Pedro Doria | Weblog

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Leituras

March 13th, 2008 · · 28 Comentários

Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)

Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.

A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.

Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.

Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.

Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.

Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.

Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.

Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.

O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.

Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.

Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.

Tags: Cristianismo · HQ · História · Igreja Católica · Judaísmo · Livros · Sexo

28 Comentários até agora ↓




  • 1 Jåµë§ ßønd™ // 13/March/2008 às 10:40

    -= I’m The One

  • 2 Nat // 13/March/2008 às 10:40

    PD, recentemente li A mão do Amo, do Tomás Eloy Martinez. Fantástico.

  • 3 Chesterton // 13/March/2008 às 10:44

    religião é síntese mítica, não análise crítica.

  • 4 Mario // 13/March/2008 às 10:45

    PD,

    História não é ciência. É uma construção discursiva baseada em interpretações particulares e uma boa dose de retórica.

  • 5 Darwinista // 13/March/2008 às 10:55

    Milo Manara rules!

  • 6 Jåµë§ ßønd™ // 13/March/2008 às 10:55

    -= Olha… em comparação a você, Pedro Doria, minhas leituras andam muito modestas…

    Estou lendo entre uma viagem de ônibus e outra. Andar de bike reduziu consideravelmente minha hora de leitura, já que estou acostumado a ler em trânsito.

    –X–

    Adquiri A Viagem de Theo - O Romance das Religiões, livro que comecei a ler emprestado de uma ex-namorada e só agora pude retornar. Resolvi começar tudo de novo, afinal eu detesto coisas mal acabadas ou mal começadas.

    Em adição, estou relendo também, mais como referência do que como leitura, Uma Breve História de Quase Tudo… perspicaz livro que faz um apanhado do que se sabe, atualmente de … quase tudo que existe. É um livro pesado mas divertido. Recomendo.

    Agora, no que se refere a histórias em quadrinhos, estou me divertindo com meu novo vício.100 Balas - do Brian Azzarello… a trama gira em torno de um homem, Agente Graves, que dá a algumas pessoas uma maleta com provas irrefutáveis sobre quem as prejudicou, imunidade total e irrestrita no caso de vingança utilizando o terceiro ítem da matela: uma pistola e 100 balas irrastreáveis.

    O que parece ser simples vai ficando cada vez mais medonho e sinistro. Já estou no número #86.

    –X–

    listening [+] I’d Rather Dance With You Than Talk With You | Kings of Convenience

  • 7 Jåµë§ ßønd™ // 13/March/2008 às 10:57

    PS: óbvio que um pervertido como eu tem em sua coleção as mulheres de Manara e Drunna, esta última completa, eu acho.

  • 8 Andre Fucs // 13/March/2008 às 11:14

    Eu finalmente acabei de ler o Eastward to Tartary do Robert Kaplan. Adorei. Dá uma puta vontade de mandar tudo pro alto e ir arriscar a vida na rota da seda, também apelidado pela Mother Fucs de “caminho do diabo” devido à quantidade de morte e sofrimento que aquele pedaço do mundo testemunhou.

    Ficou no ar a curiosa percepção de que apesar da demonização, Israel não está sozinha na lista de países em risco de extinção. As conseqüências mais discutidas da queda do império Turco Ottomano (caos no Oriente Médio) são pinto perto do caos da Ásia central, a sucessão de deslocamentos populacionais e limpeza étnica envolvendo Azares, Armênios e Turcos.

    A próxima leitura ficam sendo os 30 artigos que tenho que ler para a faculdade em menos de 4 semanas e mais adiante devo abordar esse último tema(Cáucaso e arredores) ou talvez eu leia o livro do Pappé + o livro do Morris visto que tivemos a mesma idéia de ler o livro e a contra argumentação para o debate já programado.

    Depois será hora de me enfiar em micro e macroeconomia. Suspense…. :-)

  • 9 Radical Livre // 13/March/2008 às 11:21

    PD,

    eu gosto do manara e já li o click 3. Gostei muito mas, depois pensando melhor, há uma certa perversão ali que me incomoda um pouco. Não acho que se trate de puritanismo de minha parte, mas às vezes ele dá uma exagerada.

