Eleições no Irã e, quem sabe,
o início do fim de Ahmadinejad

Irã · 14/03/2008 - 09h50 - 123 Comentários

Os iranianos estão deixando suas casas, hoje, para votar. Em jogo estão as cadeiras na Majlis, o parlamento do país, órgão que além de legislar tem a função de sancionar acordos internacionais. Tem algum poder, mas não muito: o Conselho dos Guardiões, que não é eleito, misto de Senado e Supremo Tribunal, é que sanciona qualquer lei proposta pela Majlis.

Ainda assim, a eleição é importante. Os candidatos reformistas foram cassados – isto inclui até netos do falecido aiatolá Ruhollah Khomeini – mas o movimento reformista, liderado pelo ex-presidente Mohammad Khatami está incentivando seus eleitores a votarem assim mesmo. Se a eleição terminar por parecer uma derrota do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o impacto político interno será grande.

Os olhares estão voltados para um trio: Ali Larijani, que foi negociador em nome do Irã da questão nuclear, Mohsen Rezaii, ex-comandante da Guarda Revolucionária e Muhammad Qalibaf, atual prefeito de Teerã. A Economist os descreve como a ‘linha dura pragmática‘.

A política iraniana é um jogo sutil no qual o voto útil tem um papel mais importante do que nas democracias reais. O aiatolá Ali Khamenei apóia o presidente Ahmadinejad mas, além de líder religioso, é também um homem político atento aos recados do povo.

Qalibaf, que sucedeu Ahmadinejad na prefeitura da capital, pretende concorrer contra ele na disputa pela presidência em dois anos. Para ter chances, tem que ser bem votado agora. Se o grupo adversário de Ahmadinejad vencer mais cadeiras do que ele, gabaritando Qalibaf, Khamenei perceberá que é hora de deixar seu atual protegido.

Com os reformistas de fora, estes são os líderes conservadores que sobraram. A linha dura pragmática pode não representar o grupo dos sonhos de um bom naco da classe média urbana iraniana, mas sua eleição pode ser o início do fim de um governo Ahmadinejad. Sua derrota, por outro lado, fortalece o atual presidente. Não é à toa que ele passou as últimas semanas circulando pelo interior do país em campanha.

Há muito dinheiro petroleiro circulando no Irã mas, ainda assim, a inflação é alta e a condução da economia desastrosa. É o ponto fraco de Ahmadinejad perante os mais pobres no interior rural, embora estes sejam ainda seus eleitores mais fiéis.

E o que esperar de um futuro governo Qalibaf? As ambições nucleares iranianas permanecem. Mas a retórica anti-Israel vai embora.

Ainda sobre o assunto:

  1. O TSE não sabe, mas… Os ministros velhinhos do TSE talvez tenham dúvidas a respeito de como usar a Internet. Os aiatolás velhinhos não têm....
  2. No Irã, tem início uma semana de indecisão Depois do sábado sangrento e de um domingo relativamente calmo, a semana começa no Irã. Na sexta-feira, o aiatolá Khamenei...
  3. As eleições no Irã, as do Líbano Ontem à noite, na tevê iraniana, o presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou seus adversários de estarem em conluio com os israelenses...
  4. E começou a dança das cadeiras no Irã:
    Khatami, Mousavi, Karroubi, Ahmadinejad
    Se política às vezes consegue ser bem complicado numa democracia, no Irã é bem pior. A essas alturas, é quase...
  5. Ahmadinejad fala à tevê dos EUA Poucas coisas são tão infernais quanto entrevistar político iraniano. Quando arrancam o compromisso de sigilo da fonte, explicam, contam algo....