A China como ela se vê 1: Democracia

China · 19/03/2008 - 06h50 - 101 Comentários

A última edição da revista britânica Prospect traz na capa um longo ensaio assinado por Mark Leonard a respeito da atual geração de pensadores chineses. O estereótipo de um país fechado às vezes complica a compreensão da China. Muitas coisas são, de fato, proibidas. Mas o regime permite que intelectuais pensem e até incentiva o debate. Acreditam que só assim idéias novas surgirão para determinar o governo, os objetivos e as estratégias da China nos próximos anos.

O resultado é que várias correntes de pensamento claramente inovadoras, embora ainda desconhecidas no Ocidente, estão surgindo. O artigo de Leonard é um resumo de seu livro que está para ser lançado, What does China think? – O que pensa a China? (na Amazon dos EUA e na do Reino Unido.) Este post, baseado no artigo, virá numa série de três a serem publicados nos próximos três dias. O primeiro trata de democracia.

Diz o senso comum ocidental que, onde chega o livre mercado, logo chega a democracia. Muitos pensadores chineses questionam a idéia – ao menos, no sentido que nós damos à palavra, de democracia liberal. Yu Keping, um professor que tende à esquerda chinesa e, hoje, é próximo ao presidente Hu Jintao, vem defendendo a posição que se tornou dominante no governo. Assim como a economia foi apenas muito lentamente sendo aberta, liberdade política deve caminhar com igual cautela. E assim como, no tempo de Deng Xioping algumas cidades da costa tiveram a permissão de fazer experimentos com um mercado livre, algumas regiões têm, hoje, a permissão de mexer com democracia.

Seguindo a idéia de Keping, não é democracia para o povo ainda. A democracia é para membros do Partido. Em algumas cidades, os membros têm direito a votar para escolher seus líderes. (E, para alguns cargos, as eleições vem se tornando concorridas, com campanha e tudo.) Parece pouco, uma democracia que virá apenas para o PC. Mas o Partido, com 70 milhões de membros, teria um eleitorado maior que o do Reino Unido e terminaria – segundo o projeto idealizado por Keping – tendo partidos internos que se digladiariam por ideais de China.

(Antes que alguém questione, há sim um movimento de direita e outro de esquerda dentro do governo da China. Se definem, assim como aqui fora, por aqueles que acreditam que as leis de mercado deve assumir as rédeas da política de Estado e os que, por outro lado, defendem que o governo deve garantir o bem estar da população em determinados setores.)

Keping quer que a democracia, o poder de voto, chegue à população apenas após um bom tempo de experimentação. Seu argumento é que onde há eleição há confusão na rua, o povo reclama, há instabilidade. Outro professor, Pan Wei, questiona suas idéias e propõe um modelo diferente. A democracia chega ao povo mas não pelo voto. Seu argumento é que em todos os países em que há democracia com livre direito ao voto, cada vez menos os eleitores têm ido às urnas e a descrença geral nos líderes é evidente. Wei e um terceiro professor, Fang Ning, estão testando numa cidade de 30 milhões de habitantes chamada Chongqing as idéias de James Fishkin, um cientista político norte-americano ligado à Universidade de Stanford.

É uma tentativa de reaplicar, com ferramentas modernas, o modelo ateniense. Um grupo de cidadãos é escolhido aleatoriamente e passam por workshops com técnicos do funcionalismo público. Eles são apresentados aos problemas da cidade, às soluções possíveis, fazem perguntas. Ao fim do processo, este grupo de cidadãos escolhe como deve ser empregado o orçamento da cidade para aquele ano. Chamam o processo de democracia deliberativa.

Numa terceira cidade, grupos de foco – como aqueles das pesquisas de opinião – são consultados a respeito daquilo que gostariam de ver resolvido na cidade.

Essencialmente, a China é tão vasta e tão populosa que o governo decidiu que pode fazer experiências até encontrar um modelo que considere ideal. Seus cientistas políticos debatem na imprensa, via Internet, nas revistas especializadas mas, além disto, têm algo que intelectuais não têm em qualquer outro país. A oportunidade de botar em teste suas idéias no campo.

Não é de forma alguma esquisito flertar com outros modelos para democracia. Há muitos problemas nas democracias ocidentais e uma certa falta de idéias e vontade de resolvê-los. Na opinião deste blogueiro, as dificuldades atuais das democracias compõem o tema mais fascinante que existe. O que chama atenção aos olhos, no caso chinês, não é a coragem de buscar novos conceitos. É o fato de que estas experiências controladas com um laboratório de cidades que realmente existem e na qual vivem pessoas de verdade só seria possível numa ditadura.

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