  • 10 Ricardo Cabral // 13/March/2008 às 11:24

    Sobre policiais, os meus detetives favoritos continuam sendo o Cliff Janeway, ex-policial que entrou para o ramo dos livros raros (e em particular as suas primeiras edições), mas que continua a meter-se em confusões, crimes, assassinatos e fatos que atravessam a história dos EUA. É personagem do John Dunning, não por acaso tb especialista em livros raros — sua livraria virtual é a Old Algonquin Books.

    O outro é o comissário Salvo Montalbano, do escritor Andrea Camilleri, ambientado na cidadezinha fictícia de Vigàta, no sul da Itália. O Comissário Montalbano é uma figuraça, com todo um modus operandi que poderia caber a um policial de tantos países latinos, de variações de humor, eventual cinismo, teimosia e “jeitinho” para lidar com a corrupção, o crime organizado e as máfias locais e internacionais.

    O sucesso desse personagem é tamanho que virou não só uma série de televisão que reproduz os livros à perfeição — tenho vários episódios num DVD —, como tb fez com que a pequena Porto Empedocle, onde nasceu o Camilleri, adotasse Vigàta como segundo nome, com as bênçãos do escritor…

  • 11 Jåµë§ ßønd™ // 13/March/2008 às 13:38

    -= Estou muito curioso, também, eu comprar um livro chamado “O Assassino Ético” que ví na Siciliano.

    Gostei da frase de abertura…“- Há sentido em ser ético quando as consequências dos atos não são?”

  • 12 Tia // 13/March/2008 às 13:52

    “Seria bom comprar livros se, junto com eles, fosse possível comprar o tempo para lê-los” Arhur schopenhauer

  • 13 Marcos Araújo // 13/March/2008 às 14:00

    É…. esse furou. 12 comentários - Cacilda!

  • 14 Pedro Doria // 13/March/2008 às 14:11

    Mario: essa é uma boa e longa discussão.

    Mas o livro trata de arqueologia, de datação e análise de artefatos, não de narrativa.

  • 15 Ana Pulg // 13/March/2008 às 14:28

    Acabei de ler três livros. Gostei dos três.
    “Adeus China” de Li Cunxin, que é um relato autobiográfico de um menino camponês e bailarino no regime de Mao até a abertura da China.
    “Neve” de Orhan Pamuk, em Kars na Turquia e “Meu nome não é Johnny” do Fiuza.

    E, agora “O outro pé da sereia” do Mia Couto, que me dá muito sono, embora as estórias sejam atraentes e fantásticas ( são duas estórias).

  • 16 Juca Azevedo // 13/March/2008 às 15:48

    Pedro, seus posts já são excelentes. Mas este tipo de post é o mais enriquecedor de todos. Não há post mais agradável do que aquele que dá dicas sobre bons livros. Repita sempre isso… Abraço.

  • 17 Juca Azevedo // 13/March/2008 às 15:56

    Uma pequena correção: o nome do autor de “Yiddish Policemen’s Union” foi grafado errado. Ele é o Michael Chabon, autor dos clássicos “Garotos Incríveis” e “As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay”.

  • 18 Clara // 13/March/2008 às 16:04

    Algum desses livros estão na seção “Na cabeceira” do blog? =)

    Estou lendo “De volta à vida” (Get a Life) de Nadine Gordimer.

  • 19 anrafel // 13/March/2008 às 16:25

    John Dominic Crossan é um importante historiador dos primórdios do Cristianismo, além de super empenhado numa tarefa considerada inglória por Harold Bloom e Jack Miles: a busca de evidências históricas do ministério de Jesus.

    Começou com “O Jesus Histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo”. Faz parte do Jesus Seminar, grupo de acadêmicos dedicado a esse tema.

    Em 1993, a entidade lançou The Five Gospels, livro onde é afirmado que do contido nos evangelhos apenas 19% pode ser atribuído de fato a Jesus.

