O Tibete, a China, o boicote
e uma sinuca de bico

China · 16/03/2008 - 00h12 - 292 Comentários

Que protestos tibetanos eram esperados às vésperas das Olimpíadas de Beijing, não há dúvidas. Do governo chinês aos diplomatas estrangeiros, todos estavam esperando. Ted Plafker, correspondente da revista britânica The Economist era o único jornalista estrangeiro em Lhasa quando as manifestações tiveram início:

Vi grupos de pessoas jogando blocos de concreto contra várias lojas que pertencem a chineses no velho setor tibetano da cidade. Os próprios chineses, sempre que um era encontrado, não escapavam das pedras – um menino numa bicicleta, taxistas e mesmo um motorista de ônibus. A maioria dos chineses deixaram a região tão rápido quanto puderam, fechando suas lojas.

As passeatas pela cidade foram sendo formadas, pequenos grupos de jovens (alguns armados com espadas tibetanas tradicionais) aqui, grandes grupos de algumas dúzias incluindo mulheres e crianças ali, que foram circulando pelos becos estreitos do bairro. Jogavam coisas contra as portas das lojas, invadiam-nas e pegavam o que podiam, de pedaços de carne a botijões de gás e roupas. Alguns dos produtos eles levavam consigo – vi crianças saqueando uma loja de brinquedos – mas a maioria das coisas eram jogadas no meio da rua e incendiadas.

Após algumas horas, havia fogueiras altas pelas ruas de toda a cidade. Alguns prédios também pegaram fogo. Uma trilha de fumaça escureceu Lhasa, escondendo o antigo Potala – o mais famoso monumento da capital, que ocupa um monte sobre a cidade. É o tradicional palácio de inverno do Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, que viajou para o exílio na Índia após uma tentativa de levante, em 1959. Alguns dos manifestantes gritavam slogans como ‘longa vida ao Tibete’ e ‘longa vida ao Dalai Lama’.

Faz dois anos que abriu a principal linha de trem da China para o Tibete. Com a facilidade do transporte, vieram os chineses, com mais dinheiro, abrir negócios. É a política de Beijing: povoar o Tibete com gente de etnia chinesa para dissolver a população local. Com o trem, o dinheiro e os novos negócios, veio o turismo interno. Lhasa vive cheia de chineses. Com o trem, o dinheiro, os novos negócios e o turismo, entre chineses, a vida vai bem; não entre tibetanos, que dos novos tempos só sentiram o aumento do custo de vida. Para eles, a vida vai mal.

Nas contas da imprensa estrangeira são mais de 100 mortos. E os tanques estão chegando.

O governo chinês não tem como ganhar. Se não enviar o exército, perderá o controle da situação. O tumulto aumentará. Os chineses em Lhasa terminarão por ser expulsos. Um novo episódio como o da Praça da Paz Celestial ocorrerá. Se enviar o exército – e esta parece ter sido mesmo sua opção – um banho de sangue está ameaçado. Daí, o movimento levantado por aqueles que protestam contra a posição chinesa perante o genocídio em Darfur pode ganhar forças. Um boicote em grande escala às Olimpíadas terá sérias conseqüências para a China. Dependendo de como o país agir, o risco é presente.

E daí a sinuca de bico: a China tem que interferir. Se não interfere, todas as minorias étnicas em seu território, várias pequenas crises eternamente abafadas, perigam estourar.

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