunista, muito pouco muda. Leonard é autor de What does China think? – O que pensa a China? (na Amazon dos EUA e na do Reino Unido.) O terceiro e final sai amanhã.

O pai da revolução econômica chinesa é o professor Zhang Weiying. A partir de meados dos anos 80, ele desenvolveu o processo que implantou uma ‘economia de mercado’ na China. Como seu objetivo não era promover um choque de capitalismo, que poderia destruir o país, Weiying propôs que o governo continuaria a controlar os preços da maioria dos produtos enquanto que o de outros poderiam flutuar de acordo com o mercado. Durante os quinze anos seguintes, mais e mais produtos foram incluídos à cesta até que o governo já não controlava mais nada.

Perante o público, o governo continuou a chamar tudo de ‘comunismo’. Na China é assim: não importa muito como as coisas funcionam, o que importa é que tenham o nome certo. Weiying é um dos principais nomes do pensamento da ‘direita’ do Partido Comunista.

Seu projeto de permitir que os preços encontrados na feira ou na loja de eletrônicos fossem ajustados de acordo com o mercado foi possível por conta das reformas implantadas pelo sucessor de Mão Zedong, Deng Xiaoping. Foi Deng que, em 1979, permitiu à pequena cidade de Shenzen que se tornasse uma ‘zona econômica especial’. Quer dizer: o governo não regularia aquilo que os empresários locais decidissem produzir e ainda concederia generosos abatimentos nos impostos. Partiram para os produtos eletrônicos de consumo.

Deng defendia que alguma regiões deveriam enriquecer primeiro – a história do dividir o bolo depois circulava também o mundo comunista naqueles tempos. Weiying defende ainda hoje que a China precisa continuar no processo que concede mais liberdade de mercado, não menos.

Hoje em dia, no entanto, o governo já não lhe concede mais ouvidos tão generosos como fez no passado. Há uma ascensão dos intelectuais de ‘esquerda’. O principal representante deste grupo é Wang Hui, um dos líderes dos estudantes que se levantaram em 1989, na Praça da Paz Celestial. À época, como o típico revolucionário estudantil chinês, ele queria abertura plena de mercado. Mas após as tropas marcharem contra os revoltosos, Hui caiu na clandestinidade. Primeiro, por dois anos, viveu escondido no interior, onde conheceu a desigualdade e a pobreza de seu país. Depois, exilou-se nos EUA, onde estudou. Hoje, é benquisto, um dos pensadores mais influentes.

Ele pertence à ‘nova esquerda’, não aos velhos comunistas. Defende que reformas econômicas são necessárias e não tem ojeriza ao mercado. Mas acha também que, ao promover uma política econômica que valoriza apenas o crescimento desenfreado do PIB, o governo acaba por impor sofrimento a trabalhadores e meio-ambiente.

Tanto Hui quanto outros pensadores de seu grupo – Cui Zhiyuan, Hu Angang – buscam um modelo de social democracia. Num país do tamanho da China, no entanto, e com o grau de desigualdade social que ainda há, o modelo nórdico é impossível. O resultado, no entanto, é que serviços básicos de saúde no interior, por exemplo, é inexistente. Daí que cogitam a possibilidade de, nos bolsões de riqueza, cobrar (ainda que pouco) por seguros de saúde. Seus outros projetos envolvem novas leis sobre os direitos de propriedade, que dêem voz aos trabalhadores das fábricas várias. Não é que eles se tornariam sócios. Apenas que teriam voz.

Em 2005, influenciado pela ‘nova esquerda’, o presidente Hu Jintao editou o 11º Plano Qüinqüenal chinês que, pela primeira vez desde 1978, não punha como projeto prioritário o crescimento econômico. Para 2010, o objetivo do governo passou a ser a ampliação dos fundos de pensão públicos – que são minguados, hoje –, a criação do seguro desemprego, a implementação de licença maternidade e uma redução de 20% do consumo de energia. Há um enfoque também em melhorar as condições da China rural, suspendendo vários impostos pesados, melhorando as condições dos sistemas de saúde e de educação.

Na China, qualquer transformação é feita sempre com muita lentidão. Mas o governo tem consciência de que, no exterior, as condições de vida no país são vistas como selvagens. A queda à esquerda tem a ver com a percepção de que a economia de mercado ampliou a desigualdade ao mesmo tempo em que enriqueceu o país. Mas também tem a ver com a questão da imagem. Os chineses querem mais poder no mundo e, neste jogo de influência, imagem conta.

Este tema, o da crescente influência chinesa no mundo, é o tema do último post, amanhã.

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