  • 20 Alba // 13/March/2008 às 16:51

    Bem, eu terminei recentemente “O pessoal de July”, de Nadine Gordimer, que traça um painel interessante do que teria acontecido à Africa do Sul se os negros tivessem chegado ao poder pela força (o livro é de 1987).

    Nessas circunstâncias, uma família branca que adia a partida, mesmo com o relato de sucessivas agitações, acaba tendo sua casa invadida e, depois de salvar tudo que puderam transportar, busca abrigo na choça onde vive July, um de seus empregados negros, que oferece auxílio. Aí experimentam como é viver literalmente na penúria e convivendo com gente de cultura bem diferente. Muito interessante.

    E estou lendo 1808. Leitura fácil e muito interessante sobre os 200 anos da Família Real. Recomendo.

  • 21 Marcos Araújo // 13/March/2008 às 16:53

    Juca no 16:

    Dica sobre livros é bom, mas bem que o PD poderia ser mais conciso e menos prolixo nas próximas, né?

  • 22 Marcos Araújo // 13/March/2008 às 16:58

    Alba de volta! Bacaaaana.

    Acho o seu nick Alba legal, bunito, coisa pura. É o nome, se minha memória nao me falha agora, da personagem principal do livro (um tijolo) “A casa dos espíritos” da Isabel Allende, do qual gostei imensamente. Até fizeram um filme, com óimos atores americanos e inglêses, mas o livro é 10 vêzes melhor.

  • 23 Alba // 13/March/2008 às 17:04

    Caramujo,

    É mesmo um romance maravilhoso. A personagem principal é Clara, a filha é Alba e a neta, Blanca. Sempre existe essa associação..

    No meu caso, foi o nick que escolhi pra entrar num chat de cinema, séculos atrás, porque meu nome mesmo já tinha alguém. E devo ser meio esquizofrênica, porque tantos me chamam de Alba, inclusive algumas pessoas que conheci primeiro na net e depois, pessoalmente, que eu às vezes, até penso em mim como Alba..:))

  • 24 Marcos Araújo // 13/March/2008 às 17:20

    Alba, nome lindíssimo para uma bela pessoa, e muito mais musical que Clara ou Blanca. Nunca me esquecí daqueles personagens.

    Esquizofrênica que nada! Você é…… Alba.

  • 25 josef mario // 13/March/2008 às 17:31

    Companheiros de esquerda, maoístas e bolivarianos
    Eu, josef mario, devo dizer que não curto muito esta chamada literatura policial. Talvez pelo fato da minha 1ª profissão, há muitos anos atrás - e bota anos nisso, tenha sido investigador de polícia, sou muito exigente quanto a este tipo de literatura. Como todos os companheiros, neste tipo de post, adoram recomendar a leitura de alguma coisa, eu, josef mario, para não perder o hábito de sempre remar contra a maré, farei uma recomendação contrária. Isto é, recomendarei que os companheiros jamais leiam este companheiro luis alfredo garcia-rosa que se julga inserido nesta categoria de escritores policiais. Por motivos particulares que não vêm ao caso, eu, josef mario, fui obrigado a ler uns 2 ou 3 dos livros deste infeliz. Infelizmente.
    Muito obrigado

  • 26 Marcos Araújo // 13/March/2008 às 18:02

    Nao é que o Joe M. tem razao?

    PD, que tal uma lista de recomendados e nao-recomendados?

  • 27 Alba // 13/March/2008 às 18:09

    Caramujo,

    Você é um amor! :)

  • 28 anrafel // 13/March/2008 às 18:41

    Estou terminando a história do “Jornal da Bahia”, jornal que sofreu na pele, na conta bancária, na reputação dos jornalistas o que é querer ser independente numa terra e numa época em que Antonio Carlos estava começando a mandar e desmandar (principalmente isso).

    E já está engatilhado “Um General na biblioteca”, de Italo Calvino, que é quase um ciência exata. Não deve ser tão bom quanto “As Cidades Invisíveis”, mas isso não é jamais demérito.”As Cidades…” é o píncaro dos píncaros.

    Tradução de Diogo Mainardi. Por essa ele será perdoado por grande parte das bobagens que anda escrevendo na Veja.

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